Atitude Popular

Irã impõe desgaste econômico e militar a EUA e Israel enquanto mediação segue travada

Da Redação

A guerra aberta lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã entrou numa fase em que Teerã tenta transformar o tempo, a energia e o custo regional em armas estratégicas. Pela ótica do Sul Global, o ataque ocidental aparece cada vez mais como uma agressão sem legitimidade internacional, enquanto o Irã endurece suas condições para qualquer negociação e amplia a pressão sobre petróleo, finanças e logística no Golfo.

Pela leitura predominante em parte importante da mídia oriental e contra-hegemônica, o ponto central desta guerra é simples: Washington e Tel Aviv atacaram o Irã enquanto ainda existia uma trilha diplomática em curso, sem autorização do Conselho de Segurança da ONU e em ruptura aberta com normas básicas do direito internacional. A posição chinesa, vocalizada nesta quarta-feira, foi direta ao classificar os ataques como violação da soberania iraniana e como expressão da “lei da selva”. A TRT também repercutiu, com base em reportagem do New York Times, que Benjamin Netanyahu vinha pressionando Trump havia meses para impedir que as negociações com Teerã dessem qualquer sobrevida à diplomacia.

Do ponto de vista militar, a aposta de EUA e Israel parece ter sido a de uma guerra curta, centrada em decapitação política, destruição acelerada de comando e colapso psicológico do Estado iraniano. Mas o que se vê até agora é outra coisa. A Al Jazeera descreve que a estratégia falhou em produzir implosão interna e que o Irã vem respondendo com uma doutrina de “defesa em mosaico”, desenhada para sobreviver justamente a ataques de decapitação, dispersando comando, preservando redundância e mantendo capacidade de fogo mesmo após perdas severas. Na prática, isso transformou a guerra num conflito de atrito prolongado, sem saída rápida e com custo crescente para os agressores.

É nesse ponto que entra o que muitos analistas do Sul Global estão chamando de a grande jogada estratégica iraniana. Em vez de buscar apenas equivalência militar clássica com a superioridade aérea de EUA e Israel, Teerã passou a operar no terreno em que pode impor mais dano sistêmico: economia, energia, seguros, logística, navegação, finanças e percepção de risco. Nesta quarta-feira, o comando militar iraniano afirmou que passará de golpes recíprocos para ataques contínuos e anunciou que interesses econômicos e bancários ligados a EUA e Israel na região poderão ser alvos, depois de um ataque a uma instalação ligada ao Bank Sepah em Teerã. Também advertiu que navios e petroleiros destinados aos EUA, a Israel e a seus parceiros podem ser tratados como alvos legítimos.

Essa lógica de guerra econômica não é retórica vazia. Ela já está produzindo efeito material. A Reuters informou que a guerra praticamente paralisou o tráfego energético no Golfo, empurrou o Brent acima de US$ 119 por barril no início da semana, levou países do G7 a discutir liberação de reservas emergenciais e fez a Agência Internacional de Energia estudar uma liberação recorde de estoques. Ao mesmo tempo, Iraque, Kuwait, Bahrein e outros pontos sensíveis da infraestrutura regional passaram a sofrer cortes, força maior ou interrupções. Em outra formulação dura, a própria Reuters resumiu o quadro assim: os EUA podem ter puxado o gatilho da guerra, mas quem paga a conta imediata é o Golfo produtor de petróleo.

Do lado iraniano, a estratégia é dupla. Primeiro, elevar o preço econômico global da continuação da guerra. Segundo, mostrar ao entorno árabe que o custo de abrigar a arquitetura militar dos EUA é maior do que o benefício de mantê-la. A posição iraniana transmitida a veículos chineses é que Teerã pode regular o trânsito em Ormuz se a segurança na área não puder ser garantida, embora seus representantes insistam que isso não significa necessariamente fechamento formal do estreito. É uma formulação calibrada: não fecha a porta, mas mantém o mundo inteiro sob a sombra permanente do estrangulamento energético.

No plano diplomático, o quadro em 11 de março continua travado, mas não totalmente morto. O Irã não está aceitando “mediação” em termos impostos de fora nem iniciativas de cessar-fogo sem garantias robustas. O chanceler Abbas Araghchi declarou que novas negociações com os EUA “não estão mais na agenda” depois da “experiência amarga” de avançar em conversas e, em seguida, ser atacado. Ao mesmo tempo, canais próximos ao eixo regional favorável a Teerã, como o Al Mayadeen, indicam que o Irã não rejeita negociação em si: rejeita negociar sob bombardeio e sem garantias reais. Em linguagem direta, a exigência iraniana é cessar a agressão primeiro, criar garantias verificáveis depois, e só então reabrir uma trilha política.

Essa posição aparece com nitidez na proposta de três passos defendida por representantes iranianos em interlocução com a imprensa chinesa. O primeiro passo é o mais importante: parar a guerra e impor cessar-fogo pelos iniciadores do conflito, isto é, EUA e Israel. Sem isso, Teerã considera que qualquer conversa seria apenas cobertura diplomática para continuação da agressão. O segundo e o terceiro passos não foram detalhados com a mesma clareza nas notas públicas disponíveis, mas o sentido geral é inequívoco: garantias de não repetição da agressão e retorno a uma solução política com respeito à soberania iraniana. Em paralelo, a China informou que segue em diplomacia itinerante, em contato com Qatar, Paquistão, Kuwait, Bahrein e outros atores regionais, com foco em cessar-fogo imediato e retorno às negociações.

O problema é que, do outro lado, não há sinal equivalente de compromisso. O chanceler israelense Gideon Saar declarou explicitamente que a guerra continuará até que Israel e os EUA decidam parar, sem cronograma definido. Isso desmonta a narrativa de uma desescalada iminente. Trump alterna sinais contraditórios, ora dizendo que o conflito pode acabar “muito em breve”, ora deixando aberta a continuidade das operações. Em outras palavras, as potências agressoras seguem falando a linguagem da força, enquanto exigem do Irã concessões políticas prévias. É precisamente esse desequilíbrio que leva Teerã a insistir que não haverá saída séria sem garantias concretas.

Sob uma ótica favorável ao Irã e coerente com a visão do Sul Global, o que está em jogo não é apenas um capítulo regional, mas um teste histórico sobre soberania, multipolaridade e limites do uso unilateral da força. O ataque ocidental partiu do pressuposto de que um Estado do Sul poderia ser quebrado rapidamente pela combinação de superioridade aérea, choque psicológico e asfixia econômica. Até aqui, isso não aconteceu. Em vez disso, o Irã conseguiu converter vulnerabilidade em alavanca estratégica, internacionalizando o custo da guerra, expondo a fragilidade do mercado energético global e impondo aos adversários um problema político mais difícil do que a propaganda inicial deixava supor.

Neste 11 de março, portanto, a fotografia é esta: não há acordo, não há cessar-fogo, não há rendição iraniana e não há saída diplomática madura. O que existe é uma correlação em mutação. Militarmente, EUA e Israel seguem atacando. Politicamente, o Irã endureceu sua linha. Economicamente, Teerã já demonstrou que consegue ferir cadeias de valor muito além do campo de batalha. E diplomaticamente, China e outros atores tentam abrir uma fresta de mediação, mas esbarram na recusa ocidental em aceitar o princípio básico que Teerã repete desde o início: não se negocia sob agressão, e não há paz viável sem garantias reais de soberania e de não repetição do ataque.