Morre Luiz Carlos Barreto, o cearense que ajudou a construir o cinema brasileiro moderno

Nascido em Sobral, produtor deixa um legado de mais de seis décadas à frente da L.C. Barreto, responsável por clássicos que marcaram a história do cinema nacional

Da Redação

O cinema brasileiro perdeu nesta quarta-feira (22) um de seus maiores protagonistas. O produtor, fotógrafo e diretor cearense Luiz Carlos Barreto morreu aos 98 anos, no Rio de Janeiro, encerrando uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à construção de uma das mais importantes cinematografias da América Latina. Nascido em Sobral, em 20 de maio de 1928, “Barretão”, como era conhecido, participou diretamente da consolidação do Cinema Novo e produziu algumas das obras mais emblemáticas da história audiovisual do país.

Ao lado da produtora Lucy Barreto, fundou em 1963 a L.C. Barreto, empresa que se transformaria em uma referência do cinema nacional. Ao longo de sua história, a produtora realizou mais de 150 filmes, reunindo diretores, roteiristas e atores que ajudaram a definir a identidade do cinema brasileiro contemporâneo.

Um produtor que ajudou a contar o Brasil

Mais do que produzir filmes, Luiz Carlos Barreto foi um articulador de projetos que retrataram o país em diferentes momentos históricos.

Seu nome está associado a clássicos como Vidas Secas, Terra em Transe, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Bye Bye Brasil, A Dama do Lotação, O Quatrilho e O Que É Isso, Companheiro?. As produções alcançaram milhões de espectadores, conquistaram reconhecimento internacional e contribuíram para colocar o cinema brasileiro no circuito mundial.

Entre seus maiores sucessos comerciais estão Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976) e A Dama do Lotação (1978), que permanecem entre as maiores bilheterias da história do cinema nacional. Já O Quatrilho recebeu indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional, enquanto O Que É Isso, Companheiro? também disputou a principal premiação do cinema mundial na mesma categoria.

Do Ceará para o mundo

Embora tenha construído carreira no Rio de Janeiro, Barretão jamais deixou de ser reconhecido como um dos grandes representantes da cultura cearense.

Nos últimos anos, recebeu diversas homenagens no Estado. Em 2024, durante as celebrações do Centenário do Audiovisual Cearense, ele e Lucy Barreto foram homenageados no Cineteatro São Luiz pelo conjunto da obra e pela contribuição decisiva ao desenvolvimento da indústria cinematográfica brasileira.

Também naquele ano, o Festival de Cannes reuniu simbolicamente diferentes gerações do audiovisual cearense: Luiz Carlos Barreto participou da mostra Cannes Classics com Bye Bye Brasil, enquanto Karim Aïnouz disputava a Palma de Ouro com Motel Destino, evidenciando a continuidade da presença cearense no cinema internacional.

Um legado que atravessa gerações

A importância de Luiz Carlos Barreto vai além dos filmes que produziu. Sua atuação foi decisiva para profissionalizar a produção audiovisual brasileira, estruturar modelos de financiamento e consolidar uma indústria capaz de combinar relevância artística com grande alcance de público.

Ao lado de Lucy Barreto, formou uma das parcerias mais longevas e influentes da cultura brasileira, abrindo espaço para novos cineastas e contribuindo para que diferentes gerações encontrassem condições para produzir cinema no país.

Sua morte encerra um dos capítulos mais importantes da história do audiovisual brasileiro, mas deixa um patrimônio cultural que continuará inspirando cineastas, pesquisadores e espectadores por muitas décadas.