No primeiro ato oficial da campanha, Presidente Lula vincula soberania à exploração das riquezas minerais, promete Ministério da Segurança se PEC for aprovada e apresenta prioridades para um eventual quarto mandato
Da Redação
O Presidente Lula iniciou oficialmente sua campanha à reeleição neste domingo (16), em São Bernardo do Campo, colocando duas questões estratégicas entre as prioridades de um eventual quarto mandato: a industrialização dos minerais críticos dentro do Brasil e uma nova estrutura federal para a segurança pública. Durante o ato na Vila Euclides, Lula defendeu que o país deixe de exportar suas riquezas minerais sem processamento e anunciou que pretende criar o Ministério da Segurança Pública caso o Congresso aprove a mudança constitucional proposta pelo governo.
O lançamento ocorreu no Estádio 1º de Maio, local das grandes assembleias dos metalúrgicos do ABC que projetaram Lula nacionalmente no final da década de 1970. A escolha permitiu à campanha recuperar sua trajetória sindical enquanto o presidente apresentava propostas relacionadas a temas atuais, como crime organizado, industrialização, recursos naturais e soberania nacional.
“Nem China, nem Estados Unidos”
Ao tratar dos minerais críticos e das terras raras, Lula defendeu que a exploração desses recursos seja acompanhada pelo desenvolvimento de uma cadeia industrial brasileira. Sua posição é de que o país não deve limitar-se à extração e à exportação da matéria-prima para que o processamento e a fabricação de produtos de maior valor ocorram no exterior.
“Nem China, nem Estados Unidos. Nós queremos industrializar esses minerais aqui”, afirmou Lula durante o discurso em São Bernardo.
A declaração ocorre em um período de crescente disputa internacional por minerais utilizados em semicondutores, baterias, veículos elétricos, equipamentos militares, telecomunicações e tecnologias relacionadas à transição energética. Estados Unidos, China e União Europeia procuram assegurar fornecedores e cadeias produtivas capazes de reduzir sua vulnerabilidade externa.
Lula vinculou a questão à experiência histórica brasileira com outros recursos naturais. Segundo ele, a disponibilidade de grandes reservas minerais precisa resultar em indústria, tecnologia, empregos qualificados e renda dentro do país.
Soberania mineral entra na campanha
O tema já aparece nas diretrizes apresentadas pelo PT para o programa de governo de 2027 a 2030. O documento defende ampliação dos investimentos produtivos e fortalecimento da indústria brasileira em setores considerados estratégicos para a disputa tecnológica internacional.
A posição apresentada por Lula também coincide com a movimentação recente do governo no Congresso. O projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos está entre as prioridades encaminhadas pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, após reuniões com Lula na semana passada.
A discussão envolve uma escolha econômica relevante. O Brasil possui reservas importantes de minerais procurados pelas grandes potências, mas a maior parcela do valor econômico desses recursos pode estar nas etapas posteriores à mineração, como processamento, refino, desenvolvimento tecnológico e fabricação de componentes.
A proposta defendida por Lula procura utilizar essas reservas para ampliar a capacidade industrial brasileira em vez de reproduzir um modelo concentrado na exportação de produtos minerais com baixo processamento.
Disputa entre China e Estados Unidos aumenta importância dos minerais
A fala de Lula possui também uma dimensão geopolítica. A China ocupa posição dominante em diferentes etapas do processamento mundial de terras raras e outros minerais críticos, enquanto os Estados Unidos vêm adotando políticas para reduzir essa dependência e ampliar acordos com países que possuem grandes reservas.
O Brasil aparece nesse cenário por sua disponibilidade mineral, extensão territorial e capacidade energética. A posição apresentada por Lula indica que uma eventual negociação com parceiros estrangeiros deverá considerar investimentos produtivos dentro do país.
Ao afirmar “nem China, nem Estados Unidos”, Lula não propôs interromper relações comerciais com as duas potências. O argumento apresentado em São Bernardo foi de que o Brasil precisa negociar seus recursos a partir de seus próprios interesses e evitar uma inserção internacional limitada à condição de fornecedor de matéria-prima.
A descoberta anunciada pela Petrobras nesta semana de petróleo na costa do Amapá amplia esse debate sobre recursos estratégicos. Petróleo, terras raras e minerais críticos colocam o país diante de decisões sobre exploração, processamento, tecnologia nacional e participação do Estado em setores disputados internacionalmente.
Lula promete Ministério da Segurança
A segurança pública ocupou outra parte importante do discurso. Lula afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso seja aprovada a PEC apresentada pelo governo para ampliar a coordenação federal no setor.
“Se a PEC for aprovada, eu vou criar o Ministério da Segurança Pública”, afirmou. A proposta tramita no Congresso e está entre as prioridades apresentadas pelo governo ao presidente do Senado.
A PEC busca estabelecer maior integração entre União, estados e municípios no enfrentamento ao crime organizado. O governo argumenta que organizações criminosas atuam simultaneamente em diferentes estados e também no exterior, exigindo capacidade de coordenação nacional.
Lula também voltou a defender uma investigação financeira mais intensa das organizações criminosas. Em seu discurso, afirmou que os principais responsáveis pelas grandes estruturas do crime organizado não estão necessariamente nas comunidades onde as facções exercem domínio territorial.
“Vamos libertar as favelas dessas quadrilhas”
Lula prometeu ampliar a atuação federal contra organizações criminosas e relacionou o problema à necessidade de recuperar territórios submetidos à atuação das facções.
“Vamos libertar as favelas dessas quadrilhas”, declarou. Segundo ele, o enfrentamento precisa alcançar quem financia e lucra com atividades criminosas, além dos integrantes que atuam diretamente nos territórios.
A segurança chega à campanha presidencial como uma das principais preocupações do eleitorado. Pesquisa do Instituto Ideia divulgada neste domingo mostrou que 66% dos entrevistados dizem ter medo ou muito medo de sofrer um assalto à mão armada.
A proposta de criação do ministério dependerá da aprovação da PEC pelo Congresso. O texto enfrenta discussões sobre a divisão de competências entre União e estados, já que os governos estaduais são responsáveis pelas polícias Civil e Militar.
Campanha começa na Vila Euclides
Lula escolheu para iniciar a campanha o mesmo estádio que recebeu algumas das maiores assembleias operárias do país durante as greves do ABC. O ato reuniu Geraldo Alckmin, Janja, Fernando Haddad, Benedita da Silva, José Guimarães e representantes de partidos e movimentos sociais.
O vice-presidente Geraldo Alckmin também tratou da industrialização durante seu discurso e associou o próximo ciclo econômico pretendido pela campanha ao fortalecimento da produção nacional. Fernando Haddad, candidato ao Governo de São Paulo, recuperou a trajetória política de Lula e sua relação com trabalhadores do ABC.
Janja dedicou parte de sua participação às mulheres que estiveram nas mobilizações sindicais e homenageou Marisa Letícia, lembrando sua atuação durante as greves e na formação do PT.
Programa completo será apresentado durante a campanha
Lula afirmou que o programa para um eventual quarto mandato será apresentado nas próximas semanas. As diretrizes já registradas pela candidatura incluem defesa da soberania nacional, aumento dos investimentos, desenvolvimento industrial, redução das desigualdades e fortalecimento da capacidade brasileira em setores tecnológicos estratégicos.
O primeiro discurso oficial de campanha antecipou algumas das propostas que deverão ocupar espaço nessa plataforma. A defesa da industrialização dos minerais críticos coloca a política de recursos naturais diretamente dentro da discussão sobre desenvolvimento econômico e relações internacionais, enquanto a promessa de um Ministério da Segurança procura responder a uma área na qual o eleitorado demonstra preocupação elevada.
Na Vila Euclides, Lula começou a campanha buscando relacionar o local de sua formação política a uma proposta de desenvolvimento para os próximos anos. A frase sobre os minerais sintetizou uma das posições que o presidente pretende levar à disputa eleitoral: as reservas brasileiras podem ser negociadas com diferentes países, mas sua transformação industrial deve ocorrer também dentro do Brasil.


