Da Redação
Presidente afirma que combustíveis e gás não podem ficar nas mãos do mercado e defende retomada do papel da Petrobras como instrumento de regulação de preços e proteção da população.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a fazer uma crítica direta ao processo de privatização no setor energético brasileiro ao afirmar que o país não pode deixar empresas estratégicas como a BR Distribuidora e a Liquigás sob controle da iniciativa privada. A declaração foi feita em 2 de abril de 2026, durante agenda em Salvador, e reforça uma linha política clara do governo: recuperar o papel do Estado na regulação de combustíveis e gás de cozinha.
A crítica não é isolada, mas parte de um diagnóstico mais amplo. Para Lula, a venda desses ativos estratégicos retirou do Estado um instrumento fundamental de controle de preços, abrindo espaço para distorções no mercado e aumento do custo para o consumidor. Ele citou diretamente o caso do gás de cozinha, destacando a discrepância entre o preço de saída da Petrobras e o valor final pago pela população, apontando a atuação de intermediários como fator de encarecimento.
A BR Distribuidora, hoje conhecida como Vibra Energia, foi privatizada entre 2019 e 2021 e deixou de ser controlada pela Petrobras, passando a atuar como empresa privada no mercado de distribuição de combustíveis. Já a Liquigás, que atuava na distribuição de gás liquefeito de petróleo, também foi vendida em 2020, encerrando um ciclo em que o Estado mantinha presença direta em toda a cadeia de abastecimento energético.
Para Lula, essas privatizações não apenas reduziram a capacidade de intervenção do Estado, como comprometeram a soberania energética. Segundo ele, se a Petrobras ainda controlasse essas estruturas, seria possível garantir que reduções de preço na refinaria chegassem efetivamente ao consumidor final, algo que hoje depende da lógica de mercado e da atuação de distribuidores privados.
O presidente também relacionou diretamente a crise atual dos combustíveis ao cenário internacional. A guerra no Oriente Médio, especialmente envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel, elevou o preço do petróleo e pressionou os custos internos no Brasil. Nesse contexto, Lula afirmou que o governo está atuando para evitar que esse impacto recaia sobre a população, reforçando a necessidade de instrumentos públicos de regulação.
A posição do governo aponta para uma disputa mais ampla sobre o modelo de desenvolvimento do país. De um lado, a lógica de mercado, baseada na privatização e na livre formação de preços. De outro, a defesa de um Estado ativo, capaz de intervir em setores estratégicos para garantir estabilidade econômica e proteção social.
Essa discussão não é nova no Brasil. O processo de privatização, iniciado nos anos 1990 e aprofundado em diferentes momentos, sempre foi marcado por controvérsias sobre seus impactos na eficiência, nos preços e na soberania nacional.
No cenário atual, porém, o debate ganha nova dimensão. A volatilidade global do petróleo, somada à centralidade dos combustíveis na economia brasileira, recoloca a questão energética no centro da disputa política. O diesel, por exemplo, influencia diretamente o custo do transporte, dos alimentos e da inflação, tornando-se um tema estratégico tanto econômico quanto eleitoral.
Ao afirmar que “não podemos deixar a BR e a Liquigás nas mãos da iniciativa privada”, Lula não está apenas criticando decisões passadas. Está sinalizando um projeto de reconfiguração do papel do Estado no setor energético, com foco em soberania, regulação e proteção do consumidor.
O desafio, no entanto, é complexo. A recompra de ativos privatizados enfrenta limitações legais e contratuais, além de custos elevados. No caso da BR Distribuidora, por exemplo, há restrições que impedem sua reestatização antes de determinados prazos, o que limita a margem de ação imediata do governo.
Ainda assim, a mensagem política é clara. Em um momento de crise global e pressão sobre os preços, o governo busca reconstruir instrumentos de controle e reafirmar a presença do Estado em áreas consideradas estratégicas.
No fim, o debate sobre BR Distribuidora e Liquigás vai além de empresas específicas. Ele revela uma disputa mais profunda sobre quem controla os recursos energéticos do país, quem define os preços e, sobretudo, quem paga a conta em momentos de crise.






