Atitude Popular

“Nós somos uma ficção em movimento”

Livro de Dau Bastos revisita 50 anos de política brasileira em cinco contos e reacende o debate sobre memória, autoritarismo e os limites da democracia

A literatura brasileira voltou a encarar, de frente, o nó que atravessa a história política do país: como lembrar sem domesticar, como narrar sem panfletar, como descrever a violência de Estado sem transformar o horror em peça de museu. Esse é o fio que costura a conversa com o escritor Dau Bastos no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, em edição que também contou com comentários do economista Fábio Sobral.

Professor titular de Literatura Brasileira na UFRJ, Bastos apresentou o recém-lançado Manobras de retorno (Alta Books, 128 páginas), uma coletânea de cinco narrativas que atravessa cinco décadas decisivas, da guerrilha nos anos 1970 ao presente, com saltos temporais que procuram iluminar as “manobras” históricas que insistem em trazer de volta impulsos autoritários. Ao falar do Brasil contemporâneo, o debate deslocou o foco da simples disputa ideológica para um terreno mais incômodo: o das estruturas, dos imaginários coletivos e das engrenagens que tornam possível a repetição.

Ao longo do programa, Fábio Sobral resumiu a sensação de uma realidade construída como enredo, com interesses e objetivos deliberados: “Nós somos uma ficção em movimento”, disse, ao afirmar que projetos de poder são formulados e sustentados por narrativas, em gabinetes, em círculos de influência e na própria disputa simbólica do cotidiano. A frase não foi usada como metáfora ornamental. Ela serviu como chave de leitura para um país em que, muitas vezes, o absurdo ganha aparência de normalidade e a normalidade parece produzida para manter o país “amarrado, garroteado”, como ele definiu.

Cinco décadas, cinco histórias, um alerta

Bastos explicou que Manobras de retorno não é “um livro documental”, mas uma ficção que recria episódios e climas históricos de maneira pontual e fragmentada, sempre tensionando o modo como o Brasil elabora sua memória. O primeiro conto, situado em 1973, acompanha uma guerrilheira criada pelo autor, em diálogo com experiências e referências que ele acumulou ao longo da vida. Bastos citou o escritor Herbert Daniel, com quem dividiu a edição de um jornal na Lapa, como uma “reserva ética” e inspiração humana para pensar coragem, ousadia e integridade.

A coletânea passa ainda por um grupo de teatro de protesto no Recife, no início da luta pela redemocratização, e faz um deslocamento para 1982, quando um personagem inspirado em Caio Fernando Abreu atravessa o Rio e imagina, diante do poder concentrado, perguntas sobre liberdade e controle. Nesse ponto, Bastos encena o país como uma paisagem em que forças políticas e midiáticas moldam o campo do possível, colocando a liberdade não como conceito abstrato, mas como experiência cotidiana: o que se pode dizer, o que se pode publicar, o que se pode viver.

Mais adiante, o livro dá um salto temporal para criar a figura de um general empenhado em “reeditar” a ditadura como projeto “geracional”, a tentativa de “mandar no país com pulso firme pelo voto”, como o autor descreveu no ar. No quinto conto, Bastos convoca um personagem internacional e provocador: o escritor francês Louis-Ferdinand Céline, apresentado como grande romancista do século XX na França, mas politicamente “desvairado”. A escolha é deliberada: colocar em cena um autor cuja potência estética convive com uma degradação ética radical, para obrigar o leitor a encarar contradições sem procurar atalhos reconfortantes.

Ao justificar esse desenho, Bastos insistiu na necessidade de separar o texto militante do texto literário. Segundo ele, a literatura exige “trituração” da matéria histórica: não pode ser didática, não pode reduzir sentidos, precisa cultivar a ambivalência e a complexidade humana, inclusive quando trata de personagens situados em campos opostos. A aposta de Manobras de retorno é justamente essa: reconstruir as camadas de uma época sem abrir mão de tensão psicológica, dilemas morais e ambiguidades.

“Um gesto de desespero” diante da volta do medo

Em um dos trechos mais fortes da entrevista, Dau Bastos foi direto ao explicar por que voltou a ficcionalizar a política depois de uma trajetória marcada por temas diversos e uma obra extensa. “Esse meu livro é um gesto de desespero”, afirmou, ao dizer que não acreditava que veria novamente, com tanta força, a ameaça de uma reedição autoritária. Para ele, a persistência e a reemergência de impulsos antidemocráticos recolocaram o medo no cotidiano e tornaram urgente revisitar o passado, inclusive para reconhecer o que foi naturalizado e o que permanece latente.

O escritor citou, como sinal do tempo, o fato de encontrar na própria universidade alunos simpáticos à ditadura, ainda que minoritários. O que aparece ali não é apenas opinião individual: é sintoma de um momento em que as narrativas de violência de Estado voltam a circular como se fossem alternativa política legítima, e não ruína histórica. Bastos também falou do peso geracional de produzir ficção sobre a repressão e sobre a redemocratização, lembrando que parte dos jovens enfrentou aquele período com riscos reais, inclusive com armas, e que a literatura pode funcionar como memória crítica quando a sociedade tenta se anestesiar.

Cinema, literatura e a disputa pelo imaginário

A conversa também situou a ficção no presente, em diálogo com outras linguagens. Bastos lembrou que o audiovisual, quando bem trabalhado, consegue fazer hoje o que a literatura, por alcance, não consegue mais fazer com a mesma amplitude, mas ressaltou que a base é a mesma: a narrativa. O cinema, disse, é “filho da literatura”, e a disputa do imaginário contemporâneo passa por quem conta histórias, com que ferramentas e para quais fins.

Sobral reforçou esse ponto ao defender que o “futuro” é multivariado, não nasce de uma fonte única. Precisa ser filosófico, econômico, político, literário e cultural. Nessa perspectiva, a arte não aparece como ornamento de tempos calmos, mas como ferramenta para ler crises e, sobretudo, para evitar que o país seja conduzido por projetos de regressão. Para ele, quando alguém “arqueologicamente” mostra como certas camadas foram construídas, abre-se espaço para reconhecer o erro e imaginar outra saída.

IA e a “alma do texto”

Nos minutos finais, um tema inevitável entrou na mesa: a inteligência artificial generativa e seus impactos na universidade e na produção cultural. Dau Bastos, sem rodeios, marcou uma fronteira entre uso instrumental e criação artística. Ele contou que utilizou IA para redigir um documento burocrático, com bons resultados, mas rejeitou a ideia de delegar à máquina aquilo que, para ele, constitui a experiência humana da literatura.

“Eu acredito na alma do texto”, disse, ao afirmar que escrever ficção implica habitar o personagem, escolher ritmo, vocabulário e respiração da frase como gesto de vida, não como montagem automática. E concluiu com uma recusa que virou síntese de posição estética e ética: “Eu não quero ela na minha literatura nem a pau, pelo amor de Deus.” Ao falar dos estudantes, o professor acrescentou que não vê seu papel como “policial” de plágio. Seu método privilegia processos de elaboração: tema, proposta, seminário e desenvolvimento, em vez de provas, especialmente em literatura.

O argumento central, porém, não é tecnofobia. É a defesa de um tipo de trabalho que demanda tempo, erro, reescrita e risco. Bastos disse ter orgulho de reescrever uma página durante dias e de deixar que o livro “demande suor”. Para ele, a arte não é só produto; é método e experiência humana.

Um livro que tenta impedir a repetição

No conjunto, Manobras de retorno surge como um livro que não tenta “explicar” o Brasil com frases prontas, mas expor suas tensões por dentro: os ciclos de autoritarismo, o desencanto e a resistência, o papel da mídia e o controle do imaginário, a fragilidade das instituições e a insistência de projetos regressivos. O que a obra propõe é um exercício de memória que não se satisfaz com a oposição fácil entre heróis e vilões, e que busca entender por que a história, tantas vezes, parece ensaiar o mesmo retorno.

Ao divulgar o lançamento, Bastos informou que fará debate no Rio de Janeiro, na Livraria Blux, em 31 de março, e indicou seu Instagram @daubastos, onde pretende publicar vídeos e materiais sobre os contos e as questões que eles levantam. Seu desejo, disse, é que o livro circule “bastante”, justamente por carregar uma problematização do tempo presente, quando a democracia volta a ser, novamente, um campo de disputa diária.

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