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Luiz Inácio Lula da Silva viaja à África do Sul para a cúpula do G20: minerais críticos entram na agenda global

Da Redação

O presidente Lula embarca nesta sexta-feira para Joanesburgo, onde participará da cúpula dos países do G20 nos dias 22 e 23 de novembro de 2025. Pela primeira vez na história do fórum, o tema dos minerais críticos — essenciais à transição energética e à tecnologia global — será debatido com destaque, e o Brasil pretende colocar sua reserva estratégica no centro das negociações.

O Brasil entra em momento estratégico na cena internacional. O presidente Lula viaja para a África do Sul para participar da cúpula de líderes do G20, agendada para os dias 22 e 23 de novembro de 2025. A escolha da África do Sul como sede marca a expansão geográfica e simbólica do fórum — e a agenda dessa edição carrega novidades relevantes para o Brasil e para países em desenvolvimento.

A agenda da cúpula e a novidade dos minerais críticos

Durante o evento, serão discutidos temas tradicionais como crescimento econômico, mudança do clima, transição energética e trabalho decente. Mas o que chama atenção — e gera expectativa — é a inclusão formal da temática dos “minerais críticos”, definidos como recursos estratégicos para a energia limpa, veículos elétricos, armazenamento e infraestrutura tecnológica.

Pela primeira vez, segundo o governo brasileiro, o G20 trará os minerais críticos ao nível de declaração de líderes. O Brasil, que detém uma das maiores reservas mundiais de terras raras e minerais estratégicos, vê nessa pauta uma oportunidade de reposicionar sua geoeconomia de forma mais autônoma — não somente exportadora de matéria-prima, mas atuante na cadeia de valor.

O papel do Brasil e o interesse estratégico

O governo brasileiro tem articulado há meses que o país precisa agregar valor aos minerais críticos: em vez de apenas exportar minério bruto, argumenta Lula, o Brasil deve buscar “refino, beneficiamento e tecnologia” para capturar maior parte da cadeia de valor. Esse discurso ganha fôlego neste G20, onde Brasil se encontra na “troika” da presidência (passada, atual e futura) do bloco — o que lhe confere papel de interlocutor.

Em Brasília, diplomatas e técnicos destacam que a presença do Brasil na presidência da África do Sul dá ao tema um duplo papel: tecnológico-industrial e geopolítico. A discussão dos minerais críticos abre também espaço para renegociar padrões internacionais de comércio, investimentos verdes e condições de financiamento para países do Sul.

Desafios internos e externos

Ainda que a inclusão do tema seja promissora, ela traz uma série de desafios:

  • Interno: capturar valor nos minerais implica investimento pesado em tecnologia, formação de pessoal qualificado, regulação de meio ambiente e infraestrutura de refino — o Brasil ainda enfrenta gargalos nessas frentes.
  • Externo: grandes economias da Europa, dos EUA e da Ásia pressionam por acesso aos recursos e por condições que tirem vantagem da dependência de países-provedores. O risco de o Brasil vir a assumir papel de mero fornecedor externo permanece.
  • Governança global: ao levar minerais críticos para o G20, o Brasil e outros países do Sul colocam em debate quem define padrões tecnológicos, quem regula cadeias de suprimentos e quem exclui ou inclui países no acesso à economia verde.

Geopolítica e soberania

Sob o prisma da soberania informacional e tecnológica, o momento é simbólico: recursos antes vistos como secundários — em comparação ao petróleo ou ao gás — agora se tornam estratégicos. O controle, produção, processamento desses minerais implicam em dados, tecnologia e poder de decisão global.

Para países emergentes, como o Brasil, o movimento significa que há nova linha de disputa: não só “quem extrai o recurso”, mas “quem o transforma, quem licencia a tecnologia e quem define os padrões de exportação”. Nesse jogo, o Brasil busca não ser espectador.

Expectativas e riscos para o Brasil

Na viagem, Lula deve manter entrevistas e encontros bilaterais — com Índia, África do Sul, Moçambique e outros — para articular alianças em torno dos minerais críticos, da tecnologia e da cooperação Sul-Sul. Espera-se que o Brasil leve propostas de financiamento para beneficiamento, condições de investimento de longo prazo e mecanismos que evitem a “armadilha da exportação de commodity”.

No entanto, existem riscos reais. Se a declaração final do G20 não contemplar cláusulas efetivas ou mecanismos de garantia para países com recurso, será apenas mais uma retórica. Além disso, sem políticas claras de implementação doméstica, o Brasil pode promover discurso de protagonismo externo enquanto permanece exportador de baixo valor agregado.

Impacto para o Brasil e para o Sul Global

Se for bem sucedida, a participação brasileira pode marcar uma virada: agregação de valor aos minerais, transferência de tecnologia, fortalecimento da indústria nacional e avanço na soberania tecnológica. Para o Sul Global, o tema ganha importância porque abre caminho para uma nova geração de recursos estratégicos que não sejam monopolizados pelos países do Norte.

Mas o tempo é curto, e o Brasil precisa combinar diplomacia de cúpula com resultados em solo. Investimentos, regulação, criação de cadeias de valor e reformas estruturais internas precisam acompanhar a retórica diplomática.


Conclusão

A cúpula do G20 em Joanesburgo representa para o Brasil uma janela decisiva. A inclusão dos minerais críticos na agenda internacional abre oportunidade rara de reposicionar o país — não como fornecedor de minério, mas como protagonista da transição energética global. O presidente Lula percebeu isso e aposta na diplomacia de recursos.

No entanto, como toda oportunidade estratégica, há também armadilhas. Se o Brasil não transformar o discurso em ação, ficará apenas no palco diplomático enquanto outros países capturam os ganhos reais. O futuro da economia brasileira, de fato, pode estar ligado à forma como vai jogar essa nova rodada da geopolítica dos recursos.