Documentário “Prefeita” resgata a campanha e o mandato de Maria Luíza Fontenele em Fortaleza e reacende o debate sobre a presença das mulheres na política 40 anos depois
Às vésperas de completar 40 anos da eleição de Maria Luíza Fontenele para a Prefeitura de Fortaleza, o documentário “Prefeita” chega à tela grande com a proposta de transformar memória política em patrimônio audiovisual. A estreia acontece nesta sexta-feira, às 19h, no Cine Teatro São Luiz, em sessão única e gratuita. A obra é dirigida pelo advogado e pesquisador Felipe Barroso, entrevistado no programa “Café com Democracia”, da TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas, que continua a consolidar-se como espaço de memória e reflexão sobre a história política cearense.
Ao longo da entrevista, Barroso explicou que o filme foi concebido como um documento histórico voltado para o presente e para o futuro. Em uma das frases que melhor resumem o espírito do projeto, ele afirma: “Meu principal interesse é deixar esse registro para as futuras gerações.” Não se trata apenas de narrar a trajetória de uma gestão, mas de registrar, em imagens e depoimentos, um período decisivo da redemocratização brasileira e da entrada de uma mulher de esquerda no centro do poder municipal.
Um marco após a ditadura: a primeira prefeita de capital pelo PT
“Prefeita” concentra-se na campanha de 1985 e no mandato de 1986 a 1988, quando Maria Luíza assumiu a prefeitura de Fortaleza em meio a um país em transição. Felipe Barroso lembra que, até então, prefeitos de capitais eram, em geral, indicados pelos governadores, e não eleitos diretamente pela população. A disputa de 1985, na qual Maria Luíza enfrentou Paulo Sarasate de Andrade (Paes de Andrade) e Lúcio Alcântara, inaugurou uma nova fase, marcada pelo voto popular em capitais estratégicas.
O documentário, como fez questão de sublinhar o diretor, não é um filme “chapa branca”, nem uma exaltação acrítica da ex-prefeita. A obra recompõe o contexto da época, as promessas, as expectativas e também as contradições e dificuldades do governo, incluindo temas polêmicos que ficaram no imaginário da cidade, como o acúmulo de lixo nas ruas e a precarização da infraestrutura urbana.
Uma narrativa construída a muitas vozes
Com cerca de 62 minutos de duração e depoimentos de 11 personagens diretamente envolvidos na campanha e na gestão, o filme recompõe, pela memória dos participantes, o clima político dos anos 1980. Passam pela tela nomes como:
Maria Luíza Fontenele, ex-prefeita e figura central da narrativa
Rosa da Fonseca, militante histórica e parceira política de Maria Luíza
Jorge Paiva, articulador da campanha ao lado de Maria Luíza e Rosa
Gonzaga Mota, então governador do Ceará, do PMDB
Lúcio Alcântara, adversário na disputa pela prefeitura
José Genoino, dirigente petista que acompanhou a campanha e os primeiros dias de gestão
Intelectuais e figuras ligadas à comunicação, como Paulo Linhares e Bete Jaguaribe, que ajudaram a pensar a estratégia de campanha
Barroso destaca que, apesar de se tratar de uma história conduzida por uma mulher, há mais homens do que mulheres entre os depoentes, não por escolha temática, mas por limitações de acesso e agenda. Ele relata que, ainda antes da estreia, recebeu críticas por não ter ouvido determinadas figuras, mas devolve com franqueza: quem cobra, muitas vezes, não ajudou a abrir portas nem a fornecer contatos quando o projeto ainda estava em construção.
Arquivos, jornais e imagens que “nem sabiam que existiam”
Uma das camadas mais ricas do documentário é o trabalho de garimpo de arquivo. Barroso conta que começou a gravar entrevistas em 2011 e, paralelamente, foi atrás de documentos que haviam ficado dispersos por acervos públicos e particulares. Foram consultados:
Recortes de jornais, especialmente do O Povo, além de materiais do Diário do Nordeste
Fotografias de acervos privados e familiares
Imagens do Museu da Imagem e do Som (MIS)
O acervo do fotógrafo Bartacho, que acompanhou intensamente aquele período e morreu em 1986, deixando um conjunto precioso de registros hoje sob guarda do Instituto Poliglota, em Fortaleza
Fotografias de Jacks Antunes e outros profissionais que documentaram a efervescência política da época
O diretor menciona ter encontrado gravações que nem os próprios acervos sabiam que possuíam, imagens inéditas que, segundo ele, dão um “ar renovado” ao filme e ajudam a reconstituir não apenas fatos, mas também a atmosfera emocional e estética daquele momento de transição.
Um filme independente e a insensibilidade dos editais
Se a história filmada é a da primeira prefeita de capital pelo PT, a história da própria produção de “Prefeita” também é a de uma luta contra estruturas pouco abertas à memória crítica. Felipe Barroso explica que:
Tentou inscrever o projeto em diversos editais culturais ao longo de cerca de uma década
Submeteu propostas a editais da União, do Estado e do município, inclusive seleções recentes da Secult estadual e da Secretaria de Cultura de Fortaleza
Nenhum desses editais contemplou o documentário
O filme só se viabilizou graças ao apoio do Instituto CETEC e a um suporte técnico da Universidade de Fortaleza (Unifor), além de muitos recursos próprios do diretor. Ele classificou essa trajetória como um “trabalho de formiguinha”, feito sem grande equipe e sem estrutura profissional de produtora audiovisual.
Felipe faz questão de dizer que não é profissional do audiovisual, mas um “curioso” empenhado em garantir que esse capítulo da história de Fortaleza esteja acessível a futuros pesquisadores, estudantes e militantes.
Uma única sessão, por exigência dos festivais
Um dado importante revelado no “Café com Democracia” é que a exibição desta sexta-feira será única. Isso não é uma estratégia de escassez, mas uma exigência dos festivais de cinema, que costumam demandar ineditismo para aceitar inscrições:
O diretor explicou que, para participar de mostras e festivais, não poderá manter o filme em cartaz nem disponibilizá-lo imediatamente em plataformas digitais.
Por isso, quem quiser ver “Prefeita” no Cine Teatro São Luiz precisa aproveitar essa sessão inaugural. A entrada é gratuita, sem necessidade de retirada prévia de ingressos: basta chegar com um documento de identificação com foto, seguindo as regras do próprio cinema.
Maria Luíza presente e memória em disputa
Questionado sobre convidados para a estreia, Barroso confirmou que Maria Luíza Fontenele estará presente na sessão. Há uma lista extensa de convidados, mas, como ressaltou, só será possível saber quem de fato comparecerá na noite da estreia.
Mais do que reunir nomes históricos, o objetivo central do registro é provocar reflexão: o filme convida o público a rever a trajetória da primeira prefeita de Fortaleza a partir de múltiplos pontos de vista, observando o boicote político que marcou sua gestão, a dependência financeira da prefeitura em relação ao governo estadual antes da Constituição de 1988 e o modo como a narrativa dominante costuma atribuir todos os problemas urbanos à “incompetência da esquerda”, sem mencionar os bloqueios e sabotagens institucionais.
O documentário também reforça uma pergunta ainda atual: por que a presença de mulheres na chefia do Executivo é tão rara? Em quatro décadas, Fortaleza só teve duas prefeitas: Maria Luíza, em 1985, e, anos depois, Luizianne Lins. O filme, ao revisitar esse percurso, ajuda a iluminar as resistências e violências políticas que continuam a limitar a participação feminina nos espaços de poder.
Um diretor entre a sala de aula e a sala de cinema
Além de “Prefeita”, Felipe Barroso relembrou, na conversa com Luiz Regadas, outros trabalhos que assinou, como:
Um documentário sobre a Padaria Espiritual, movimento artístico-literário cearense de 1892, disponível gratuitamente em seu canal no YouTube, que conta a história de autores como Antônio Sales, Rodolfo Teófilo, Raimundo de Oliveira (Ramos Cotoco) e Henrique Jorge, entre outros
O filme “Subversivos” (2008), sobre a ditadura militar contada a partir de cearenses perseguidos politicamente e também com depoimentos de representantes do outro lado, como ex-autoridades do regime e figuras ligadas à Justiça Militar da época
Hoje aposentado da docência universitária, Barroso afirmou que pôde retomar com mais fôlego o projeto de “Prefeita” e outros trabalhos que “alimentam o espírito”. Ao fim da entrevista, deixou seu e-mail de contato, reforçou o caráter independente da produção e voltou ao ponto central que o moveu ao longo de 14 anos de pesquisa, entrevistas e busca de arquivos: “Minha principal interesse é deixar esse registro para as futuras gerações.”
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