Banda cearense aposta no brega raiz, humor e crítica social para curar “dores do coração” e fazer o público
A história de uma banda que assume sem pudor seu lado brega, veste o vermelho e transforma chifre, dor de amor e memória afetiva em festa popular. Foi assim que Clezer Sales, baterista e produtor de vídeos, apresentou a Banda Chibata Vermelha no programa “Café com Democracia”, da Rádio e TV Atitude Popular, apresentado por Luiz Regadas e com participação especial de Sousa Júnior, diretor da emissora e produtor cultural.
No ar pela Rede de Comitês Populares pela Democracia, o programa abriu espaço para uma pauta cultural com sotaque, história e identidade. Entre lembranças de bastidores, parcerias antigas na comunicação popular e uma boa dose de humor, o trio reconstruiu a trajetória da Chibata Vermelha, banda que renasce em 2025 com a proposta de resgatar o brega raiz e reafirmar que não há nada mais político do que ocupar o palco com alegria e consciência.
Uma banda que nasceu como alter ego do samba
A Chibata Vermelha surgiu nos anos 2000 como um “desdobramento” bem-humorado da Academia do Samba, grupo já conhecido em Fortaleza. Segundo Clezer, em momentos de descontração, a formação de samba se transformava em outra coisa:
“A banda surgiu como alterego da Academia do Samba. Nos momentos de mais descontração, o grupo se transformava na Shibata Vermelha, tocando Carlos Alexandre, Reginaldo Rossi, Odair José, tudo aquilo que alegrava nossos ouvidos no rádio.”
O repertório, marcado por sucessos do rádio AM e FM, girava em torno das canções que falam de amores mal resolvidos, separações e corações partidos. A banda abraçou justamente esse universo que, por muito tempo, foi tratado com preconceito como “brega”, mas que, na prática, é crônica popular cantada em versos.
Por que “Chibata Vermelha”?
Nome não falta para gerar conversa. E Clezer não foge do duplo sentido nem da carga simbólica. A logomarca da banda é um coração partido, e o vermelho vem com dupla camada de significados:
“Esse coração partido tem razão de ser, porque a música fala muito disso, das dores da alma, de um chifre mal curado, de um amor não correspondido. E vermelha porque há esse viés puxando para a esquerda entre os integrantes, além de ser a cor do coração.”
A Chibata Vermelha assume, assim, seu lugar na interseção entre cultura popular, política e humor: é brega, é escrachada, é vermelha e não esconde nem a posição, nem o afeto.
Brega raiz, sem vergonha e sem meia-medida
Se há uma definição que guia o som da banda, ela está na fala direta de Clezer: “Nosso estilo é o brega raiz”. A ideia é resgatar os clássicos que marcaram gerações, dando nova roupagem, mas preservando o espírito original das canções.
No setlist, entram nomes como Reginaldo Rossi, Genival Lacerda, Bartô Galeno, além de referências cearenses e nordestinas que construíram a identidade do brega. Tudo isso temperado com o humor ácido e inteligente de Falcão e as letras de Tarcísio Matos, dupla citada por Clezer como influência fundamental:
“O nosso intuito é divertir as pessoas e se divertir também. A gente interpreta os grandes clássicos do brega, às vezes com uma roupagem diferente. E não falta o nosso bregamor, nosso brega star Falcão, com letras do Tarcísio Matos, que usa o cearensês e dá uma vida enorme às composições.”
Para o baterista, a fronteira entre rock e brega é bem menos rígida do que parece. Ele lembra que muitas baladas românticas de bandas de rock soam, na essência, tão bregas quanto Reginaldo Rossi ou Amado Batista:
“Quando você escuta aquelas músicas de rock falando de coração machucado, amor que maltrata, isso é Reginaldo Rossi total. A diferença é a embalagem.”
Novas formações, mesma alma
A banda já passou por diferentes fases. A formação atual, apresentada no programa, reúne Demétrios no vocal, Carlos Ardi nos teclados, Jader Gomes no baixo e Clezer na bateria. Na guitarra, dois nomes se revezam de acordo com a agenda: Lu Carlos e Robson Sérgio, ambos muito requisitados na cena musical de Fortaleza.
Clezer lembra que a vida de músico raramente é exclusiva. A Chibata teve pausas por conta de compromissos profissionais dos integrantes e renasceu algumas vezes, sempre puxada pela vontade de voltar ao palco para tocar o que todo mundo sabe cantar de cor:
“Em 2012, depois de um hiato, reformulamos a banda. Levei amigos do rock para tocar brega. Em 2025 retomamos com nova formação, com Demétrios, Jader, Carlos Ardi e os dois guitarristas se alternando. É um trabalho divertido, a gente sobe no palco para tocar e se divertir junto com o público.”
A banda já participou de eventos como o Amici’s e festas na antiga Dragão do Mar, além de apresentações em casas noturnas e eventos particulares. Em dezembro, a retomada inclui uma pequena agenda: Cantinho do Frango, a reabertura do antigo Bar da Mamãe (Oteiro) e a confraternização da TVC.
Falcão, canto gregoriano nº 2 e a estética do chifre assumido
Um dos pontos altos da entrevista foi a lembrança da relação da Chibata Vermelha com o universo de Falcão, ícone do brega-humor cearense. Além de gravar um vídeo de convite para o show da banda, o artista é homenageado logo na abertura do repertório.
Clezer conta que a banda inicia suas apresentações com “Canto gregoriano nº 2”, música de Falcão com letra de Tarcísio Matos, que projetou o compositor nacionalmente. Ele arrisca um trecho ao vivo, deixando claro o tom irônico e debochado que marca a parceria:
“Não sou cantor, mas a gente abre o show com ‘Canto gregoriano nº 2’. É uma homenagem ao Falcão, que pra gente é uma inspiração enorme nesse assunto de chifre transformado em música.”
Sousa Júnior, que conheceu Falcão num festival no BNB Clube, em Fortaleza, lembrou que a canção foi ovacionada desde a estreia e definiu a linha do artista como um “brega charmoso, irônico e divertido”, capaz de transformar dramas pessoais em riso e catarse coletiva.
Comunicação popular, amizade e parceria de décadas
A entrevista também foi espaço para resgatar a parceria antiga entre Clezer Sales e Sousa Júnior no campo da comunicação popular e sindical. Desde os anos 1990, os dois trabalham juntos em programas de TV, campanhas eleitorais, produção de vídeos e projetos de mídia independente.
Sousa recordou o primeiro programa conjunto, patrocinado por 16 entidades sindicais e veiculado na TV Cidade, apresentado pela jornalista Débora Lima, e destacou o profissionalismo e o compromisso de Clezer:
“O Clezer é aquela pessoa que faz tudo com carinho, dedicação e alto grau de profissionalismo. Competência, dedicação e compromisso são atributos raros hoje em dia. Tenho certeza de que quem for ver a Chibata Vermelha vai sair com o coração pulsando mais forte.”
Clezer retribuiu, agradecendo pela parceria na produtora de vídeo que mantém com a filha e apontando a Atitude Popular como espaço fundamental de debate crítico e cultura:
“É um trabalho sensacional que vocês fazem. Num momento em que a gente precisa de debates, reflexões e comunicação democrática, é muito importante ter esse espaço. Sou muito grato por abrir um lugar tão grande assim para a Chibata Vermelha.”
Brega, política e um convite para cantar junto
Entre comentários sobre a expansão dos programas da Atitude Popular para rádios públicas como a Rádio Ceará 87.1 FM, e a lembrança de que a música também é ferramenta de resistência em tempos de guerra e desinformação, o clima do programa foi de celebração.
A plateia virtual participou pelo chat, com mensagens bem-humoradas — e curiosidade confessa em “conhecer essa chibata vermelha” ao vivo. Clezer, por sua vez, fez o convite em tom de manifesto:
“A Chibata vai estar tocando os grandes sucessos do brega, aquele brega raiz, pra aliviar suas dores no coração, pra deixar todo mundo mais alegre, mais feliz e mais divertido. A gente quer se divertir junto com vocês.”
Entre chifre, coração partido, LPs na vitrola e muita ironia, a história da Banda Chibata Vermelha mostra que o brega nunca foi só “música sofrida”: é espelho da vida popular, crônica do cotidiano e, em tempos de ódio e brutalidade, uma forma poderosa de lembrar que sentir ainda é um ato político.
📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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