Atitude Popular

“O carnaval é um grande espelho da nossa realidade e das nossas contradições”

Professor analisa a história da festa em Fortaleza, aponta influência africana e defende fortalecimento dos blocos e da cultura popular

O carnaval como manifestação cultural, política e social foi o tema central da edição do programa Café com Democracia, transmitido pela TV e Rádio Atitude Popular na manhã de 4 de fevereiro. O convidado foi o professor e doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Gilvan Paiva, que analisou as transformações históricas da festa, sua relação com a formação das cidades e os desafios para fortalecer o carnaval de rua em Fortaleza. As informações foram apresentadas durante entrevista concedida ao programa, conforme a transcrição fornecida pela Atitude Popular.

Ao longo da conversa, o pesquisador destacou o papel do carnaval como uma manifestação que ultrapassa a ideia de entretenimento e se conecta diretamente à construção cultural e política do país. Para ele, a festa reflete disputas sociais e transformações históricas. “O carnaval é um grande espelho da nossa realidade e das nossas contradições”, afirmou, ao explicar que o evento sempre incorporou crítica social, humor e tensões políticas.

Festa milenar e expressão da liberdade coletiva

Segundo Gilvan Paiva, o carnaval deve ser entendido como um fenômeno histórico e social que acompanha a humanidade há séculos, assumindo formatos diferentes conforme cada cultura. O pesquisador destacou que a festa representa um espaço de suspensão momentânea das regras sociais, sem que isso signifique fuga da realidade.

“O carnaval é uma tradição secular, milenar, na sua expressão de efervescência e liberdade”, explicou. Ele acrescentou que a festa sempre caminhou ao lado de grandes eventos sociais e culturais e expressa a necessidade humana de lazer diante das exigências do cotidiano.

Na avaliação do professor, o carnaval brasileiro possui uma particularidade ao reunir diversas matrizes culturais. Ele destacou a forte presença da influência africana na construção da festa, sem desconsiderar elementos europeus e indígenas. “Você vai encontrar no carnaval o encontro de várias culturas populares do nosso país”, afirmou, ressaltando que a presença dos batuques, tambores e tradições negras foi determinante para moldar o carnaval como é conhecido atualmente.

Da festa elitizada ao carnaval popular

Durante a entrevista, o sociólogo explicou que o carnaval passou por mudanças significativas ao longo da história. Inicialmente restrito às elites e realizado em clubes, o evento gradualmente foi ocupado pela população e se consolidou como manifestação popular.

Ele citou o chamado “intrudo”, prática trazida pelos colonizadores portugueses, como uma das primeiras formas de celebração carnavalesca no Brasil. A partir dessa tradição, a festa passou a se organizar por meio de blocos, desfiles e, posteriormente, ocupação das ruas.

No caso de Fortaleza, Gilvan destacou que a presença do maracatu foi decisiva para consolidar o carnaval popular. Ele lembrou que o primeiro desfile reconhecido desse tipo ocorreu em 1937, com o surgimento do grupo Az de Ouro, considerado o mais antigo ainda em atividade. Segundo ele, o maracatu representa uma das principais expressões culturais do carnaval cearense e símbolo da resistência da cultura afro-brasileira.

Transição para o carnaval de rua e políticas públicas

O pesquisador explicou que a consolidação do carnaval de rua na capital cearense ocorreu de forma tardia e enfrentou dificuldades estruturais. Ele ressaltou que a força dos bailes de clubes predominou até o final da década de 1970, quando começaram a surgir iniciativas de pré-carnaval organizadas pela sociedade civil.

A institucionalização do apoio público ao carnaval de rua, segundo ele, ocorreu a partir de meados dos anos 2000, com a criação de editais culturais. Esse modelo permitiu maior organização dos blocos e garantiu financiamento para manifestações culturais.

Apesar dos avanços, Gilvan defendeu a ampliação dos investimentos e criticou a concentração de recursos em grandes eventos. Para ele, é fundamental fortalecer os grupos locais e os blocos de cortejo. “O carnaval não pode chegar aos bairros apenas como evento de palco. É preciso fortalecer os grupos locais e os artistas”, declarou.

Cultura popular e impacto econômico

Durante a entrevista, o professor também destacou a importância econômica do carnaval e sua capacidade de gerar renda e fortalecer o turismo cultural. Ele alertou, no entanto, que a lógica comercial não pode sobrepor a valorização das manifestações populares.

Segundo ele, o fortalecimento da cultura local garante a continuidade da festa e evita o apagamento de tradições históricas. Gilvan defendeu políticas públicas permanentes para apoiar blocos, maracatus e artistas locais ao longo de todo o ano, não apenas no período carnavalesco.

Ele citou ainda o crescimento do número de maracatus no Ceará, com cerca de 15 grupos ativos em Fortaleza e aproximadamente 50 em todo o estado, como exemplo da força dessa manifestação cultural.

Carnaval como espaço de crítica social

O pesquisador também rebateu a ideia de que o carnaval perdeu seu caráter político. Para ele, a festa continua sendo espaço de protesto e reflexão social, embora utilize novas linguagens culturais.

Ele lembrou que blocos carnavalescos frequentemente abordam temas políticos, sociais e históricos por meio de fantasias, músicas e performances. “O carnaval nunca deixou de ser crítico. Ele reapresenta os problemas sociais por meio do humor e da arte”, afirmou.

Desafios para o futuro da festa

Ao encerrar a entrevista, Gilvan Paiva avaliou que Fortaleza vive um momento de expansão do carnaval, mas ainda necessita de planejamento cultural estruturado para consolidar a festa como patrimônio social e econômico.

Ele defendeu a criação de um projeto de carnaval que garanta autonomia aos grupos culturais e promova equilíbrio entre grandes eventos e manifestações populares de bairro. Para o pesquisador, esse modelo pode fortalecer a identidade cultural da cidade e ampliar o alcance social da festa.


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