Atitude Popular

“Não dá pra continuar cada um no seu quadrado, fazendo comunicação”

FNDC reúne movimentos sociais, sindicatos e pesquisadores em Fortaleza, cobra democratização das verbas e da mídia pública, leva TV 3.0 e IA para o centro do debate e convoca rede nacional de influenciadores

O V Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação, edição especial do FNDC, começou com agenda cheia em Fortaleza e um recado direto do convidado Admirson Medeiros, Greg, dirigente do Fórum, a regulação da comunicação precisa sair do papel e chegar às praças, às escolas e às telas. A matéria tem como fonte a entrevista exibida no Democracia no Ar, apresentada por Sara Goes, que abriu espaço para detalhar programação, disputas e tarefas urgentes do campo democrático no ambiente informacional.

Greg explicou que a grade reúne painéis matinais e atividades autogestionadas à tarde, com temas que vão de plataformas e soberania digital ao impacto do trabalho mediado por inteligência artificial. “Amanhã tem uma mesa que vai discutir regulação de plataforma e soberania digital”, disse, citando a presença de Renata Mielli e Orlando Silva. Sobre o mundo do trabalho e IA, adiantou, “no último dia, a mesa vai discutir a luta dos trabalhadores em tempos de inteligência artificial, vai estar o Sérgio Amadeu, que aproveita para lançar o livro dele no evento”.

A programação da tarde amplia o escopo para geopolítica, educação midiática e produção de conteúdo. “Nós vamos ter atividades de duas horas, educação midiática, inteligência artificial, produção audiovisual, oficina de podcast”, afirmou. Um dos destaques trata do conflito no Oriente Médio, “vai falar sobre a questão da Palestina, o genocídio e o assassinato de jornalistas”, com Karine Garcez, Rita Freire, Samira e Soraya Mileski. Segundo Greg, parte das atividades ocorre no Sindicato dos Bancários e espaços parceiros, com transmissões ao vivo e participação remota quando possível.

Ao responder por que a TV pública some do dial enquanto proliferam canais religiosos e policialescos, Greg voltou à origem da agenda do FNDC. “Desde que esse Fórum foi criado, essa é a principal bandeira, democratização das mídias”, lembrou. Ele relacionou o desenho institucional do sistema público ao desmonte recente, “a EBC foi criada para garantir complementariedade e voz da sociedade civil, a primeira medida do governo Temer foi cassar o conselho curador, e depois o Bolsonaro desmontou o que restava”.

A reconstrução, na avaliação do dirigente, ainda patina. “Mesmo com um governo de participação social, a gente não conseguiu uma ação governamental mais proativa”, disse, apontando o peso do Congresso conservador e a ausência de nova Conferência Nacional de Comunicação. “Só houve uma Confecon, o que saiu de lá precisava ser implementado, até hoje não foi”, acrescentou. Greg cobrou critérios para verbas oficiais, “a Rede Globo bateu o recorde de patrocínio de verbas públicas, a mídia alternativa enfrenta dificuldade tremenda, se destinasse cinco por cento disso, a gente faria uma senhora festa”.

A pauta regulatória, frisou, já não se limita à radiodifusão. “A regulação vai além dos meios tradicionais, passa pelas plataformas, pela inteligência artificial, pelo reconhecimento facial, está capturando nossos dados”, disse. Ele confirmou que o encontro leva o debate sobre TV 3.0 para o plenário, mas criticou o formato de consulta adotado até aqui. “Nem todas as entidades foram escutadas, foi algo mais selecionado, a Secom dialogou com setores técnicos, faltou um debate mais amplo com a sociedade civil”.

A mobilização não é apenas tarefa do governo, insistiu. “A responsabilidade está nas três instâncias, governos estaduais e municipais”, afirmou, defendendo conselhos e orçamentos para comunicação pública local. E lançou um desafio ao próprio campo progressista. “Não dá pra continuar cada um no seu quadrado, fazendo comunicação, a gente tem que se articular melhor, construir coisas colaborativas, disputar narrativas, divulgar o que o outro está fazendo”, disse. O FNDC, afirmou, precisa reativar comitês estaduais e conectar sindicatos, rádios comunitárias, coletivos de periferia, academia e movimentos populares.

Universidades e institutos federais entram no plano como motores de literacia midiática e fiscalização cidadã. “Precisamos que nossos estudantes montem observatórios da mídia, façam o diagnóstico do conteúdo que está sendo exposto e que está transgredindo a legislação”, explicou. Onde há observatórios, relatou, os dossiês têm sustentado ações do Ministério Público contra programas policialescos que violam direitos. “Se o Ministério da Educação estimular observatórios em todo o país, a gente reforça o combate à desinformação e a construção de uma mídia mais humanizada”, propôs.

O debate sobre como furar bolhas digitais evocou o caso Felca como exemplo de peça audiovisual que deslocou públicos diversos. Para Greg, é hora de conectar talentos já existentes com novas vozes. “Tem gente fazendo comunicação no interior e nas periferias que a gente desconhece”, disse. “Eu mesmo comecei publicando estudos sobre IA e de repente começou a repercutir, a gente tem que se apropriar da tecnologia”. A meta é formar uma rede de influenciadores do campo democrático, com linguagem acessível e capacidade técnica para produzir investigações e conteúdos de alto impacto.

O encontro também faz política organizativa, com plenária do FNDC para eleger direção e aprovar um plano de ação. “O balanço do que foi feito está no site, e a plenária vai aprimorar o plano”, disse Greg, condicionando ambição a capilaridade. “A gente só vai conseguir ter atividade se os comitês estaduais funcionarem”. O convite final é para além dos auditórios. “É preciso ter programas que desçam para a comunidade, cinema em praça, rádio em praça, teatro, poesia”, afirmou. “Esperança é uma coisa que a gente nunca pode deixar de ter”.

Serviço e como acompanhar
Entrada livre nos espaços parceiros do evento, com transmissões pontuais ao vivo. Segundo Greg, “tem muita gente no presencial e alguns participando remotamente, a gente vai divulgando durante o dia, algumas transmissões são nos canais das entidades que promovem”.

Sindicato dos Bancários de Fortaleza:
5º Encontro Nacional pelo Direito à Comunicação
📅 8 a 10/Set
🏛️ Sindicato dos Bancários do Ceará
📍 Rua 24 de Maio, 1289 – Centro. Fortaleza – Ceará
Dia 1 – 11 de setembro (quarta-feira)
9h – Mesa de abertura: A comunicação como direito humano e a luta pela democracia no Brasil
14h às 16h – Atividades autogestionadas (educação midiática, produção audiovisual, oficinas de podcast, entre outras)
18h – Atividade cultural

Dia 2 – 12 de setembro (quinta-feira)
9h – Mesa: Regulação de plataformas e soberania digital, com Renata Mielli, Orlando Silva e convidados
14h às 16h – Painel: Palestina, genocídio e o assassinato da mídia, com Karine Garcez, Rita Freire, Samira Cas e Soraya Mileski
18h – Atividade cultural

Dia 3 – 13 de setembro (sexta-feira)
9h – Mesa: A luta dos trabalhadores em tempos de inteligência artificial, com Sérgio Amadeu (lançamento de livro), Blanchet (USP) e convidados
14h às 16h – Plenária do FNDC: balanço das ações, eleição de nova direção e aprovação do plano de ação
18h – Encerramento cultural

Transmissão ao vivo: https://www.youtube.com/@canaldofndc

https://www.instagram.com/5endc

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📅 De segunda à sexta
🕙 Das 10h às 11h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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