Doutor em Políticas Públicas e indigenista da Funai analisa o avanço da extrema direita, a desmobilização das esquerdas, os interesses econômicos em torno das eleições de 2026 e os desafios enfrentados pelos povos indígenas
O avanço da extrema direita e a disputa política que antecede as eleições de 2026 foram o centro da entrevista concedida por Gustavo Guerreiro ao programa Trilhas da Soberania, exibido em 24 de setembro. Doutor em Políticas Públicas pela Universidade Estadual do Ceará (UECE), indigenista da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), pesquisador do Observatório das Nacionalidades, editor da revista Tensões Mundiais e diretor de Pesquisa do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), Guerreiro discutiu a polarização política, a disputa ideológica nas redes sociais, a perda de mobilização das forças de esquerda e os conflitos envolvendo povos indígenas e grandes interesses econômicos.
Ao comentar o cenário eleitoral apresentado durante o programa, Guerreiro afirmou que o país não teria deixado para trás a polarização observada na eleição anterior. Para ele, a polarização pode fazer parte do funcionamento democrático, mas a própria definição dos polos precisa ser examinada quando uma das forças em disputa, segundo sua avaliação, atua fora dos parâmetros democráticos. Na entrevista, ele também analisou a base eleitoral do bolsonarismo e afirmou que a disputa não seria definida apenas pela conversão de eleitores já convencidos, mas também pela capacidade de mobilização e pelo comparecimento às urnas.
Guerreiro relacionou o cenário eleitoral a fatores econômicos e sociais. Segundo sua análise, indicadores como a queda do desemprego, a valorização real do salário mínimo e a retomada de programas sociais contribuem para a avaliação positiva do governo Lula, enquanto o preço dos alimentos e a circulação de desinformação nas redes sociais permanecem como fatores de disputa. Ele também chamou atenção para a abstenção entre eleitores de menor renda, especialmente nas periferias nordestinas, apontando essa questão como um dos elementos relevantes da disputa eleitoral.
A entrevista avançou então para uma questão central: por que setores da esquerda encontram dificuldades para mobilizar a população fora das instituições? Para Guerreiro, o problema não deve ser entendido como uma perda definitiva das ruas, mas como resultado de um processo de desmobilização das bases históricas. Ele relacionou esse processo à concentração de esforços na governabilidade institucional, nas negociações parlamentares e na administração do Estado.
Outro fator apontado pelo pesquisador foi a precarização das condições de vida. A expansão da uberização, o endividamento e jornadas de trabalho exaustivas, como a escala 6×1, reduzem o tempo disponível para a participação política. Na avaliação apresentada durante a entrevista, a mobilização social depende também da capacidade de transformar questões materiais concretas em pautas políticas capazes de organizar a população.
“Não há mais espaço para ficar na defensiva”, afirmou Guerreiro ao discutir a necessidade, em sua avaliação, de que as forças de esquerda retomem a disputa política e ideológica. Ele associou o avanço da extrema direita a condições materiais e a uma disputa permanente no campo das ideias, destacando também o papel das plataformas digitais e dos algoritmos na formação do debate público.
O pesquisador também abordou a relação entre setores empresariais e diferentes projetos políticos. Em vez de considerar a elite econômica brasileira como um bloco homogêneo, Guerreiro distinguiu interesses do capital financeiro, do agronegócio e de segmentos industriais. Para ele, determinados setores podem apoiar políticas de redução de direitos sociais, privatizações e desregulamentação, mas ao mesmo tempo demonstrar preocupação com cenários considerados imprevisíveis para os negócios.
Nesse contexto, Guerreiro questionou a existência de um projeto consistente de soberania nacional por parte das elites econômicas brasileiras. Segundo ele, setores financeiros estariam mais preocupados com rentabilidade e preservação de privilégios do que com um projeto nacional de longo prazo. Também afirmou que parte do empresariado pode considerar relevantes a previsibilidade econômica e a abertura de mercados, especialmente diante da inserção internacional do Brasil.
A relação entre extrema direita e política ambiental foi outro ponto importante da conversa. Guerreiro afirmou que setores econômicos ligados ao agronegócio, ao garimpo e à mineração podem ser beneficiados por propostas de flexibilização das regras ambientais. Na sua avaliação, o conflito aparece quando interesses de curto prazo entram em choque com políticas de proteção ambiental e com os direitos territoriais de povos indígenas e comunidades tradicionais.
Para ilustrar esse argumento, o indigenista relatou uma experiência profissional vivida durante os anos em que trabalhou com os Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. Ele contou que participou de uma iniciativa voltada à recuperação de variedades tradicionais de milho utilizadas por comunidades indígenas. Segundo seu relato, o cultivo de sementes tradicionais enfrentava dificuldades em razão da presença, no entorno dos territórios, de lavouras com variedades comerciais e transgênicas.
Guerreiro associou esse episódio a um problema mais amplo: a redução da diversidade agrícola não significa apenas perda de variedades de plantas, mas também pode afetar práticas culturais e religiosas vinculadas à alimentação e ao território. Ele destacou que determinadas variedades tradicionais de milho possuem importância espiritual para os Guarani Kaiowá e participam de rituais que organizam a vida comunitária.
A discussão sobre cultura e território levou o programa a abordar também a maneira como a extrema direita mobiliza ideias de retorno a um passado idealizado. Guerreiro utilizou o conceito de “ritornelo”, associado aos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari, para interpretar mecanismos políticos baseados na promessa de retorno à família, à religião, à ordem e a uma suposta tradição perdida.
Segundo ele, esse mecanismo pode ser utilizado politicamente por movimentos reacionários por meio da fabricação de determinados medos sociais seguida pela oferta de uma narrativa de proteção. “A extrema direita fabrica pânico social, o caos do comunismo, da dissolução moral, da violência urbana para depois oferecer o ritornelo reacionário protetor”, afirmou.
A entrevista também entrou no debate sobre a política indigenista durante o governo Lula. Guerreiro reconheceu avanços na área da saúde indígena e mencionou a ampliação de estruturas de atendimento nos territórios. No Ceará, segundo o relato apresentado por ele, foram construídas novas unidades básicas de saúde indígena durante o atual governo, com expansão de ações também para outros estados atendidos pela coordenação em que trabalha.
Ao mesmo tempo, o pesquisador destacou que a situação dos povos indígenas permanece marcada por problemas estruturais. Entre os pontos mencionados estão a demora nos processos de demarcação, limitações orçamentárias, dificuldades burocráticas, violência nos territórios e avanço de organizações criminosas sobre determinadas comunidades indígenas do Nordeste.
Guerreiro também criticou a ausência de uma atuação adequada das forças de segurança em alguns territórios e apontou a necessidade de discutir a regulamentação do poder de polícia da Funai. Para ele, a política indigenista não pode ser analisada isoladamente de problemas mais amplos relacionados à segurança pública, à ocupação territorial e ao modelo de desenvolvimento adotado pelo país.
Outro exemplo apresentado foi Belo Monte. Guerreiro afirmou que reconhece a importância da soberania energética, mas criticou os impactos da construção da usina sobre comunidades indígenas e questionou os resultados de geração de energia alcançados pelo empreendimento. O caso, segundo sua análise, expõe o conflito entre grandes projetos de infraestrutura e os direitos territoriais e culturais dos povos originários.
Na parte final da entrevista, o pesquisador defendeu a necessidade de enfrentar mudanças recentes na legislação ambiental e indigenista. Entre as medidas citadas por ele estão a revisão de normas que considera prejudiciais à proteção ambiental e aos direitos indígenas, a recomposição de órgãos públicos responsáveis pela fiscalização e a utilização de mecanismos financeiros para atingir estruturas econômicas ligadas a crimes ambientais.
Guerreiro também destacou a importância da demarcação das terras indígenas no enfrentamento da crise climática. Segundo ele, a proteção territorial indígena possui relação direta com a preservação ambiental e com a redução do desmatamento.
Ao encerrar sua participação, o entrevistado ressaltou que sua atuação no Cebrapaz está vinculada à solidariedade internacional e às pautas relacionadas aos povos do Sul Global. Ele mencionou campanhas de solidariedade a Cuba, à Palestina e ao povo saaraui, além da atuação da entidade em diferentes estados brasileiros e em articulações internacionais.
A conversa terminou com Guerreiro agradecendo o espaço oferecido pelo programa e destacando a importância da circulação de ideias por diferentes canais de comunicação. Ele afirmou que já havia participado de outros espaços de imprensa, mas que considerava relevante a possibilidade de discutir questões indígenas e políticas em canais independentes. “No fundo, não tá aqui a questão do Gustavo Guerreiro tá falando, a questão são quais são os assuntos que nós vamos abordar”, afirmou.
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