Multidão ocupa a principal avenida de São Paulo no encerramento da campanha presidencial, transforma caminhada em celebração popular e acompanha Lula, que exibe a bandeira brasileira e a Constituição Federal. Ao lado de Geraldo Alckmin, Janja e lideranças políticas, presidente agradece a mobilização, pede cuidado com a aglomeração e reafirma confiança na vitória contra Flávio Bolsonaro. Últimas pesquisas apontam empate técnico na véspera da votação.
Da Redação
Uma multidão de apoiadores ocupou a Avenida Paulista, em São Paulo, na tarde deste sábado, 24 de outubro, para acompanhar Luiz Inácio Lula da Silva no encerramento de sua campanha à reeleição. Bandeiras do Brasil, roupas vermelhas, músicas populares e manifestações de apoio marcaram a caminhada, realizada poucas horas depois de o presidente participar de outro grande ato em Copacabana, no Rio de Janeiro. A mobilização transformou uma das avenidas mais conhecidas do país em um cenário de intensa participação política, reunindo pessoas de diferentes gerações, movimentos sociais, representantes da cultura e lideranças partidárias. Na véspera do segundo turno presidencial, Lula encerrou suas atividades públicas de campanha afirmando estar convencido de que vencerá o senador Flávio Bolsonaro (PL), embora as pesquisas finais continuem indicando uma disputa estatisticamente indefinida.
A dimensão da manifestação ficou evidente no próprio deslocamento do presidente. Acompanhado do vice-presidente Geraldo Alckmin, da primeira-dama Janja Lula da Silva e de aliados políticos, Lula percorreu a avenida em um veículo aberto, cercado por apoiadores que se concentraram desde as proximidades da Alameda Pamplona até a Rua da Consolação, ocupando também vias transversais. O grande número de pessoas dificultou a circulação do cortejo, obrigando os organizadores a solicitar repetidamente que os manifestantes abrissem passagem. Por volta das 17h15, nas proximidades do Museu de Arte de São Paulo, o presidente manifestou preocupação com os empurrões e com pessoas que apresentavam sinais de mal-estar. Segundo reportagem do UOL, pelo menos cinco participantes passaram mal durante o percurso. Lula pediu cuidado à multidão antes de deixar o veículo e seguir em um trio elétrico de maior porte.
A manifestação produziu imagens simbólicas da reta final da campanha. Em determinado momento, Lula apareceu segurando a bandeira brasileira e um exemplar da Constituição Federal, enquanto era acompanhado por uma concentração de apoiadores que avançava lentamente pela avenida. O gesto combinou dois elementos recorrentes em seu discurso eleitoral: a defesa da soberania nacional e a valorização das instituições democráticas. O presidente também exibiu cartazes entregues por manifestantes, entre eles mensagens relacionadas à educação e à memória das vítimas da pandemia de Covid-19. As bandeiras verde-amarelas dividiram espaço com o vermelho predominante entre parte dos participantes, numa composição visual que expressava a diversidade de símbolos utilizados pelos movimentos que integram a campanha.
O presidente classificou a caminhada como a maior manifestação já realizada na história da Avenida Paulista. A declaração, feita diante da concentração de apoiadores, expressou sua avaliação sobre a dimensão do ato, mas não foi acompanhada de uma medição independente que permitisse confirmar a comparação. Nas redes sociais, Lula também mencionou a participação de mais de dois milhões de pessoas, estimativa da campanha que não havia sido comprovada por levantamento autônomo até o fechamento desta reportagem. A ausência de contagem independente não diminui o registro da ocupação expressiva da avenida, documentada por fotografias, vídeos e diferentes veículos de comunicação, mas impede transformar a estimativa divulgada pelo candidato em número oficial de participantes.
Mais do que uma concentração organizada em torno de discursos partidários, o encerramento adquiriu características de uma grande celebração cultural. Jingles da campanha em ritmos como piseiro e pagodão baiano se misturaram a canções conhecidas da música brasileira, entre elas O Bêbado e o Equilibrista, na voz de Elis Regina, AmarElo, de Emicida, e Gente, de Caetano Veloso. Ao longo do percurso, grupos de apoiadores dançaram, cantaram e acompanharam a passagem do presidente. A diversidade musical reproduziu uma característica observada em outras manifestações realizadas durante outubro, nas quais expressões culturais brasileiras passaram a ocupar espaço importante ao lado das tradicionais palavras de ordem eleitorais.
Entre as lideranças presentes estavam Geraldo Alckmin, Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva e o ministro Guilherme Boulos, além de parlamentares, integrantes do governo e representantes de diferentes setores políticos. A presença desses personagens também refletiu a amplitude da coalizão que sustenta a candidatura petista, reunindo figuras de trajetórias partidárias distintas. O deputado estadual Eduardo Suplicy participou da manifestação, assim como outros aliados do presidente. Antes da chegada de Lula, Marina e Simone Tebet dirigiram palavras aos presentes, destacando a participação popular e a importância do processo democrático. O encerramento ocorreu sem um longo discurso presidencial: Lula preferiu agradecer aos manifestantes e limitar suas intervenções durante a caminhada.
Pouco antes de iniciar o percurso, o presidente havia conversado com jornalistas e apresentado uma avaliação sobre a reorganização de sua campanha no segundo turno. Segundo Lula, a característica mais importante das últimas semanas foi a ampliação da participação direta dos apoiadores, que passaram a promover atividades e divulgar conteúdos para além das iniciativas conduzidas formalmente pelos partidos. “É o povo que está organizando”, declarou, ao destacar o envolvimento de diferentes segmentos da sociedade. Em sua interpretação, a campanha adquiriu uma dinâmica que ultrapassou a estrutura tradicional das legendas e das coligações, incorporando iniciativas de sindicatos, estudantes, coletivos culturais e cidadãos que decidiram participar das manifestações.
A avaliação de Lula remete às dificuldades enfrentadas depois do primeiro turno, realizado em 4 de outubro. Naquela votação, Flávio Bolsonaro terminou numericamente à frente do presidente, com 47,03% dos votos válidos, contra aproximadamente 45,16% do petista. O resultado levou a campanha governista a intensificar atividades presenciais, ampliar a circulação de conteúdos nas redes sociais e buscar uma aproximação maior com eleitores indecisos, com aqueles que haviam optado pelo voto branco ou nulo e com pessoas que não compareceram às urnas. Ao longo de outubro, manifestações em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Recife, Brasília, Porto Alegre e outras cidades deram visibilidade a essa reorganização, embora o alcance eleitoral efetivo de cada iniciativa não possa ser medido apenas pela quantidade de participantes.
A mobilização deste sábado também foi antecedida por uma caminhada em Copacabana, no Rio de Janeiro, realizada durante a manhã. Na orla carioca, Lula voltou a defender sua candidatura e a criticar o adversário. O presidente procurou associar sua campanha à defesa da democracia, dos direitos sociais e da soberania brasileira, enquanto apresentou o confronto eleitoral como uma disputa entre projetos distintos para o país. Em declarações à imprensa, fez críticas contundentes a Flávio Bolsonaro e utilizou expressões como “mentiroso”, “miliciano” e “desqualificado” para se referir ao senador. Essas caracterizações são acusações e avaliações feitas pelo candidato petista, não conclusões factuais ou jurídicas estabelecidas pela reportagem.
Lula também afirmou estar convencido de que conquistará a reeleição. Sua confiança, contudo, precisa ser compreendida no ambiente de uma disputa que permanece extremamente apertada. As pesquisas finais divulgadas neste sábado por Datafolha e Quaest apresentam os mesmos percentuais em votos válidos: Flávio Bolsonaro aparece com 51% e Lula, com 49%. Como a margem de erro dos levantamentos é de dois pontos percentuais, ambos registram empate técnico. Os estudos revelam uma pequena vantagem numérica do candidato do PL, mas não permitem determinar com segurança o resultado que será produzido pelas urnas neste domingo.
A comparação entre as pesquisas e as manifestações também exige distinguir duas dimensões diferentes da política eleitoral. Uma caminhada de grande porte demonstra capacidade de organização, participação de apoiadores e visibilidade pública, mas não constitui uma amostra representativa do eleitorado nacional. Da mesma maneira, uma pesquisa de intenção de voto identifica preferências declaradas por uma amostra de entrevistados, sem assegurar que todos comparecerão às urnas ou manterão suas escolhas até o momento da votação. Essa diferença é especialmente relevante em uma eleição na qual a distância estimada entre os candidatos permanece dentro da margem de erro e a abstenção pode alterar a composição dos votos efetivamente contabilizados.
Enquanto Lula participava das manifestações no Rio e em São Paulo, Flávio Bolsonaro também encerrava sua campanha com atividades públicas. O senador iniciou o sábado em Belo Horizonte, onde participou de uma motociata acompanhado de aliados, entre eles o deputado Nikolas Ferreira e o governador paulista Tarcísio de Freitas. À tarde, realizou uma caminhada na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, reunindo apoiadores nas proximidades do antigo condomínio de seu pai, Jair Bolsonaro. Os dois candidatos, portanto, concluíram suas agendas eleitorais com manifestações em espaços públicos, buscando demonstrar a mobilização de suas respectivas bases antes da abertura das urnas.
O encerramento de Lula na Paulista, entretanto, reuniu elementos que atravessam diferentes momentos de sua trajetória política. A avenida já foi cenário de campanhas eleitorais, manifestações sindicais, atos em defesa da democracia e mobilizações contrárias e favoráveis a governos de diferentes orientações. Para o presidente, cuja projeção nacional começou nas lutas operárias do ABC paulista, a presença de trabalhadores, estudantes e movimentos sociais numa grande manifestação pública estabelece uma conexão com formas históricas de participação política que acompanharam sua carreira desde o período de redemocratização. Ao mesmo tempo, a organização das atividades pelas plataformas digitais evidencia mudanças importantes na maneira como campanhas contemporâneas se articulam e se comunicam com a sociedade.
A presença de jovens e de coletivos organizados nas redes sociais ganhou destaque particular durante o segundo turno. Em 11 de outubro, uma manifestação anterior na própria Avenida Paulista já havia reunido movimentos estudantis, torcidas organizadas, integrantes de comunidades de fãs de artistas e outros grupos que participaram da convocação. Nas semanas seguintes, atividades semelhantes foram reproduzidas em diferentes cidades, numa tentativa de ampliar o envolvimento de pessoas que não necessariamente possuem filiação partidária. Essa aproximação entre organizações tradicionais, comunidades digitais e expressões culturais indica transformações nas formas de participação eleitoral, embora seus efeitos sobre a distribuição final dos votos só possam ser avaliados depois da eleição e mediante informações adicionais.
Também chama atenção o caráter simbólico da bandeira nacional e da Constituição Federal no encerramento da campanha. A utilização desses elementos integra a disputa pelo significado político de símbolos associados à identidade brasileira e à ordem democrática. Nos últimos anos, as cores nacionais estiveram presentes em manifestações de orientações divergentes, e sua apropriação por diferentes movimentos se tornou parte do confronto de narrativas sobre patriotismo, democracia e soberania. Ao exibir a Constituição, Lula procurou reforçar uma mensagem que apresenta sua candidatura como comprometida com a institucionalidade democrática. A interpretação desse gesto pertence ao campo do discurso político; sua relevância jornalística está no fato de o presidente ter escolhido esses símbolos para uma das imagens finais de sua campanha.
O grande número de participantes também trouxe dificuldades práticas para a organização do evento. Os episódios de mal-estar e o empurra-empurra observados durante a caminhada mostram que manifestações de alta concentração exigem medidas adequadas de segurança, circulação e atendimento. A própria intervenção de Lula, preocupado com pessoas que passavam mal, interrompeu momentaneamente o clima festivo. A necessidade de preservar a integridade dos participantes constituiu uma dimensão concreta do encerramento, especialmente diante das dificuldades encontradas pelo veículo presidencial para atravessar a multidão.
A partir deste domingo, 25 de outubro, a disputa será decidida nas urnas. Segundo o calendário do Tribunal Superior Eleitoral, a votação ocorrerá das 8h às 17h, pelo horário de Brasília. Lula deverá votar pela manhã em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, antes de seguir para a capital, onde acompanhará a apuração. Flávio Bolsonaro votará no Rio de Janeiro e depois acompanhará a contagem ao lado de seus aliados. A eleição definirá quem ocupará a Presidência da República no mandato iniciado em janeiro de 2027.
Ao deixar a Avenida Paulista, Lula encerrava uma campanha que atravessou momentos de dificuldade, reorganização e intensa mobilização política. A multidão reunida neste sábado, a presença de lideranças de diferentes partidos, a participação de coletivos culturais e o envolvimento de apoiadores nas redes constituem acontecimentos documentados desta reta final. O presidente transformou essas manifestações em um dos principais argumentos de seu discurso de confiança, enquanto as pesquisas indicam que a disputa permanece aberta à decisão dos eleitores.
Entre a bandeira brasileira, a Constituição, os cantos populares e o movimento de milhares de pessoas, a Paulista ofereceu a imagem de uma candidatura que escolheu terminar sua campanha em contato direto com os apoiadores. O significado eleitoral dessa mobilização será conhecido com a apuração. Seu registro político, entretanto, já integra a história de uma eleição marcada por forte polarização, participação popular e uma disputa cujo resultado permanece indefinido na véspera da votação.


