Atitude Popular

“Deveria ter investimento do governo pra gente combater essa extrema direita”

No Democracia no Ar, Fernandes Neto, do Sindipetro CE/PI, detalha a agenda petroleira para 2026, defende a Petrobras como empresa estratégica e alerta para os riscos de retrocesso nas eleições

O Democracia no Ar, apresentado por Sara Goes na Rádio e TV Atitude Popular, recebeu o petroleiro Fernandes Neto, presidente do Sindicato dos Petroleiros do Ceará e Piauí (Sindipetro CE/PI), para uma conversa centrada nos desafios da categoria e no significado político da Petrobras no Brasil que se desenha para 2026. Entre os temas, estiveram a campanha salarial, a defesa dos empregos, segurança no trabalho, soberania energética e o impacto de privatizações no preço final dos combustíveis.

As informações e declarações reunidas nesta matéria têm como base a transcrição do programa Democracia no Ar, exibido pela Atitude Popular em 12 de fevereiro, conforme o roteiro apresentado na abertura do episódio.

Desde o início, Fernandes Neto situou a entrevista em um contexto de disputa desigual no campo da comunicação e afirmou que a reconstrução democrática passa por fortalecer veículos populares. “Deveria sim ter investimento do governo pra gente exatamente combater essa extrema direita”, disse, ao comentar que o campo conservador opera com vantagem na guerra informacional, com redes, desinformação e estrutura de propaganda que, segundo ele, também impacta diretamente a mobilização sindical.

Por que 2026 virou prioridade estratégica

O dirigente sindical explicou que a categoria fez uma escolha tática ao fechar um acordo coletivo de dois anos no ciclo anterior: liberar energia e tempo para concentrar esforços no calendário eleitoral. “A gente queria realmente concentrar muitas forças nas eleições de 2026”, afirmou. Com isso, em 2026 não haverá a disputa completa do acordo, mas a reposição das cláusulas econômicas, enquanto a agenda política ganha centralidade.

Na visão do Sindipetro CE/PI, o pleito vai muito além do Executivo. Fernandes destacou que a categoria pretende intensificar articulações em Brasília e apoiar candidaturas vinculadas ao mundo do trabalho. “A gente vai provavelmente voltar a fazer a brigada petroleira em Brasília (…) conversando com parlamentares, colocando nossas pautas, levando o nome das candidaturas”, disse, mencionando, entre os nomes, o petroleiro Deyvid Bacelar, coordenador da FUP, como pré-candidato a deputado federal pela Bahia.

Petrobras pública: “empresa voltada ao povo brasileiro”

No núcleo do debate esteve a defesa da Petrobras como empresa pública estratégica, com papel econômico e social. Fernandes afirmou que a estatal precisa ser pensada como instrumento de desenvolvimento, e não como máquina de dividendos para o mercado. Ele criticou o modelo de distribuição de lucros a acionistas e apontou que parte relevante desse capital é especulativo e estrangeiro. “A Petrobras (…) deveria ser uma empresa realmente estatal, voltada ao público e ao povo brasileiro, tendo que reduzir sempre que possível essa distribuição dos bilhões de dividendos (…) para acionistas majoritariamente especuladores internacionais”, afirmou.

A campanha salarial, conforme o entrevistado, não se limita a ganhos corporativos: envolve condições de trabalho, segurança operacional e a própria preservação da estatal como alavanca de investimento. “A luta dos petroleiros continua nesse sentido (…) a Petrobras sendo uma impulsionadora da economia do Brasil”, resumiu.

Privatizações e o preço que não baixa na bomba

Um dos trechos mais incisivos da entrevista foi a análise sobre por que reduções anunciadas pela Petrobras nem sempre chegam ao consumidor. Fernandes atribuiu esse descolamento às privatizações na cadeia de distribuição. Ele citou a antiga BR Distribuidora (hoje Vibra) e a Liquigás como exemplos centrais do problema. “A Petrobras baixa, mas não chega baixo pra população”, afirmou, acrescentando que “o motivo é praticamente esse: a privatização tanto da BR distribuidora como da Liquigás”.

O dirigente também denunciou um aspecto simbólico e, para ele, enganoso: postos seguem exibindo a marca Petrobras, ainda que a empresa não controle mais aquela etapa do negócio. “A privatização foi (…) tão bem feita pela extrema direita (…) autorizaram a utilização da marca Petrobras por 10 anos”, disse, argumentando que isso confunde a população e desloca a responsabilidade pelo preço final.

Trabalho terceirizado, precarização e a escala 6×1

Embora petroleiros da Petrobras não operem diretamente na escala 6×1, Fernandes afirmou que o tema atravessa o setor por meio de terceirizados. “Pessoas que trabalham às vezes ali do nosso lado praticam a escala 6 por 1 (…) os prestadores de serviços contratados pela Petrobras”, disse. Segundo ele, a precarização de contratos se aprofundou nos últimos anos e, em muitos casos, trabalhadores terceirizados recebem hoje remuneração semelhante à de seis ou oito anos atrás, com perdas acumuladas.

O dirigente apontou ainda uma disputa política pelo humor social de trabalhadores que votaram pela reconstrução em 2022, mas esperam resultados mais rápidos. Para ele, o risco está em a extrema direita tentar capturar frustrações reais, omitindo que o Congresso atual impõe barreiras sistemáticas a avanços.

Unidade sindical e o desafio da reconstrução interna

Outro ponto abordado foi a própria estrutura do movimento sindical petroleiro, hoje dividido entre duas federações nacionais. Fernandes defendeu a reunificação como horizonte de fortalecimento. “A unidade das federações (…) facilitaria essa luta”, disse, admitindo que divergências internas ainda atravessam o caminho e que nem sempre a ideia de unidade sai do discurso para a prática.

Margem equatorial: soberania, investimento e disputa narrativa

Ao discutir soberania energética, Fernandes voltou-se à margem equatorial — faixa considerada promissora em petróleo e gás do Amapá ao Rio Grande do Norte. Ele defendeu que a exploração, se houver, seja conduzida pela Petrobras, com rigor ambiental e capacidade técnica que empresas privadas não teriam. “Essa riqueza precisa ser explorada (…) mas precisa ser explorada pela Petrobras”, afirmou.

Ele também elogiou o rigor do licenciamento ambiental e defendeu que o Ibama cumpra seu papel sem pressões. “O Ibama tá fazendo o papel dele (…) tem que cobrar de que seja feita dessa forma”, disse, acrescentando que a Petrobras montou estruturas e protocolos de contingência que, na avaliação dele, não seriam replicados por agentes privados.

Fernandes afirmou que a exploração pode financiar a transição energética e reduzir desigualdades regionais, sobretudo no Norte, e criticou o que considera uma distorção frequente no debate climático: “A matriz energética [do Brasil] é quase mais de 80% renovável (…) enquanto quase 70% [das emissões] vem do agro”, disse, defendendo que a Petrobras tem reduzido sua pegada de carbono e citando projetos de refinarias com metas ambientais mais ambiciosas.

No recorte local, ele afirmou que o Sindipetro busca apoio político para que a margem equatorial seja também explorada no Ceará e no Rio Grande do Norte, articulando estrutura existente, porto, refinaria e logística regional.

A eleição como linha de defesa

Ao final, a entrevista consolidou uma leitura: para os petroleiros do CE/PI, 2026 será um divisor de águas para o destino da Petrobras e de políticas públicas conectadas à energia, emprego e soberania. Fernandes defendeu que a categoria atuará para impedir retrocessos e, ao mesmo tempo, pressionar por recomposição do que foi privatizado e por investimentos estruturantes.

A conversa também reafirmou o papel das rádios e TVs comunitárias como espaços de pedagogia política e disputa de narrativas — especialmente quando temas técnicos, como cadeia de distribuição de combustíveis e modelo de acionistas, são apresentados ao público de forma simplificada, muitas vezes distorcida, por setores do mercado e seus porta-vozes.


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