“Não tem nada de nuvem”

Atahualpa Blanchet alerta que data centers são estruturas físicas gigantescas, com alto consumo de energia e água, e defende debate público sobre soberania digital e impactos socioambientais

A instalação de grandes data centers no Brasil tem sido apresentada como uma nova fronteira de desenvolvimento tecnológico, capaz de atrair investimentos, gerar empregos e inserir o país com mais força na economia digital. Mas, por trás da promessa de modernização, crescem as dúvidas sobre os impactos ambientais, territoriais, econômicos e políticos desses empreendimentos, especialmente em regiões marcadas por desigualdades históricas e pressão sobre recursos naturais.

O tema foi debatido no programa Democracia no Ar, da Atitude Popular, com apresentação de Sara Goes e comentários de Fábio Sobral. A entrevista recebeu Atahualpa Blanchet, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP) e integrante da Relatoria de Inteligência Artificial do Conselho Nacional dos Direitos Humanos, para discutir “Data Centers: inovação tecnológica e impactos socioambientais”.

Logo no início da conversa, Atahualpa afirmou que o debate sobre data centers não pode ser tratado como uma questão apenas local. Segundo ele, trata-se de um fenômeno mundial, já presente em fóruns multilaterais como G7, G20, Brics e Mercosul. A expansão da inteligência artificial exige infraestrutura física, energia, água, minerais e capacidade de processamento. Por isso, a discussão envolve desenvolvimento econômico, geopolítica, soberania digital, direitos humanos e proteção ambiental.

“Não tem nada de nuvem. Na verdade, são estruturas físicas gigantescas, que necessitam de um espaço territorial enorme, de energia elétrica e de uma utilização de água para o resfriamento dos servidores”, afirmou.

No Ceará, o caso do Complexo Industrial e Portuário do Pecém tornou-se um dos principais exemplos dessa disputa. O projeto de instalação de um data center ligado ao TikTok, em área próxima ao território do povo indígena Anacé, tem provocado questionamentos sobre consulta prévia, licenciamento ambiental e transparência das informações. A comunidade denuncia a falta de diálogo e alerta para riscos ambientais e territoriais.

Atahualpa informou que a Relatoria de Inteligência Artificial do Conselho Nacional dos Direitos Humanos prepara uma missão institucional ao Ceará entre os dias 6 e 10 de julho. A agenda deve incluir diálogo com o governo do estado, parlamentares, sistema de Justiça, universidades e comunidades impactadas. Segundo ele, a missão pretende reunir informações, ouvir os diferentes envolvidos e contribuir para que o tema seja debatido de forma pública e democrática.

“É preciso aconselhar e ouvir as partes, dialogar e compreender melhor qual é a linha de desenvolvimento que a gente vai buscar adotar”, disse.

O pesquisador chamou atenção para a dificuldade de acesso a dados sobre os impactos reais desses empreendimentos. Ele citou recomendação do Ministério Público Federal e da Defensoria Pública da União para que órgãos ambientais do Ceará apresentem mais transparência sobre o licenciamento do projeto. Para ele, a instalação de uma estrutura desse porte não pode ser conduzida como se fosse um empreendimento simples ou de baixo impacto.

A discussão envolve ainda a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que prevê consulta livre, prévia e informada a povos indígenas e comunidades tradicionais afetadas por grandes projetos. No caso do Pecém, esse ponto ganhou relevância diante das denúncias do povo Anacé.

Atahualpa comparou o debate brasileiro com experiências de outros países que já passaram a impor limites ou moratórias à expansão de data centers. Ele citou Singapura, Irlanda, Amsterdã, Frankfurt e Nova York como exemplos de lugares onde autoridades passaram a discutir restrições até que haja maior clareza sobre impactos energéticos, hídricos e urbanos.

“Em muitos países, já vem se tratando a questão de uma chamada moratória. Vamos não avançar com a instalação de data centers enquanto não tenhamos informações completas sobre seus impactos”, afirmou.

Para o pesquisador, o Brasil corre o risco de repetir um modelo de desenvolvimento baseado na oferta de território, energia, água, incentivos fiscais e mão de obra barata, sem garantir transferência de tecnologia, retorno social proporcional ou controle nacional sobre dados estratégicos. Ele observou que a soberania digital não se resume a armazenar dados em território nacional. O ponto decisivo é saber quem controla, trata e extrai valor desses dados.

“Soberania digital não é ter infraestrutura para receber os dados. O tratamento dos dados é o grande tema. Quem tem acesso a esses dados? Para que são utilizados? De quem são coletados?”, questionou.

A preocupação ganha peso diante da expansão acelerada da inteligência artificial. Atahualpa lembrou que esses sistemas já estão presentes em mecanismos de busca, redes sociais, plataformas de mensagens, ferramentas de trabalho, sistemas de vigilância, serviços públicos e aplicações militares. Nesse contexto, os dados produzidos diariamente pela população brasileira tornam-se ativos estratégicos.

O pesquisador também alertou para os riscos de dependência tecnológica em áreas sensíveis. Ele citou a possibilidade de dados de usuários do Sistema Único de Saúde serem tratados por empresas estrangeiras ligadas a sistemas de inteligência artificial e segurança. Para ele, isso exige cautela, regulação e capacidade pública de controle.

Fábio Sobral ampliou a discussão ao tratar do modelo econômico de atração desses empreendimentos. Segundo ele, o Ceará e outros estados brasileiros repetem há décadas uma política baseada em incentivos fiscais, isenções e infraestrutura subsidiada para grandes empresas, sem garantir transformação estrutural na economia local. Na avaliação dele, o debate não pode se limitar ao anúncio de investimentos bilionários.

“O Nordeste se subdesenvolveu não por incapacidade, mas por escolha política”, afirmou Fábio, ao comentar processos históricos de industrialização interrompidos e modelos de desenvolvimento baseados na dependência de capitais externos.

Ele também questionou a promessa de geração de empregos. Atahualpa observou que, durante a fase de construção, os data centers podem empregar milhares de trabalhadores, mas, depois de prontos, tendem a operar com equipes reduzidas e altamente especializadas. No caso do empreendimento ligado ao TikTok no Ceará, ele citou estimativa de cerca de 500 postos de trabalho para uma estrutura de aproximadamente 108 hectares, área equivalente a cerca de 95 campos de futebol.

“Geração de emprego não é o forte desses empreendimentos”, afirmou.

A entrevista também discutiu o que Atahualpa chamou de “dilema de Collingridge”, conceito usado para explicar a dificuldade de regular tecnologias cujos impactos ainda não estão plenamente dimensionados. Se a regulação vem cedo demais, há falta de informação sobre o funcionamento da inovação. Se vem tarde demais, os efeitos podem se tornar difíceis de conter.

No caso dos data centers, esse dilema aparece com força. A corrida global pela inteligência artificial pressiona países a aceitarem rapidamente grandes projetos de infraestrutura digital. Ao mesmo tempo, a falta de debate público pode levar à consolidação de danos ambientais, concentração econômica e dependência tecnológica.

“A tecnologia vem, é implementada, e parece que a gente está sempre correndo atrás dos impactos”, observou Atahualpa.

Para o pesquisador, o Brasil precisa decidir qual posição pretende ocupar na nova economia digital. O país pode se limitar a oferecer energia, água, território, minerais e dados para grandes corporações estrangeiras. Ou pode construir políticas públicas voltadas à soberania tecnológica, à proteção de comunidades e ao desenvolvimento de soluções próprias.

“Estamos falando de um tema que envolve o passado, o presente e o futuro do nosso país”, afirmou.

Atahualpa defendeu que o debate sobre data centers seja feito com seriedade, transparência e participação social. Para ele, a inovação tecnológica não pode ser usada como justificativa para atropelar direitos, fragilizar licenciamento ambiental ou ignorar comunidades diretamente afetadas.

Ao final da entrevista, o pesquisador afirmou que a missão do Conselho Nacional dos Direitos Humanos ao Ceará deverá produzir um relatório com os principais pontos observados. A expectativa é que o documento contribua para qualificar a discussão pública sobre data centers, inteligência artificial e soberania digital no Brasil.

“É importante que a gente possa, por meio do agir comunicativo, em programas como esse, trazer esse debate a público”, concluiu.

Referências

The Social Control of Technology, David Collingridge, 1980.
Convenção 169 sobre Povos Indígenas e Tribais, Organização Internacional do Trabalho, 1989.

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