Artista cearense fala sobre 34 anos de trajetória musical, o cavaquinho de seis cordas, composição e a influência do choro sobre nomes como Luiz Gonzaga
A música brasileira foi o centro da conversa entre o apresentador Luiz Regadas e o músico cearense Luiz José no programa Café com Democracia, da Atitude Popular. Com 34 anos de atuação profissional, o artista falou sobre sua trajetória, o trabalho como compositor, cantor e instrumentista e a relação entre o choro e outros gêneros da música brasileira. A entrevista também foi marcada por interpretações de clássicos como “Naquela mesa”, “Carinhoso” e “Aquarela do Brasil”. As informações e declarações desta matéria foram extraídas da entrevista exibida pelo programa.
Autodidata desde os 10 anos, Luiz José iniciou sua formação musical ainda na infância. Posteriormente, teve aulas com o músico Adriano, que atuava nos antigos saraus de Fortaleza, e estudou técnicas específicas de cavaquinho e bandolim com Elismar Pontes. Também passou pelo Conservatório Alberto Nepomuceno e, atualmente, cursa licenciatura em Música na Universidade Estadual do Ceará.
Ao longo da carreira, o músico ampliou sua atuação para além da performance instrumental. Além de tocar, passou a trabalhar com composição, canto e produção musical, participando de espaços culturais, teatros, programas de rádio e televisão, casas de shows e festivais.
“Minha carreira está num momento muito especial, de desenvolvimento”, afirmou. Segundo ele, a experiência acumulada ao longo de décadas, somada ao retorno aos estudos acadêmicos, modificou sua maneira de compreender a própria atividade.
“Com os estudos da universidade, um convívio mais forte diretamente com a música, eu venho realmente ampliando minha expectativa na música, desde compositor, como músico atuante, como cantor e visualizando a música na sua amplitude, desde tocar, como produzir”, explicou.
O artista contou que, durante boa parte da vida, sua atenção esteve concentrada principalmente no domínio técnico do instrumento e na execução do repertório, especialmente do choro. Com o tempo, passou a enxergar a música de maneira mais abrangente.
“Eu antes, no decorrer da minha vida, ficava focado apenas em tocar tecnicamente o instrumento, o repertório, de choro em especial, embora tenha atuado nos diversos gêneros brasileiros”, relatou.
“Prenúncio” e a descoberta da composição
Entre as experiências que marcaram essa trajetória está a composição de “Prenúncio”, apresentada por Luiz José como sua primeira obra concluída. A música nasceu a partir de uma abertura que ele costumava executar nas apresentações da artista cearense Fátima Santos.
O compositor explicou que a obra surgiu de uma progressão harmônica utilizada antes dos shows da cantora e foi desenvolvida posteriormente com novas possibilidades melódicas, rítmicas e harmônicas.
“Eu fui muito feliz, já na perspectiva do que eu realizo hoje, levando o cavaquinho nas possibilidades harmônicas, desenvolvendo a melodia, o ritmo, a polifonia no cavaquinho”, afirmou.
Para Luiz José, a composição também ganhou importância pela receptividade de outros músicos, que passaram a executar a obra.
“Consegui ser muito feliz, não só na composição, mas também por atrair o gosto dos colegas músicos, que também gostam de executar essa música”, contou.
Durante a entrevista, ele apresentou um trecho de “Prenúncio” ao cavaquinho.
A memória do pai em “Naquela mesa”
Outro momento da conversa foi dedicado à música “Naquela mesa”, composição de Sérgio Bittencourt, filho do bandolinista Jacob do Bandolim. A canção ocupa um lugar especial na memória afetiva do apresentador, que a relacionou à lembrança do próprio pai.
Luiz José explicou que a composição surgiu depois da morte de Jacob do Bandolim e destacou a força emocional da obra.
“Após a morte do Jacob do Bandolim, com muita inspiração, o Sérgio Bittencourt fez essa composição que tem uma expressividade de sentimento muito forte, muito grande”, afirmou.
Segundo o músico, “Naquela mesa” permanece entre as canções mais solicitadas nas apresentações das quais participa.
A interpretação apresentada no programa reforçou justamente esse caráter de memória e saudade presente na composição, cuja letra trata da ausência de uma figura paterna e das lembranças associadas aos encontros em torno de uma mesa.
O choro como matriz da música brasileira
A relação de Luiz José com o choro apareceu como um dos principais temas da entrevista. Para ele, o gênero tem papel central na formação da música popular brasileira e ajudou a desenvolver recursos rítmicos, melódicos e técnicos posteriormente presentes em diferentes estilos.
“O choro é a mãe de todos os gêneros brasileiros”, declarou.
O músico explicou que a tradição do choro reúne uma grande variedade de elementos e que, historicamente, diferentes gêneros foram se desenvolvendo a partir desse ambiente musical.
“Antes, quando a gente se referia ao choro, nós estávamos mencionando toda a riqueza rítmica também, além das melodias, o baião, a polca, o maxixe. E, como mãe de todos os gêneros, ela desenvolveu a riqueza da nossa música”, afirmou.
Na entrevista, Luiz José também diferenciou manifestações que atualmente são tratadas como gêneros distintos. Ele citou “Carinhoso”, de Pixinguinha, como uma obra diretamente ligada à tradição do choro, enquanto “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso, foi apresentada como exemplo do chamado samba de exaltação.
O músico destacou ainda a importância da transformação do choro instrumental em uma linguagem que dialogou com outras formas da música popular.
“Cada gênero brasileiro tem uma ramificação”, resumiu.
Durante a conversa, Luiz José também executou trechos de “Carinhoso”, uma das obras mais conhecidas de Pixinguinha.
A influência do choro sobre Luiz Gonzaga
A entrevista também abordou Luiz Gonzaga e sua relação com a tradição instrumental brasileira. Luiz José destacou que o Rei do Baião teve contato com o universo do choro no início de sua carreira profissional no Rio de Janeiro e avaliou que essa experiência contribuiu para sua formação como instrumentista.
Para o músico cearense, o choro exige domínio técnico e dedicação, características que podem ser observadas na trajetória de Luiz Gonzaga como sanfoneiro.
“O choro é uma música de difícil execução e se tornou uma música popular”, afirmou.
Luiz José avaliou que essa característica contribuiu para o desenvolvimento de músicos brasileiros e estabeleceu pontes com diferentes gêneros.
“Eu acho que influenciou bastante o Luiz Gonzaga, nosso grande representante da música nordestina”, disse.
Na avaliação apresentada durante a entrevista, a influência do choro pode ser percebida na capacidade instrumental de Gonzaga e no desenvolvimento de sua linguagem musical. A partir daí, o sanfoneiro se tornou uma das principais referências da cultura nordestina, especialmente por meio do baião, do xote e do forró.
O entrevistado também ressaltou que a importância de Luiz Gonzaga ultrapassa a música. Para ele, o artista contribuiu para projetar aspectos da cultura nordestina relacionados aos costumes, à alimentação, à vestimenta e às manifestações populares.
Durante o programa, Luiz José interpretou ainda um trecho de “Xote das meninas”, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas.
Do samba às rodas de Fortaleza
A trajetória do músico também passa pelo samba e pelas rodas realizadas em Fortaleza. Luiz José relatou que, ainda no início da carreira, teve contato com músicos experientes da cena cearense e foi convidado a participar de rodas de samba.
“Os grandes profissionais da música cearense iniciaram já no meu início, me convidaram para participar das rodas de samba”, contou.
Ele também citou a experiência de viajar pelo Brasil ao lado de Luizinho Calisto, músico com quem pretende retomar uma parceria em novos projetos.
O repertório ligado ao Fundo de Quintal também aparece entre as referências de sua formação. Luiz José relatou que teve contato com essas músicas desde cedo e que essa vivência contribuiu para ampliar seu repertório como instrumentista.
A entrevista terminou com uma interpretação musical e com a apresentação de novos projetos que poderão reunir Luiz José e outros músicos em programas dedicados à música brasileira.
Um músico entre tradição e formação acadêmica
A conversa no Café com Democracia mostrou uma trajetória construída em diferentes espaços da música. O cavaquinho aparece como instrumento central, mas a atuação de Luiz José se estende pela composição, pelo canto, pela produção e pela formação acadêmica.
A retomada dos estudos na Universidade Estadual do Ceará, segundo o próprio músico, também modificou sua relação com a atividade artística. A experiência acumulada durante 34 anos passou a dialogar com uma compreensão mais ampla dos processos musicais.
Essa combinação entre prática e formação aparece justamente quando Luiz José fala sobre sua maneira atual de enxergar a música. O instrumento deixa de ser apenas uma ferramenta de execução e passa a integrar um universo que envolve composição, arranjo, interpretação, produção e pesquisa.
Ao longo do programa, essa perspectiva foi apresentada por meio de exemplos musicais e de referências a diferentes períodos da música brasileira. Do choro ao samba, do bandolim ao cavaquinho, passando pelo baião e pelo forró, a entrevista percorreu parte da diversidade de uma tradição musical que Luiz José continua estudando e praticando.
Referências
“Fausto”, Johann Wolfgang von Goethe, 1808 e 1832.
“Star Wars”, George Lucas, 1977.
“Naquela mesa”, Sérgio Bittencourt.
“Carinhoso”, Pixinguinha.
“Aquarela do Brasil”, Ary Barroso.
“Brasileirinho”, Waldir Azevedo.
“Xote das meninas”, Luiz Gonzaga e Zé Dantas.
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