Atitude Popular

“O Ceará é muito pequeno para o ego do Ciro”

No Democracia no Ar, Christiano Fiúza e Osmar de Sá Ponte analisam pesquisas, narrativas e os impasses que já movem a disputa presidencial de 2026

As movimentações mais recentes da corrida presidencial e os sinais emitidos pelas pesquisas eleitorais estiveram no centro da edição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, que recebeu o consultor político e psicanalista Christiano Fiúza para uma conversa com o professor Osmar de Sá Ponte sobre os cenários que começam a se desenhar para a eleição de 2026.

O debate ocorreu em meio a uma semana de forte agitação política nacional, marcada pela divulgação de novas sondagens eleitorais, pelo avanço da desaprovação ao governo Lula em levantamento da Genial/Quaest e pela repercussão do convite feito por Aécio Neves para que Ciro Gomes dispute a Presidência pelo PSDB. Levantamento CNT/MDA divulgado em 14 de abril apontou Lula com 39,2% no primeiro turno, à frente de Flávio Bolsonaro, com 30,2%. Já a Genial/Quaest, divulgada em 15 de abril, mostrou alta da desaprovação ao governo, de 49% para 52% desde janeiro, e queda da aprovação, de 47% para 43%.

Ao longo do programa, Christiano Fiúza avaliou que o novo gesto de Aécio em direção a Ciro mexe com uma ambição antiga do ex-ministro e reabre uma equação que ainda está longe de se fechar. “O Ceará é muito pequeno para o ego do Ciro”, afirmou, resumindo a leitura de que a arena estadual nunca foi suficiente para o projeto pessoal do pedetista. Para o consultor, a possibilidade de uma candidatura presidencial volta a seduzir Ciro justamente porque toca em sua aspiração histórica de chegar ao Planalto.

Fiúza lembrou que a iniciativa tucana, embora politicamente ruidosa, ainda está no terreno da possibilidade, não da definição. Segundo ele, o gesto de Aécio tem força simbólica, mas o PSDB de hoje já não é o mesmo de outros ciclos eleitorais e ainda precisa demonstrar que tem capacidade real de influenciar a disputa nacional. Em sua análise, trata-se de uma proposta que mexe mais com a dimensão emocional de Ciro do que com uma engenharia eleitoral já consolidada.

“Aécio levantou uma possibilidade”, disse. “Isso emociona muito o Ciro, mas, racionalmente, ainda tem muita coisa em aberto.” Para Fiúza, a hipótese de uma nova candidatura presidencial dependerá não só do desejo do ex-governador, mas também do desenho das alianças, do espaço real do PSDB e da capacidade de Ciro de sustentar uma coalizão competitiva sem se contradizer ainda mais diante do eleitorado.

O professor Osmar de Sá Ponte, por sua vez, chamou atenção para a forma como a candidatura de Ciro pode reordenar o centro político, caso efetivamente saia do papel. Na avaliação dele, o ex-ministro tenta se reposicionar como uma espécie de “reconstrutor do centro”, com potencial para disputar votos fora da polarização tradicional. Osmar ponderou, no entanto, que a viabilidade desse caminho depende de uma eventual despolarização do cenário, algo que ainda não se confirmou.

Para Osmar, a política brasileira vive hoje menos da racionalidade programática e mais da disputa pelo imaginário, pela emoção e pela identificação simbólica. “A emoção tem pautado as redes”, afirmou. Em outro momento, sintetizou o problema central da esquerda institucional: “A culpa não é da big tech, a culpa é da incapacidade de realizar e de formar narrativas que sejam agradáveis e empáticas com a vida.”

A análise do programa também se concentrou nas pesquisas e em seus limites. Fiúza rejeitou a ideia de que os levantamentos devam ser tratados como peça menor do jogo político. Ao contrário, argumentou que eles ajudam a medir humores sociais, tendências e deslocamentos, ainda que não fechem, por si só, o futuro da disputa. Ele destacou que a sequência recente de sondagens mostra um país ainda polarizado, mas também mais instável do que parece à primeira vista.

Nesse ponto, o debate ganhou densidade ao relacionar números eleitorais com percepção social. A pesquisa Genial/Quaest mostrou que 48% dos entrevistados veem o noticiário sobre o governo como mais negativo do que positivo, enquanto 50% consideram que a economia piorou no último ano. O dado mais sensível, segundo o próprio levantamento, está no mercado: 72% dizem ter percebido aumento no preço dos alimentos.

Fiúza sustentou que a deterioração da imagem do governo não pode ser explicada apenas por indicadores macroeconômicos, ainda que eles tenham peso. Para ele, há um problema mais profundo de percepção, linguagem e vínculo com o cotidiano popular. O consultor observou que parte da esquerda ainda se comunica num registro excessivamente institucional ou acadêmico, enquanto o eleitor médio responde a outros estímulos, muito mais ligados à vida concreta, à insegurança, ao ressentimento e ao desejo de pertencimento.

“Decisão de voto não é racional, é emocional”, resumiu. A partir dessa chave, Fiúza argumentou que o campo progressista segue em desvantagem estrutural num país de cultura majoritariamente conservadora e com baixíssima identificação espontânea com a esquerda. Em sua leitura, isso ajuda a explicar por que Lula, mesmo com a máquina pública, a memória de seus governos anteriores e indicadores econômicos favoráveis em alguns setores, enfrenta dificuldade para converter esses elementos em apoio sólido e entusiasmado.

Osmar aprofundou essa leitura ao afirmar que a política contemporânea se parece cada vez mais com uma disputa seriada, contínua, em que cada novo episódio exige resposta imediata. Para ele, o governo federal tem falhado justamente nesse terreno, deixando vácuos narrativos em temas sensíveis e permitindo que adversários ocupem o espaço simbólico com mais rapidez. O resultado, disse, é a erosão da autoridade moral e da capacidade de convencimento.

Na avaliação do professor, o impacto da violência no cotidiano e a ausência de respostas políticas mais eficazes também pesam sobre a popularidade do governo. Ele observou que o celular, a moto, o trabalho por aplicativo e a sensação de vulnerabilidade passaram a ocupar um lugar central na experiência popular urbana, exigindo uma leitura política menos abstrata e mais conectada à vida real.

Fiúza concordou e foi além. Para ele, a esquerda institucional ainda não compreendeu plenamente a profundidade da transformação em curso no país. O eleitor trabalhador precarizado, o motorista de aplicativo, o entregador e o jovem hiperconectado já vivem outra experiência social, com outros códigos de autonomia, pertencimento e frustração. Quando a política não fala nessa frequência, perde terreno.

O consultor também ressaltou que as pesquisas precisam ser lidas com cautela, mas sem desdém. No caso do cenário presidencial, ele observou que Lula segue competitivo, mas já não consegue impor folga estável sobre os adversários. Reuters informou nesta semana que o Datafolha mostrou empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, enquanto a Quaest também registrou quadro apertado. Já a CNT/MDA apontou vantagem de Lula sobre Flávio num dos cenários testados, indicando que a corrida ainda está aberta e sujeita a variações conforme o instituto, a metodologia e o momento político.

Ao relacionar o quadro nacional ao Ceará, o programa destacou que o estado segue sendo peça relevante na engrenagem de 2026, tanto pelo peso simbólico de nomes como Ciro Gomes quanto pela reorganização de forças em torno do lulismo e de suas alianças. Mas, se houve um consenso entre os debatedores, foi o de que nenhuma fotografia atual basta para explicar a eleição que virá. O cenário ainda está em movimento, e as narrativas que conseguirem transformar insatisfação difusa em identidade política terão vantagem decisiva.

No encerramento, Osmar de Sá Ponte sintetizou a provocação maior do debate ao defender que a esquerda precisa recuperar sua vocação transformadora. “Nós estamos precisando é de coragem para mudar o mundo que não mudou o suficiente ainda”, afirmou, em uma fala que funcionou como fecho político e também como diagnóstico de época.

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Referências

Pesquisa CNT/MDA
Levantamento citado no debate para analisar os cenários mais recentes da corrida presidencial e a posição dos principais nomes testados para 2026.
https://drive.google.com/file/d/1LZtywKB6ki6yF90nRhA2SsF6t99RQrqS/view?usp=sharing

Datafolha
Reportagem com dados sobre rejeição eleitoral de Lula, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, usada como contraponto para discutir limites, oscilações e leituras possíveis das pesquisas.
https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/04/datafolha-48-rejeitam-lula-46-flavio-17-zema-e-16-caiado.shtml

Genial/Quaest
Levantamento de 15 de abril de 2026 sobre aprovação e desaprovação do governo Lula, além da percepção do eleitorado sobre economia e alta dos preços dos alimentos, tema central da discussão no programa.
https://quaest.com.br/tendencia-piora-avaliacao-do-governo-lula-abril-2026/

Convite de Aécio a Ciro Gomes
Matéria da Atitude Popular sobre o convite feito por Aécio Neves para que Ciro Gomes dispute a Presidência pelo PSDB, movimento que foi antecipado em análise anterior no próprio Democracia no Ar.
https://atitudepopular.com.br/aecio-convida-ciro-para-disputar-presidencia-pelo-psdb-analista-no-democracia-no-ar-antecipou/

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