Ferreira Aragão e Tonynho Furtado defendem políticas públicas para autistas e mães atípicas durante debate sobre as eleições de 2026 no Ceará
A causa das pessoas autistas foi o principal eixo da última edição do programa Eleições 2026 em Debate, que recebeu os candidatos Ferreira Aragão, do PDT, que disputa uma vaga na Câmara dos Deputados, e Tonynho Furtado, também do PDT, candidato à Assembleia Legislativa do Ceará. O programa é uma realização da Atitude Popular e do Coletivo das Estatais e do Serviço Público do Ceará, com apresentação de Sousa Júnior. A edição foi marcada por relatos pessoais dos dois candidatos e pela discussão de propostas voltadas a autistas, familiares e mães atípicas.
Ferreira Aragão é advogado, contador e especialista em Direito Penal. Natural de Sobral, possui trajetória na comunicação e na política e está em seu quarto mandato parlamentar, depois de ter sido vereador de Fortaleza e deputado estadual. Tonynho Furtado é advogado, palestrante e um dos primeiros advogados autistas do Ceará. Durante o programa, os dois apresentaram suas experiências pessoais com o autismo. Ferreira Aragão é pai de um menino autista, enquanto Tonynho Furtado é autista e defende políticas de inclusão e combate ao capacitismo.
Ao explicar sua decisão de voltar à disputa eleitoral, Ferreira Aragão relacionou a candidatura à experiência cotidiana de sua família. Segundo ele, depois de anos de atividade parlamentar, havia decidido encerrar a carreira política, mas mudou de posição diante das dificuldades enfrentadas pelo filho.
“Mas tenho um filho autista que é a grande paixão da minha vida, que é o Filipe Alves Ferreira Aragão. E ele é autista. E eu vejo muito o sofrimento”, afirmou. O candidato relatou que o filho apresenta crises frequentes e que a família enfrenta dificuldades para encontrar respostas adequadas para a situação.
Ferreira também criticou o que considera uma apropriação eleitoral da pauta do autismo. Para ele, muitos candidatos apresentam propostas relacionadas à causa durante as campanhas, mas abandonam o tema depois das eleições.
“Quando chega na campanha, todo mundo tem uma bandeira para defender o autismo. Quando termina, vão embora todos. Estão brincando de defender o autismo”, declarou.
A crítica também apareceu na fala de Tonynho Furtado. Para o candidato, pessoas que não convivem diretamente com o autismo muitas vezes assumem a pauta sem conhecer as dificuldades enfrentadas diariamente por autistas e familiares.
“Existem determinadas pessoas que estão querendo ali surfar na onda do autismo, estão querendo se autopromover usando o autismo como pedestal para lugar de fala, sendo que essas pessoas não sabem nem o básico do autismo”, afirmou.
Tonynho destacou ainda a situação das mães atípicas, especialmente aquelas que criam os filhos sozinhas. Durante a entrevista, defendeu que a assistência pública considere também as necessidades dessas mulheres, que frequentemente precisam conciliar cuidados permanentes com dificuldades econômicas e acesso limitado aos serviços de saúde.
Entre as propostas apresentadas pelo candidato estão a criação, junto aos postos de saúde, de espaços para atendimento especializado de mães atípicas, com profissionais como psiquiatras, neurologistas e psicólogos, além de cuidadoras para acompanhar as crianças enquanto as mães recebem atendimento.
Outra proposta mencionada por Tonynho é a criação de um laudo permanente para pessoas autistas. Ele argumentou que a necessidade de renovar documentos para comprovar uma condição permanente pode gerar dificuldades para famílias que precisam acessar benefícios sociais, incluindo o Benefício de Prestação Continuada.
O candidato também defendeu prioridade de atendimento para mães atípicas em determinadas situações, especialmente quando precisam realizar atividades cotidianas sem a presença dos filhos, e propôs a criação de parquinhos inclusivos e atividades esportivas com profissionais capacitados para trabalhar com pessoas com Transtorno do Espectro Autista.
A preocupação com os autistas adultos também ocupou parte importante do debate. Tonynho chamou atenção para uma lacuna nas políticas públicas destinadas às pessoas que deixam a infância e a adolescência.
“Daqui a cinco anos terei muitos autistas adultos”, afirmou. Para ele, as políticas públicas não podem ficar concentradas apenas no atendimento de crianças e adolescentes, porque essas pessoas continuarão precisando de suporte durante a vida adulta.
Ferreira Aragão concordou com a avaliação e apresentou propostas que, segundo ele, pretende levar ao Congresso caso consiga assumir o mandato. Entre elas está a criação do chamado “Mundo Azul”, com estruturas regionais voltadas ao atendimento de pessoas autistas.
A proposta, segundo o candidato, incluiria profissionais especializados, transporte para levar autistas às terapias e cursos gratuitos destinados a familiares e cuidadores. Ferreira também defendeu a criação de um departamento jurídico para auxiliar famílias na obtenção de benefícios e no acesso a direitos.
“Não basta só você chorar. Precisa resolver”, afirmou Ferreira ao defender que as experiências das famílias sejam transformadas em políticas públicas.
Durante a entrevista, o candidato também falou sobre a situação de sua esposa, que, segundo seu relato, deixou a atividade profissional para se dedicar ao filho. “Minha esposa renunciou à vida que ela teria como profissional, como mulher, para dedicar ao menino”, disse.
Ferreira relacionou essa situação às dificuldades enfrentadas por muitas mães atípicas, defendendo políticas capazes de ampliar as possibilidades de trabalho dessas mulheres. Uma das propostas apresentadas foi a criação de incentivos fiscais para empresas que contratem produtos ou serviços produzidos por mães atípicas que trabalham de casa.
O candidato também criticou a falta de estrutura para garantir a inclusão de estudantes autistas nas escolas. Segundo ele, existem instituições que resistem à matrícula de crianças autistas e outras que não contam com profissionais preparados para acompanhá-las.
“Meu filho estuda no colégio, ele é muito inteligente, quando dá crise ele fica girando na sala de aula e um AT acompanha”, relatou. Para Ferreira, o acompanhamento adequado deveria alcançar também famílias de baixa renda que não conseguem pagar por escolas particulares ou profissionais especializados.
No debate sobre medicamentos, Ferreira apresentou críticas ao tratamento atualmente disponível para pessoas autistas. Ele afirmou que medicamentos utilizados no atendimento de pessoas com autismo foram originalmente desenvolvidos para outras condições e defendeu mais pesquisas para a criação de tratamentos específicos.
As afirmações sobre medicamentos e tratamentos foram apresentadas por Ferreira durante a entrevista como parte de sua experiência pessoal e de sua avaliação sobre as políticas de saúde. O candidato defendeu que o governo federal amplie os investimentos em pesquisa para compreender melhor o autismo e desenvolver tratamentos específicos.
“Então a gente tem que primeiro exigir do governo federal, de quem quer que seja, dos deputados e senadores, que invistam em pesquisa”, afirmou.
A questão do custo dos tratamentos também apareceu na entrevista. Ferreira mencionou medicamentos e produtos que, segundo ele, podem custar valores elevados para as famílias. Tonynho, por sua vez, defendeu que medicamentos necessários ao atendimento de autistas sejam disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde.
A discussão também passou pela necessidade de acolhimento das famílias. Ferreira relatou que o cotidiano de sua casa é marcado pelas crises do filho e defendeu que as políticas públicas considerem as consequências sociais e econômicas do cuidado permanente.
Ao tratar da situação das mães atípicas, os candidatos mencionaram problemas relacionados à saúde mental e ao isolamento social. Ferreira citou, durante a entrevista, números sobre abandono de mães por companheiros e suicídio, atribuindo essas informações a uma palestra da qual teria participado em Brasília. Como os números foram apresentados no programa sem indicação de estudo ou fonte documental durante a entrevista, eles devem ser entendidos como declarações do candidato, e não como dados estatísticos verificados pela reportagem.
A relação entre o autismo e a indústria de medicamentos também foi alvo de críticas. Ferreira afirmou que existe interesse econômico na manutenção de tratamentos que, segundo sua experiência familiar, não resolvem integralmente os problemas enfrentados por seu filho.
“O autismo maltrata, faz você sofrer, mas dá lucro”, afirmou.
A frase sintetizou uma das principais críticas apresentadas pelo candidato ao longo da entrevista: a existência de uma demanda crescente por serviços e tratamentos para autistas sem que, na avaliação dele, o poder público tenha conseguido oferecer uma resposta proporcional às necessidades das famílias.
Tonynho acrescentou que a ausência de políticas específicas também atinge os adultos autistas. Segundo ele, o Ceará possui poucas estruturas preparadas para atender essa população. Durante o programa, mencionou a Casa da Esperança, em Fortaleza, como uma das instituições que oferecem atendimento especializado, mas ressaltou que uma única estrutura é insuficiente diante da dimensão da demanda.
A entrevista também tratou da disputa eleitoral. Ferreira Aragão criticou o uso de recursos financeiros para compra de votos e afirmou ter encontrado situações de pressão e pedidos de dinheiro durante sua passagem pelo interior do Ceará.
“Às vezes eu acho que é o dinheiro contra o amor”, afirmou, ao descrever a disputa eleitoral. Em outro momento, disse que encontrou mais pessoas autistas do que pedintes durante suas viagens pelo Estado.
O candidato reconheceu que sua eleição para a Câmara dos Deputados seria difícil, mas afirmou que pretende disputar a vaga e, caso fique na suplência, espera ter a oportunidade de assumir o mandato em algum momento.
“Se eu entrar quatro meses, eu sou aquele goleador, aquele artilheiro que fica na reserva esperando entrar. Na hora que eu entrar, pode ter certeza, vai ser gol”, declarou.
Tonynho Furtado apresentou sua candidatura como uma possibilidade de ampliar a representação de pessoas autistas no Legislativo cearense. Durante o programa, afirmou que, caso seja eleito, poderá se tornar o primeiro deputado estadual autista da história do Ceará.
“Seria, sim, um momento histórico onde uma pessoa autista seria o primeiro deputado estadual em todo, em toda a história do Ceará”, afirmou.
Ao final do programa, os dois candidatos reforçaram a intenção de atuar conjuntamente em diferentes esferas do Legislativo. Ferreira Aragão apresentou a possibilidade de levar para Brasília projetos relacionados ao autismo, enquanto Tonynho afirmou que pretende trabalhar no Ceará pela ampliação dos serviços e dos direitos das famílias.
A edição terminou com uma avaliação de Sousa Júnior sobre o caráter do debate. Para o apresentador, a entrevista ultrapassou a discussão estritamente eleitoral ao colocar em evidência problemas que atingem diretamente famílias de pessoas autistas.
O programa Eleições 2026 em Debate tem como proposta apresentar candidatos e candidatas que disputam vagas na Assembleia Legislativa do Ceará e na Câmara dos Deputados, permitindo que exponham suas trajetórias e propostas. A edição com Ferreira Aragão e Tonynho Furtado concentrou a discussão em uma pauta que, segundo os entrevistados, ainda enfrenta dificuldades de atendimento, financiamento e formulação de políticas públicas, especialmente quando se considera a vida adulta das pessoas autistas e as condições das famílias responsáveis pelos cuidados.
Assista ao programa completo:
📺 Programa Eleições 2026 em Debate
📅 Toda sexta-feira
🕙 Às 8h30
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