Professora e escritora transforma lembranças da infância em Itapajé em contos que unem memória, humor, delicadeza e personagens marcados pela humanidade
Da Redação
As memórias da infância no interior cearense, as relações familiares e a força das histórias orais foram o tema da entrevista concedida pela professora e escritora Zélia Sales ao programa *Café com Democracia, da Atitude Popular, apresentado pelo cientista político e radialista Luiz Regadas. Durante a conversa, a autora falou sobre seu primeiro livro, *A cadeira de barbeiro, explicou a origem dos contos e refletiu sobre literatura, memória e o papel da escrita na preservação das experiências humanas.
Segundo Zélia, a obra nasceu diretamente das lembranças de sua infância no sítio São João, em Itapajé. As histórias eram inicialmente contadas às colegas de trabalho, que insistiam para que fossem registradas por escrito.
“O livro é praticamente a minha história de vida mesmo, a minha infância.”
Ela contou que nunca havia planejado escrever um livro. O incentivo veio das professoras que ouviam suas narrativas e percebiam nelas um potencial literário. Antes da publicação da obra, havia participado apenas de um concurso do Ideal Clube, no qual um conto seu foi premiado e publicado.
A cadeira que virou símbolo do pai
O objeto que dá título ao livro representa muito mais que uma antiga cadeira de barbeiro.
Segundo a escritora, ele simboliza a figura do pai, personagem presente em praticamente todos os contos.
Ao recordar o lançamento da obra, contou que os irmãos ficaram surpresos ao perceber o espaço que o pai ocupava em suas lembranças.
“Meu pai era o centro de quase todas as histórias.”
Ela descreveu o pai como um homem afetuoso, responsável por apaziguar os conflitos familiares depois das longas jornadas de trabalho.
Agricultor, comerciante e barbeiro aos fins de semana, ele transformava a sala da casa em uma barbearia improvisada, que acabava se tornando ponto de encontro da comunidade.
“Parecia um centro cultural”, resumiu a autora ao lembrar das conversas, dos clientes e do movimento em torno da cadeira de barbeiro.
As cinco pedrinhas
Um dos momentos mais emocionantes da entrevista foi a lembrança do conto As cinco pedrinhas, inspirado em um presente simples recebido do pai durante a infância.
Ela contou que o pai trouxe cinco pequenas pedras após uma viagem ao interior. Anos depois, ao escrever a história, desejou simbolicamente que aquelas cinco pedras representassem mais cinco anos de vida para ele.
Segundo Zélia, o desejo chegou a se concretizar, mas o pai acabou tirando a própria vida durante a pandemia.
A autora afirmou que a experiência reforçou ainda mais o caráter afetivo de sua literatura, construída a partir da memória familiar.
Dor transformada em literatura
Questionada sobre como consegue abordar temas difíceis sem perder a delicadeza, Zélia explicou que a própria literatura oferece essa possibilidade.
Ela afirmou dedicar muito tempo ao processo de escrita, revisando repetidamente os textos até encontrar o equilíbrio entre simplicidade e emoção.
A escritora citou Graciliano Ramos como uma de suas referências e disse compartilhar da ideia de deixar o texto “descansar” antes da versão definitiva.
Segundo ela, seus contos procuram preservar a humanidade dos personagens mesmo quando tratam de pobreza, perdas, violência ou sofrimento.
O respeito aprendido na infância
Entre as histórias do livro, Zélia destacou um episódio ocorrido em um antigo salão de dança de Itapajé.
Ainda adolescente, surpreendeu o pai dançando com uma mulher conhecida por desafiar os padrões de comportamento da época.
Intrigada, perguntou por que ele havia escolhido aquela parceira.
A resposta marcou sua formação.
“Os homens não querem dançar com ela. As mulheres também não. Eu danço. Ela dança bem. Que que tem?”
Segundo a escritora, essa pequena frase tornou-se uma lição permanente de respeito ao próximo e acabou sendo incorporada à sua literatura, mesmo sem intenção explícita de discutir gênero ou diversidade.
Escrita enxuta e influência dos grandes autores
Ao comentar seu estilo literário, Zélia afirmou que sua escrita foi construída a partir das leituras que fez ao longo da vida.
Ela citou autores como Gabriel García Márquez, Graciliano Ramos e Guimarães Rosa entre as principais influências.
Também revelou que costuma eliminar adjetivos e excessos durante a revisão, buscando uma narrativa direta.
Essa característica levou o cineasta Nirto Venâncio a afirmar que seus contos já possuem estrutura semelhante à de roteiros cinematográficos, facilitando futuras adaptações para o audiovisual.
Literatura continua viva
Apesar das frequentes previsões sobre a perda de leitores, Zélia disse manter uma visão otimista.
Ela destacou a existência de clubes de leitura ativos em Fortaleza, encontros literários e grupos que discutem livros regularmente.
Na avaliação da escritora, a literatura continua reunindo pessoas interessadas em compartilhar experiências e interpretações sobre as obras.
Ao encerrar a entrevista, resumiu a importância da escrita em sua vida.
“A literatura é minha religião e minha cachaça.”
Referências
- Cem anos de solidão e demais obras citadas de Gabriel García Márquez.
- Obras de Graciliano Ramos.
- Obras de João Guimarães Rosa.
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