Rita Casaro defende que o campo democrático entre em 2026 com organização, formação política e estratégia de comunicação para enfrentar a desinformação, o ultraneoliberalismo e a ofensiva antissindical
Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, a jornalista sindical Rita Casaro, integrante da coordenação do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, analisou os desafios da comunicação popular e da organização dos trabalhadores diante do ciclo eleitoral de 2026. Ao longo da conversa, ela sustentou que a disputa em curso vai muito além das urnas e envolve valores, narrativas, identidade de classe e capacidade de diálogo com uma sociedade cada vez mais atravessada pela lógica das plataformas digitais.
A participação de Rita ocorreu em um momento em que o debate sobre comunicação sindical ganha novo peso. Na leitura apresentada pela entrevistada, a extrema direita não atua apenas como força eleitoral, mas como um projeto de poder que busca enfraquecer vínculos coletivos, desmoralizar a ação sindical e naturalizar a precarização do trabalho. Nesse contexto, segundo ela, a batalha política também é uma batalha cultural, informacional e simbólica.
Para Rita Casaro, o movimento sindical chega a 2026 diante de uma encruzilhada histórica. Se por um lado os trabalhadores seguem sendo a maioria social do país, por outro enfrentam um ambiente marcado pela fragmentação, pelo individualismo e pela difusão permanente de discursos que tentam transformar direitos em privilégios e proteção social em atraso. Na entrevista, ela foi direta ao apontar a gravidade do cenário: “O ataque da extrema direita é aos trabalhadores e ao movimento sindical”.
A jornalista situou esse embate dentro de um quadro mais amplo, no qual autoritarismo moral e ultraneoliberalismo caminham juntos. Em sua avaliação, não se trata apenas de reagir a falas extremistas ou a campanhas digitais agressivas, mas de compreender que há um projeto em curso para rebaixar direitos, reduzir a capacidade de organização coletiva e esvaziar o sentido público da democracia. “A gente precisa se unir e se preparar para entrar em campo nessa disputa”, afirmou, ao defender que 2026 será uma das eleições mais duras da história recente do Brasil.
Ao comentar a pauta apresentada pelas centrais sindicais em Brasília, Rita destacou que a agenda dos trabalhadores oferece um eixo concreto para a disputa política, com temas como redução da jornada sem redução salarial, regulação do trabalho por aplicativos, combate à pejotização, ampliação de direitos e defesa da democracia. Para ela, o papel do sindicalismo não é apenas apoiar nomes ou legendas, mas vocalizar os interesses materiais e históricos da classe trabalhadora. “O movimento sindical precisa estar pronto não é nem para fazer a campanha deste candidato ou daquele candidato, mas para defender a sua pauta”, resumiu.
Um dos pontos centrais da entrevista foi a percepção de que as formas tradicionais de comunicação já não bastam. Rita observou que o universo das redes sociais reorganizou o conflito político em velocidade e escala inéditas. A desinformação circula como rastilho de pólvora, os discursos de ódio são impulsionados por mecanismos algorítmicos e a inteligência artificial amplia a produção e a disseminação de conteúdos manipuladores. Nesse ambiente, respostas improvisadas ou meramente reativas tendem a falhar.
Por isso, a dirigente do Barão de Itararé defendeu investimento em formação, planejamento e construção coletiva de estratégias. Em vez de apostar apenas em posts esporádicos ou campanhas emergenciais, ela propôs fortalecer uma comunicação enraizada na escuta, na identidade de base e na criação de comunidades digitais com propósito. A ideia, segundo explicou, é que sindicatos, comunicadores e militantes aprendam não só a usar novas ferramentas, mas também a compreender o funcionamento das plataformas e seus efeitos sobre a percepção política.
Essa preocupação orienta o ciclo de oficinas lançado pelo Barão de Itararé para este ano, apresentado durante a entrevista. Voltada a dirigentes, assessores, comunicadores e militantes ligados à luta dos trabalhadores, a formação terá seis encontros online entre os dias 5 e 21 de maio, sempre às terças e quintas-feiras. O objetivo é preparar o campo sindical e democrático para a disputa de 2026, combinando reflexão política com temas práticos ligados a redes sociais, inteligência artificial, desinformação, comunidades digitais e disputa cultural.
Rita descreveu a iniciativa como um esforço de preparação coletiva. “A ideia é construir coletivamente”, afirmou, destacando que o curso foi pensado para reunir diferentes experiências do país e transformar conhecimento em ação concreta. Em sua visão, não basta denunciar a máquina de mentiras e ataques da extrema direita. É preciso criar linguagem, método e articulação para disputar valores, reposicionar a pauta dos trabalhadores e ampliar a capacidade de incidência pública do sindicalismo.
Outro eixo importante da conversa foi a dificuldade de renovação geracional no movimento sindical e na própria política democrática. Rita reconheceu que a falta de juventude nos espaços organizados é um problema sério, mas evitou uma leitura simplista ou moralista. Em vez de culpar os mais novos, ela sugeriu que o desafio é compreender como décadas de neoliberalismo alteraram a visão de mundo das novas gerações, enfraquecendo o senso de coletividade e naturalizando a ideia de que cada indivíduo deve se virar sozinho.
Ao tratar do tema, a jornalista chamou atenção para o modo como o imaginário do empreendedorismo individual e da autonomia sem direitos seduziu parte da juventude. A precarização foi travestida de liberdade, enquanto a proteção trabalhista passou a ser ridicularizada em discursos disseminados nas redes. “Ser CLT virou ofensa”, observou, ao comentar o ambiente simbólico que precisa ser enfrentado também no terreno cultural. Para ela, esse cenário não surgiu espontaneamente, mas é fruto de uma longa operação ideológica.
Ainda assim, Rita não caiu no discurso nostálgico. Ao contrário, reconheceu que a juventude também traz questões novas e legítimas para o mundo do trabalho, entre elas a recusa à lógica da exaustão permanente e a busca por uma vida que não seja devorada pela exploração. Nesse ponto, a entrevista apontou para uma possível chave de renovação do sindicalismo: incorporar pautas, linguagens e sensibilidades contemporâneas sem abandonar o núcleo da luta por direitos.
A entrevistada também alertou para o caráter internacional da disputa. Na sua leitura, a eleição de 2026 poderá ser atravessada não apenas pela extrema direita brasileira, mas por redes globais de desinformação, interesses geopolíticos e grandes plataformas digitais que operam acima das soberanias nacionais. O desafio, portanto, seria ainda mais complexo do que em pleitos anteriores, exigindo preparo político e comunicacional muito superior ao de campanhas convencionais.
Mesmo diante da gravidade do quadro, Rita defendeu que o campo democrático não pode se entregar ao derrotismo. Ela reconheceu os riscos, mas insistiu na necessidade de transformar a lucidez sobre o perigo em capacidade de ação organizada. Ao citar a velha fórmula de Antonio Gramsci, sintetizou o espírito com que pretende encarar o período: pessimismo na razão, otimismo na ação.
No centro de sua argumentação esteve a convicção de que o povo brasileiro não pode ser empurrado a votar contra si mesmo. Para a jornalista, é tarefa da comunicação popular e sindical reconstruir pontes, reabrir canais de escuta e recolocar os interesses concretos da maioria no coração do debate público. Isso envolve falar de salário, jornada, moradia, dignidade, futuro, mas também de pertencimento, felicidade, proteção e sentido coletivo.
A entrevista, assim, recolocou uma questão decisiva para 2026: quem será capaz de disputar a imaginação social de um país ferido pela precarização e pela manipulação digital? Na resposta de Rita Casaro, não haverá saída sem organização, sem formação e sem coragem para enfrentar a guerra de narrativas com projeto, enraizamento e presença real na vida das pessoas.
Serviço
Ciclo: O movimento sindical na disputa eleitoral de 2026
Realização: Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé
Período: 5 a 21 de maio de 2026
Formato: Online
Dias: Terças e quintas-feiras
Público-alvo: Dirigentes sindicais, comunicadores e militantes
Investimento: R$ 100 (com parcelamento)
Inscrições: https://doity.com.br/ciclosindical
Programação
05/05 – O movimento sindical e a disputa eleitoral de 2026
Altamiro Borges – Jornalista com ampla trajetória na comunicação sindical, é autor de obras como Encruzilhadas do sindicalismo (2005), Sindicalismo, resistência e alternativas (2008) e A ditadura da mídia (2009). Foi um dos fundadores do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, em 2010
07/05 – Desinformação: como identificar e como agir
Ergon Cugler – Pesquisador especializado em desinformação e soberania digital, com mais de 500 produções publicadas entre artigos, ensaios e palestras no Brasil e no exterior. É o primeiro autista a integrar o Conselho da Presidência da República e autor do livro IA-cracia: como enfrentar a ditadura das Big Techs
12/05 – Inteligência Artificial: como usar e como não ser enganado
Vanessa Martina-Silva – Jornalista, diretora de redação da Revista Diálogos do Sul Global e analista política do canal Opera Mundi no YouTube
14/05 – O eterno desafio: como atuar nas redes
Larissa Gould – Jornalista e pesquisadora do Monitor do Debate Político (USP), cofundadora dos Jornalistas Livres e ex-secretária-geral do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
19/05 – Comunidades digitais com propósito
Camila Modanez – Especialista em mobilização digital, com mais de 10 anos de atuação em projetos progressistas na América Latina
21/05 – O papel da cultura na disputa de ideias e valores
Carlos Tibúrcio – Jornalista, editor do Fórum 21 e diretor da Fatoflix. Integra a Comissão Facilitadora do Fórum Permanente da Intelectualidade Orgânica, foi coordenador da equipe de discursos dos presidentes Lula e Dilma (2003–2016), cofundador do Fórum Social Mundial e membro de seu Conselho Internacional
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