No quadro “Antes que acabe”, Sandra Helena e Victor Marques analisam a crise global, o enfraquecimento do bolsonarismo e o impacto histórico da condenação dos golpistas no Brasil
O apocalipse, enfim, mudou de lado
Na última edição de outubro do quadro “Antes que acabe”, transmitido no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, a apresentadora Sara Goes recebeu os professores Sandra Helena e Victor Marques para um balanço político do mês. O segmento, exibido sempre na última sexta-feira, mantém o tom ácido e crítico que o público já conhece: uma espécie de boletim apocalíptico para tempos em que a sensação de colapso é permanente — do capitalismo à nossa paciência.
A matéria a seguir se baseia integralmente nas falas dos convidados durante a transmissão, disponível no canal da TV Atitude Popular. Não foram criadas falas que não tenham sido ditas na entrevista.
Logo nos primeiros minutos, Sara abriu o programa anunciando um episódio diferente: “o fim não é do nosso mundo, é do mundo dos outros”, referindo-se à prisão de militares golpistas e ao colapso político que atinge o núcleo duro do bolsonarismo. Daí veio uma das frases mais marcantes da manhã: “o apocalipse é deles”, dita por Victor, ao descrever a irreversível decadência do ex-presidente e de sua base de sustentação.
Giro internacional: crises cruzadas, populismo punitivista e a instabilidade da geração Z
Victor Marques iniciou o quadro apresentando um panorama global marcado por três eixos: o crescimento do populismo autoritário, a radicalização da juventude e o avanço de uma retórica de segurança pública como plataforma eleitoral.
Chile, México e Estados Unidos: sinais de alerta
No Chile, a esquerda chega ao segundo turno enfraquecida. No México, manifestações violentas pressionam a presidenta Claudia Sheinbaum, com tintas de manipulação e estética importada de protestos no Nepal. Victor alertou que essa “imagética geracional” pode se espalhar pelo continente.
Nos EUA, a crise interna do trumpismo se aprofunda. Victor destacou o crescimento de fissuras na base do ex-presidente, alimentadas por contradições envolvendo Israel, a crise dos opioides e o escândalo Epstein.
Sandra, por sua vez, analisou como o feminismo se tornou o principal campo simbólico manipulado pela extrema direita. Para ela, há um processo de “educorar o feminino”: uma reconstrução estética e moral das mulheres conservadoras para disputar narrativas com as conquistas feministas das últimas décadas.
A crise brasileira: o fim de um ciclo e um país que não parou
Depois do giro internacional, Sandra Helena conduziu a análise sobre o Brasil. O centro do debate foi a prisão de Jair Bolsonaro e de generais envolvidos na tentativa de golpe.
A professora resgatou um marco histórico para compreender o momento: o voto de Bolsonaro em 17 de abril de 2016, exaltando o torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra durante o impeachment de Dilma Rousseff. Sandra chamou aquele episódio de “apito de cachorro”, capaz de reorganizar uma extrema direita recalcada desde a transição democrática incompleta.
“Eu me encolhi quase em posição fetal quando ouvi aquele voto”, recordou. Para ela, a prisão atual tem um caráter profundamente simbólico: “é como se tudo o que não fizemos na justiça de transição tivesse retornado sob nova forma”.
Uma prisão sem comoção
Victor destacou o contraste entre a prisão de Bolsonaro e a de Lula:
“Bolsonaro foi preso, nada aconteceu. O país não está empolvorosa. Não tem comoção. Vida normal.”
E completou, sobre a alegação de insanidade após o episódio da tornozeleira eletrônica:
“Esse sujeito não pode ser presidente. Ele meio que assumiu um surto psicótico.”
Os dois professores concordam que o bolsonarismo, como fenômeno de massa, perde seu eixo. Mas o risco permanece: existe um contingente radicalizado que pode ser reorganizado em momentos de crise econômica global — crise que ambos consideram provável nos próximos anos.
Um freio histórico, mas não uma vitória definitiva
Sandra interpretou o momento como um divisor de águas geracional. Ela relatou mensagens de pessoas que viveram a ditadura e afirmaram “achei que ia morrer sem ver isso”. Para a professora, a condenação dos golpistas é um marco mundial: “o dever de casa que não foi feito no coração do império foi feito aqui”, disse, em referência aos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, alertou para o contra-ataque imediato do Congresso, que em poucos dias derrubou vetos ambientais e apresentou pautas de erosão institucional. “A gente respirou no sábado, mas na segunda veio o refluxo”, resumiu.
Bolsonaro acabou — mas a extrema direita não
No encerramento, Victor Marques sintetizou o quadro:
“O Bolsonaro acabou. A família Bolsonaro talvez tenha acabado. Mas o que ele mobilizou politicamente fica por aí.”
Ele prevê um ciclo de protestos globais liderados pela geração Z e acredita que a extrema direita pode renascer com outra estética e outra pauta, centrada em tecnologia policial, vigilância e a retórica de ordem.
Sandra concluiu com a metáfora mais forte do encontro:
“Terminou o mundo deles. Agora veremos o que sobra dos escombros.”
Link da transmissão
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