Em visita ao navio-sonda da Petrobras no Amapá, Presidente Lula defende pesquisa, produção nacional e uso da riqueza petrolífera para financiar educação, tecnologia e políticas sociais
Da Redação
O Presidente Lula afirmou que os indícios de petróleo encontrados pela Petrobras em águas profundas do Amapá podem abrir uma nova perspectiva de desenvolvimento para o Brasil. Durante visita ao navio-sonda NS-42, que perfura o poço Morpho, na Margem Equatorial, ele associou a atividade exploratória à soberania energética, ao fortalecimento da estatal e à capacidade de financiar políticas públicas.
As declarações foram transmitidas ao vivo pela TV Atitude Popular, a partir da visita realizada nesta segunda-feira (17). Lula esteve acompanhado da primeira-dama Janja, da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, do governador do Amapá, Clécio Luís, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, entre outras autoridades.
A presença de petróleo no poço foi confirmada pela Petrobras, mas a empresa ainda precisa concluir a perfuração e os estudos técnicos para avaliar o volume, a qualidade e a viabilidade comercial da descoberta. Portanto, o resultado é promissor, mas ainda não representa o início imediato da produção.
Lula comparou a emoção da visita àquela que sentiu em 2007, quando recebeu a notícia da descoberta do pré-sal. Com uma amostra do óleo nas mãos, afirmou que a pesquisa realizada pela estatal deve ser compreendida como investimento estratégico.
“É possível descobrir quando se investe e se pesquisa. Se a Petrobras não tivesse pesquisado, se não tivesse investido muito dinheiro aqui, não teria encontrado. Alguns que querem vender a Petrobras acham que é custo. Isso, para nós, é investimento”, declarou.
Segundo o Presidente Lula, uma companhia petrolífera não pode assegurar seu futuro sem procurar novas reservas, mesmo que parte das perfurações não apresente resultados comerciais. Ele comparou o processo à pesquisa científica de vacinas e medicamentos, na qual as tentativas sem êxito também produzem conhecimento e permitem aperfeiçoar os estudos seguintes.
“Não é possível imaginar que uma empresa de petróleo consiga sobreviver se ela não pesquisar. Tem coisa no mundo que você só sabe se pesquisar. E pesquisar significa fazer um investimento sem ter certeza de que vai dar resultado”, disse.
“Passaporte para o futuro”
O poço Morpho está localizado no bloco FZA-M-59, na Bacia da Foz do Amazonas, a aproximadamente 175 quilômetros da costa do Amapá. Apesar da referência geográfica, a perfuração ocorre em alto-mar, distante da foz do rio Amazonas.
A operação acontece em águas profundas. De acordo com os dados apresentados durante a visita, a perfuração atravessa cerca de três mil metros de lâmina d’água e outros milhares de metros de rocha. O poço deverá chegar a aproximadamente sete mil metros de profundidade antes da conclusão da avaliação.
Lula descreveu o óleo retirado do poço como leve e de qualidade aparentemente elevada. A confirmação técnica, porém, dependerá das análises conduzidas pela Petrobras.
“Isso aqui pode chamar passaporte para o futuro deste país”, afirmou. “Isso aqui significa soberania nacional. Um país que tem um petróleo dessa qualidade não vai permitir que ninguém meta o dedo nele.”
O Presidente Lula também relacionou a descoberta à segurança energética em um período de instabilidade internacional. Segundo ele, a existência de reservas nacionais reduz a exposição do Brasil às oscilações provocadas por guerras, restrições em rotas comerciais e disputas entre países produtores.
Riqueza destinada às políticas públicas
Ao abordar os possíveis benefícios econômicos, Lula defendeu que a renda obtida com o petróleo seja direcionada à educação, à ciência, à tecnologia e à melhoria das condições de vida da população. Ele citou o Fundo Social do pré-sal e afirmou que seus recursos passaram a financiar programas como o Pé-de-Meia e iniciativas habitacionais.
“Estou pensando no benefício que isso aqui pode dar para este país. Quando a gente quiser fazer mais universidade, mais engenharia, mais matemática, mais inteligência digital, mais escola de tempo integral e mais investimento na nossa soberania”, declarou.
O Presidente Lula sustentou que a exploração precisa gerar resultados para além da exportação de petróleo bruto. Em sua avaliação, o Estado deve utilizar o poder de compra da Petrobras para estimular a indústria brasileira, formar profissionais e ampliar o conteúdo nacional nas encomendas da empresa.
“O Estado tem que aproveitar o poder de compra dele para incentivar a produção nacional”, afirmou. Para Lula, a aquisição de equipamentos e serviços no Brasil permite gerar empregos, salários e conhecimento científico dentro do país.
Ele usou a retomada da indústria naval como exemplo dessa política. Recordou que, durante seus primeiros governos, encomendas da Petrobras foram utilizadas para reativar estaleiros e ampliar a contratação de trabalhadores. Também criticou a ideia de que importar equipamentos seria necessariamente mais vantajoso apenas por apresentar um preço inicial inferior.
Críticas à venda de ativos
No discurso, Lula criticou a privatização de ativos da Petrobras e questionou os benefícios deixados ao país pela venda da antiga BR Distribuidora e de refinarias localizadas na Bahia e no Amazonas.
“Eu queria que alguém me explicasse o que o brasileiro ganhou com a privatização da BR, com a refinaria da Bahia e com a refinaria do Amazonas”, declarou.
Ele também mencionou a paralisação de fábricas de fertilizantes e defendeu a retomada da produção nacional. O Presidente Lula ressaltou que o Brasil ainda importa a maior parte dos fertilizantes utilizados na agricultura, o que deixa o setor vulnerável às variações do mercado externo.
Segundo Lula, uma direção empresarial eficiente não deveria se limitar a vender unidades com dificuldades, mas apresentar soluções para recuperar sua capacidade produtiva.
“Ao invés de ser bom gestor, fazendo aquilo que não funciona voltar a funcionar, ele tenta fazer funcionar vendendo. Na verdade, é um bom comerciante, não um bom gestor”, afirmou.
Lula também voltou a criticar a Operação Lava Jato. Em sua avaliação, a operação contribuiu para enfraquecer a Petrobras e empresas brasileiras da construção civil, com efeitos sobre empregos e cadeias produtivas.
Meio ambiente e transição energética
Ao defender a exploração na Margem Equatorial, Lula afirmou que a produção de petróleo não elimina o compromisso brasileiro com a transição energética. O Presidente citou os investimentos em biodiesel e fontes renováveis e declarou que o país deve utilizar os recursos dos combustíveis fósseis para financiar uma economia menos dependente deles no futuro.
“Quando eu falo em passaporte para o futuro, não estou negando a minha luta para que um dia a gente não precise utilizar combustível fóssil”, afirmou.
A exploração na costa do Amapá é alvo de questionamentos de organizações ambientalistas, pesquisadores e representantes de comunidades da região. As preocupações envolvem a sensibilidade dos ecossistemas marinhos, a capacidade de resposta em caso de acidente e os impactos que uma nova atividade petrolífera pode provocar no território amapaense.
Lula afirmou que a Petrobras dispõe de tecnologia para operar em águas profundas e destacou o equipamento conhecido como BOP, instalado na cabeça do poço. O sistema pode interromper o fluxo em situações emergenciais e integra os mecanismos de prevenção utilizados durante a perfuração.
“Nós vamos continuar cuidando do meio ambiente”, prometeu. O Presidente citou ainda o elevado percentual de áreas protegidas e de cobertura florestal preservada no Amapá.
A existência desses mecanismos de segurança, contudo, não encerra a discussão ambiental. A avaliação dos riscos, a fiscalização dos órgãos competentes e o acompanhamento das condições impostas pelo licenciamento continuam sendo necessários durante todas as etapas do projeto.
Amapá diante de uma possível transformação
Lula alertou que a expectativa em torno do petróleo pode provocar especulação imobiliária e mudanças econômicas aceleradas no Amapá. Ele recomendou que o governo estadual acompanhe o mercado de terras e imóveis antes mesmo de uma eventual confirmação da viabilidade comercial.
A possibilidade de produção poderá exigir investimentos em portos, estradas, energia, formação profissional, serviços públicos e infraestrutura urbana. Também deverá ampliar o debate sobre a distribuição dos royalties e sobre a participação das comunidades locais nas decisões relacionadas ao empreendimento.
“O Amapá tem uma chance extraordinária”, declarou Lula, ponderando que as autoridades locais precisam se preparar para os efeitos da atividade.
O Presidente também vinculou a descoberta à necessidade de formar engenheiros, técnicos e pesquisadores. Para ele, o país não deve repetir modelos de exploração baseados apenas na retirada e exportação de matérias-primas.
Esse mesmo princípio foi aplicado por Lula ao mencionar o projeto de regulamentação dos minerais críticos e das terras raras. O Presidente defendeu que o processamento desses recursos seja feito no Brasil para gerar conhecimento, emprego qualificado e produtos de maior valor.
Petrobras como instrumento de soberania
No encerramento da visita, Lula elogiou Magda Chambriard e os trabalhadores da Petrobras. Segundo ele, a experiência acumulada pela companhia em águas profundas permite que o Brasil ofereça cooperação a outros países, inclusive em projetos no Golfo do México e na costa africana.
“A Petrobras pode ser a mais importante empresa de petróleo do mundo”, afirmou.
Para Lula, a descoberta no Amapá reforça o papel da estatal como instrumento de planejamento nacional. Ele defendeu uma Petrobras lucrativa, capaz de pagar salários, recolher impostos, investir em pesquisa e ampliar as reservas brasileiras.
“Isso aqui vai ser riqueza para o Brasil e vai ser riqueza para o Amapá”, declarou.
A dimensão efetiva dessa riqueza ainda será determinada pelos estudos da Petrobras. Até que sejam conhecidos o volume recuperável, a qualidade definitiva do óleo e os custos necessários para uma possível produção, o poço Morpho permanece como uma descoberta em avaliação. A visita presidencial, no entanto, deixou clara a posição do governo: a Margem Equatorial passou a ocupar um lugar central na política energética e no debate sobre o futuro econômico do país.


