Da Redação
Plano de governo defende que riquezas minerais deixem de sair do país apenas como matéria-prima e sejam usadas para construir cadeias nacionais de baterias, motores, componentes e tecnologias avançadas. Com 21 milhões de toneladas em reservas de terras raras, Brasil está no centro de uma disputa estratégica mundial.
O Brasil pretende mudar a lógica histórica pela qual parte significativa de suas riquezas naturais deixa o território nacional como matéria-prima e retorna na forma de produtos industrializados muito mais caros. O novo plano de governo de Luiz Inácio Lula da Silva propõe agregar valor às terras raras e aos minerais críticos brasileiros, utilizando essas reservas para desenvolver indústria, tecnologia e empregos dentro do país, em vez de simplesmente acelerar sua exportação em estado bruto.
A proposta chega em um momento particularmente estratégico. Terras raras são um conjunto de elementos utilizados em tecnologias que vão de eletrônicos e veículos elétricos a motores, ímãs permanentes, equipamentos de energia e aplicações aeroespaciais. A corrida pela segurança dessas cadeias transformou minerais críticos em uma questão simultaneamente econômica, tecnológica e geopolítica.
E o Brasil possui uma posição extraordinária nesse tabuleiro.
O Mineral Commodity Summaries 2026, do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), estima que o país detenha 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, atrás apenas da China, que aparece com 44 milhões. O contraste, entretanto, é impressionante: enquanto a produção chinesa foi estimada em 270 mil toneladas em 2025, a brasileira ficou em apenas 2 mil toneladas.
A diferença mostra simultaneamente o tamanho da oportunidade e o atraso brasileiro na cadeia produtiva.
O verdadeiro poder econômico das terras raras não está simplesmente debaixo do solo. Está na capacidade de minerar, separar, refinar, transformar os elementos em materiais industriais e, posteriormente, produzir componentes de alta tecnologia.
É justamente nessa passagem da jazida para a fábrica que o plano Lula pretende concentrar esforços.
Segundo a proposta divulgada nesta segunda-feira (10), o objetivo é incentivar a fabricação no Brasil de produtos como baterias e motores, evitando que minerais estratégicos sejam apenas extraídos e enviados para outros países, onde ocorre a etapa de maior agregação de valor.
Essa mudança de perspectiva pode ser decisiva para o desenvolvimento brasileiro.
Durante grande parte de sua história econômica, o Brasil ocupou posição privilegiada como fornecedor de produtos primários, inicialmente agrícolas e posteriormente também minerais. A abundância de recursos naturais produziu riqueza, exportações e divisas, mas não necessariamente transferiu para o país o domínio das tecnologias mais sofisticadas associadas a essas matérias-primas.
No século XXI, repetir essa lógica com minerais críticos significaria correr o risco de reproduzir uma velha dependência justamente dentro das tecnologias que definirão a nova economia mundial.
O país poderia exportar o mineral enquanto compra, por valores muito superiores, motores, componentes eletrônicos, sistemas de armazenamento de energia e equipamentos produzidos com a matéria-prima originalmente retirada do próprio território.
O programa apresentado pela candidatura Lula-Alckmin aponta para outra direção: utilizar os recursos minerais como plataforma para uma nova industrialização brasileira. O próprio eixo econômico das diretrizes para os próximos quatro anos associa crescimento, geração de empregos, inovação e neoindustrialização.
Isso altera profundamente a pergunta que o Brasil precisa fazer sobre suas reservas.
A questão deixa de ser apenas “quanto podemos exportar?” e passa a ser “quanto conhecimento, indústria e valor podemos produzir antes de exportar?”
Essa diferença pode representar bilhões de dólares e milhares de empregos qualificados ao longo das próximas décadas.
Brasil entra no centro da disputa por minerais críticos
A importância estratégica dessas reservas aumentou porque as grandes potências procuram reduzir vulnerabilidades em suas cadeias de suprimento.
Os próprios Estados Unidos reconhecem essa dependência. Segundo o USGS, em 2025 o país continuava dependendo da China como fonte importante de 14 dos 33 minerais críticos nos quais a economia norte-americana apresenta maior dependência de importações.
Isso ajuda a explicar por que minerais deixaram de ser assunto restrito às empresas de mineração.
Eles passaram a integrar políticas industriais, estratégias de defesa, negociações comerciais e disputas diplomáticas.
Terras raras possuem aplicações em setores de alta tecnologia, e as características específicas desses elementos fazem com que sejam utilizados em numerosos produtos avançados. O USGS destaca aplicações diversas e registra que substitutos existem para muitos usos, mas geralmente apresentam desempenho inferior.
Para o Brasil, essa conjuntura cria poder de negociação — desde que o país não transforme sua vantagem geológica em mera corrida extrativista.
O interesse internacional nas reservas brasileiras pode atrair capital, tecnologia e mercados. Mas a qualidade desses investimentos dependerá das condições estabelecidas pelo Estado brasileiro.
Se a prioridade for somente aumentar rapidamente a extração, o país poderá consolidar-se como fornecedor periférico de uma nova revolução tecnológica realizada no exterior.
Se os investimentos forem condicionados à industrialização, pesquisa, formação profissional, desenvolvimento de fornecedores nacionais e transferência tecnológica, os mesmos recursos poderão ajudar a construir uma nova base produtiva.
É precisamente nesse ponto que minerais e soberania se encontram.
Da mina ao produto final
Construir uma cadeia nacional de terras raras, entretanto, é muito mais complexo do que simplesmente possuir grandes reservas.
O Brasil precisará desenvolver mineração economicamente viável, técnicas de separação e processamento, capacidade metalúrgica, produção de materiais avançados, fabricação de componentes e, finalmente, indústrias capazes de utilizar esses insumos em produtos sofisticados.
Será necessário também enfrentar impactos ambientais e sociais.
A corrida pelos minerais críticos não pode servir de justificativa para flexibilizar controles ambientais, comprometer recursos hídricos ou transferir os custos da mineração para comunidades enquanto os benefícios econômicos são apropriados em outras partes da cadeia.
Uma política soberana para minerais estratégicos precisa combinar três objetivos: exploração ambientalmente responsável, industrialização nacional e distribuição dos ganhos econômicos produzidos pelo recurso.
Esse é o desafio que separa uma política mineral de uma verdadeira política de desenvolvimento.
O paradoxo dos 21 milhões de toneladas
Os números do USGS deixam evidente o paradoxo brasileiro.
O país possui reservas estimadas em 21 milhões de toneladas, aproximadamente metade das reservas chinesas registradas pelo levantamento. Entretanto, sua produção anual corresponde a uma pequena fração da chinesa.
Isso significa que o Brasil ainda tem a possibilidade de decidir como desenvolver essa indústria antes de uma expansão muito maior da exploração.
Essa janela estratégica não permanecerá aberta indefinidamente.
À medida que Estados Unidos, Europa, China e outras potências intensificarem a disputa pelas cadeias de minerais críticos, aumentará também a pressão econômica e diplomática sobre países detentores de grandes reservas.
O desafio brasileiro será negociar sem submissão e atrair investimento sem entregar o controle estratégico sobre seus recursos.
O capital estrangeiro pode participar da construção dessa cadeia. Empresas chinesas, norte-americanas, europeias, japonesas ou de qualquer outra origem podem contribuir com investimentos e tecnologia. O ponto central é que o interesse nacional brasileiro precisa definir as condições.
Isso significa evitar tanto o fechamento autárquico quanto a abertura indiscriminada.
O objetivo deve ser transformar competição internacional por recursos brasileiros em instrumento de desenvolvimento brasileiro.
Terras raras podem ser o novo pré-sal — mas com uma diferença decisiva
Existe uma lição importante na história econômica do país.
Possuir recursos naturais estratégicos não garante desenvolvimento. O que determina o resultado é a estrutura econômica construída ao redor deles.
O petróleo pode alimentar refinarias, petroquímica, engenharia, indústria naval e pesquisa científica — ou simplesmente ser exportado cru.
Minerais críticos podem alimentar mineração de baixo valor agregado — ou uma cadeia de materiais avançados, baterias, motores, eletrônica e equipamentos industriais.
É essa escolha que começa a aparecer explicitamente no plano Lula.
A proposta de fabricar baterias e motores no Brasil representa uma tentativa de deslocar o país para etapas superiores das cadeias produtivas.
Para a classe trabalhadora, essa diferença é concreta. Uma tonelada de minério exportada gera determinado volume de atividade econômica. A mesma matéria-prima submetida a sucessivas etapas de transformação mobiliza técnicos, engenheiros, pesquisadores, metalúrgicos, trabalhadores industriais, fornecedores, universidades e empresas de serviços.
Quanto maior a cadeia construída dentro do país, maior tende a ser a parcela da riqueza que permanece na economia nacional.
Uma decisão sobre o lugar do Brasil no século XXI
O debate sobre terras raras não é, portanto, simplesmente mineral.
É uma discussão sobre qual posição o Brasil pretende ocupar na divisão internacional do trabalho que está sendo reorganizada pela transição energética, inteligência artificial, eletrificação dos transportes, disputa tecnológica e crescente rivalidade entre as grandes potências.
O país possui território, recursos naturais, energia, universidades, centros de pesquisa, mercado consumidor e uma base industrial que ainda pode sustentar um projeto dessa dimensão.
Falta transformar essas vantagens em uma estratégia coordenada de Estado.
O plano de governo apresentado por Lula sinaliza uma escolha: o Brasil não deve se limitar a fornecer as matérias-primas da nova economia mundial. Deve disputar também as fábricas, a tecnologia, o conhecimento e os empregos que serão construídos a partir delas.
Se conseguir transformar suas reservas minerais em cadeias produtivas nacionais, o país poderá converter uma vantagem geológica em poder industrial.
Caso contrário, poderá assistir a mais um capítulo de uma história conhecida: riquezas brasileiras atravessando os oceanos enquanto o maior valor econômico, o domínio tecnológico e os melhores empregos permanecem do outro lado.
As terras raras colocam, portanto, uma escolha histórica diante do Brasil: ser apenas a mina de uma nova revolução industrial ou tornar-se também um dos países capazes de realizá-la.






