Lula repudia acusações de Flávio Bolsonaro contra a CNBB em meio à crise sobre Nossa Senhora Aparecida

Presidente afirma que interesses eleitorais não justificam ataques a religiosos; manifestação ocorre depois de candidato do PL acusar, sem apresentar provas públicas, pessoas ligadas à entidade católica de ajudarem a disseminar informação falsa durante a campanha

Da Redação

A controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida ganhou um novo capítulo na noite desta terça-feira, 29. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva divulgou uma nota repudiando declarações do candidato à Presidência Flávio Bolsonaro contra a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil e manifestando solidariedade à Igreja Católica, aos bispos e aos fiéis. A manifestação ocorre depois de Flávio afirmar que pessoas de dentro da CNBB teriam ajudado a espalhar a informação falsa de que ele pretendia retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Brasil 247

A acusação de Flávio contra integrantes da entidade não veio acompanhada de provas públicas. A CNBB reagiu formalmente, negou qualquer participação na produção ou disseminação da informação falsa e afirmou que acusações sem fatos que as sustentem atingem injustamente a instituição. “A mentira não se combate com outra mentira”, declarou a Conferência. CNN Brasil

Na nota divulgada nesta terça, Lula afirmou ser “inaceitável que um candidato desrespeite religiosos por interesses eleitoreiros” e sustentou que o Brasil é marcado pela diversidade e pelo respeito às diferentes crenças. O presidente manifestou solidariedade aos bispos, aos devotos de Nossa Senhora Aparecida e aos brasileiros de todas as religiões. Brasil 247

O episódio, porém, exige separar duas questões que passaram a circular juntas na reta final da campanha. A informação segundo a qual Flávio Bolsonaro pretende retirar de Nossa Senhora Aparecida a condição de Padroeira do Brasil é falsa: não há proposta atual apoiada pelo candidato com esse objetivo. Outra questão é a acusação feita posteriormente por Flávio de que pessoas ligadas à CNBB teriam colaborado para espalhar essa falsidade. Foi essa segunda afirmação que provocou a reação institucional da Conferência e, agora, a nota de Lula. UOL Notícias

A crise começou com uma informação falsa e abriu outra disputa

A controvérsia explodiu nas redes sociais na quinta-feira, 24, quando passou a circular a alegação de que Flávio apoiaria a retirada do título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Não existe evidência de que o senador tenha apresentado ou apoiado uma iniciativa desse tipo nesta campanha. A história acabou alcançando dimensão nacional, entrou nos palanques dos principais candidatos e chegou à Justiça Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal. UOL Notícias

No domingo, Flávio reagiu afirmando que aquela era a “maior fake news” da campanha. Até esse ponto, sua declaração estava apoiada por um dado verificável: a alegação sobre Nossa Senhora Aparecida não correspondia a uma proposta sua. O conflito mudou de natureza quando o candidato acrescentou que o PT teria conseguido disseminar a falsidade “com ajuda de gente dentro da CNBB”. Brasil 247

A Conferência respondeu poucas horas depois. Em nota, declarou que não produziu, autorizou nem participou da elaboração ou divulgação de informações falsas sobre a eleição. Também ressaltou que não integra estruturas partidárias ou de candidaturas e que suas manifestações públicas decorrem de sua missão pastoral. A entidade afirmou ainda que atribuir-lhe participação em redes de desinformação sem apresentação de fatos ou provas não contribui para a serenidade do processo eleitoral. Em.com.br

No dia seguinte, Flávio adotou uma posição mais conciliadora em relação à instituição. Disse que a manifestação da própria CNBB confirmava que a entidade não participara da produção da informação falsa e elogiou a nota divulgada pelos bispos. A diferença entre as duas manifestações é relevante: inicialmente, o candidato acusou “gente de dentro da CNBB”; posteriormente, reconheceu a posição institucional da Conferência negando participação na desinformação. CNN Brasil

A crise, portanto, não pode ser resumida como um confronto simples entre Flávio Bolsonaro e a Igreja Católica. A CNBB rejeitou a acusação dirigida contra pessoas ligadas à instituição, enquanto o candidato posteriormente destacou a negativa oficial da entidade. Lula, por sua vez, enquadrou as declarações iniciais de Flávio como ataques à Conferência e à Igreja Católica.

Religião entra definitivamente na reta final

O episódio adquiriu peso adicional porque a religião já havia se tornado um elemento importante da campanha.

Em agosto, Flávio declarou que, caso fosse eleito, um de seus primeiros atos seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. Depois da controvérsia sobre Nossa Senhora Aparecida, sua campanha esclareceu que não se trataria de um decreto presidencial com efeitos jurídicos, mas de uma manifestação simbólica e religiosa durante a posse. A campanha também afirmou que o candidato respeita todas as religiões e formas de expressão da fé. Folha de S.Paulo

A declaração provocou questionamentos entre integrantes da Igreja Católica. Dom Roberto Francisco Ferreira Paz, bispo de Campos, cobrou esclarecimentos sobre o significado da proposta e levantou a discussão sobre a laicidade do Estado. Brasil 247

A Constituição brasileira assegura liberdade religiosa e impede o Estado de estabelecer ou subvencionar igrejas, embaraçar seu funcionamento ou manter relações de dependência ou aliança com cultos religiosos, ressalvada a colaboração de interesse público. Isso não impede candidatos ou governantes de professarem sua fé, mas estabelece uma fronteira institucional entre convicção religiosa e poder estatal.

A própria CNBB tratou desse problema semanas antes da atual controvérsia. Em mensagem publicada por sua Presidência em 7 de setembro, a Conferência defendeu que o voto seja exercido livremente, “sem manipulação, corrupção ou instrumentalização da fé”. O documento também pediu respeito à Constituição, às instituições republicanas e à soberania nacional. CNBB

Esse posicionamento ajuda a contextualizar a reação da entidade. A CNBB não afirmou apoio a Lula nem oposição a Flávio Bolsonaro. Sua manifestação oficial sobre o episódio concentrou-se em negar participação na disseminação da informação falsa e defender que a campanha eleitoral seja conduzida sem acusações desprovidas de comprovação. Em.com.br

Lula também entrou na controvérsia

O presidente, entretanto, não esteve fora da circulação da informação falsa.

No domingo, Lula afirmou publicamente que “mexer com Nossa Senhora Aparecida não é aceitável”. Quando foi informado de que a história atribuída a Flávio era falsa, respondeu que não sabia se se tratava de fake news e acrescentou que o assunto estava circulando fortemente nas redes sociais. Também declarou que, enquanto fosse presidente, Nossa Senhora Aparecida continuaria sendo Padroeira do Brasil. UOL Notícias

Essa sequência precisa ser registrada porque mostra como uma informação falsa conseguiu atravessar diferentes campos políticos antes que a discussão se deslocasse para a acusação contra a CNBB.

A situação também revela um problema recorrente das campanhas digitais. Uma falsidade pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas, provocar reações de candidatos, gerar decisões judiciais e criar uma nova controvérsia mesmo depois de seu conteúdo original ser desmentido.

Foi exatamente o que aconteceu.

A alegação inicial sobre Flávio Bolsonaro não encontra sustentação factual. Mas a reação do candidato produziu uma segunda controvérsia ao atribuir participação na disseminação da falsidade a pessoas de dentro da CNBB sem apresentar publicamente provas que sustentassem a acusação. A Conferência respondeu, e Lula decidiu entrar no conflito manifestando solidariedade à entidade.

A poucos dias do primeiro turno, a religião tornou-se assim parte direta da disputa presidencial.

Mas existe uma distinção essencial para compreender o episódio sem reproduzir a própria desinformação que o originou: Flávio Bolsonaro não apresentou proposta para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil; posteriormente, acusou pessoas ligadas à CNBB de participarem da disseminação dessa informação falsa; a CNBB rejeitou a acusação e afirmou não ter participado da produção ou divulgação do boato; Lula, por fim, classificou as declarações contra a entidade como ataques à Igreja Católica. UOL Notícias

São fatos distintos. E, numa campanha atravessada pela velocidade das redes sociais, mantê-los separados é indispensável para que uma falsidade não seja combatida produzindo outra.

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