No primeiro mandato de uma mulher negra na ALECE, professora Zuleide Queiroz leva ancestralidade, letramento racial e disputa por orçamento para dentro do plenário
O primeiro mandato de uma mulher negra na Assembleia Legislativa do Ceará (ALECE) não é um gesto isolado de representatividade: é resultado de décadas de luta dos movimentos negros, feministas e populares no estado. É assim que a deputada professora Zuleide, 61 anos, professora da URCA, militante de direitos humanos e filha da periferia de Fortaleza, lê sua própria chegada ao Parlamento estadual.
As declarações foram dadas ao programa Café com Democracia, exibido pela TV Atitude Popular e retransmitido por uma rede de rádios comunitárias e FMs, em edição apresentada por Luiz Regadas no dia 2 de dezembro, com o tema “1º mandato de uma mulher negra na ALECE”.
Logo na abertura, a deputada enquadra o momento dentro de um novembro negro prolongado, que transborda o calendário oficial e invade a rotina da política institucional:
“Nossa mandata se inicia e faz todo esse processo de tentativa de democratização, especialmente falando de democracia e negritude.”
“Nossos passos vêm de longe”
Para explicar por que sua presença na ALECE é diferente de uma ocupação individual de cadeira, Zuleide começa pelos afetos e pela ancestralidade. Apresenta-se como filha de Josué Medeiro Queiroz, 93 anos, e de Maria Fernandes Queiroz, já falecida, nascida no bairro Panamericano, mãe de um filho de 30 anos e avó de uma menina de três. E faz questão de sublinhar que sua trajetória é coletiva:
“Nossos passos vêm de longe. A gente caminha com muita gente conosco, com muita história conosco.”
Ela lembra que só chegou à Assembleia porque o deputado Renato Roseno (PSOL) se licenciou, abrindo espaço para dois suplentes: ela, mulher negra periférica, e Léo, jovem negro da periferia. Para a deputada, isso não é detalhe, é método: o mandato é fruto de uma lógica de movimento, e não de uma carreira individual.
Letramento racial e o que é ser “representação negra”
Provocada por Regadas sobre a possibilidade de existirem outras deputadas negras antes dela, como Marta Brandão e Leila Moreira, Zuleide devolve a pergunta em forma de debate político: o que significa, afinal, falar em “primeira mulher negra” na ALECE?
Ela traz o conceito de letramento racial para explicar a diferença entre ter um corpo negro no parlamento e assumir publicamente uma identidade negra vinculada a lutas históricas:
“Quando eu entrei, eu perguntei a muitas pessoas: nós tivemos representação negra na Assembleia? Não é só o meu corpo, essa pele, esse cabelo, os fenótipos que me constituem mulher negra descendente de pretos. Representação negra é também de onde esse corpo vem, que movimento o trouxe, que causas leva para dentro da casa.”
Zuleide recorre à classificação adotada pelos movimentos e pela legislação para definir quem é considerado negro no Brasil:
“O negro hoje no Brasil é aquele pardo com fenótipos de preto e os pretos, que a gente vai chamar os ‘tintos’. Esses são os corpos negros.”
Na sua leitura, ser a primeira mulher negra assumidamente negra, militante do movimento negro na ALECE não é uma etiqueta de marketing, mas um compromisso:
“Ser a primeira mulher negra, assumidamente negra, que está no movimento negro, é iluminar as crianças e adolescentes para que nós possamos dizer que nós somos negros. Que ser negro e ser negra é muito importante, é bonito, e devemos nos autoafirmar.”
Conceição Evaristo como norte: vozes mulheres dentro do plenário
Para marcar esse lugar, a deputada traz para o centro da conversa a poesia de Conceição Evaristo, especialmente o poema Vozes-Mulheres, que atravessa gerações de mulheres negras – da infância escravizada nos porões do navio à filha que recolhe “vozes mudas, caladas, engasgadas” e transforma em ato político.
Ao citar o verso “a voz de minha filha fará ouvir a ressonância, o eco da vida-liberdade”, Zuleide estabelece um elo direto entre literatura e mandato:
o que ela faz na ALECE é, em suas palavras, ecoar essas vozes e transformar memória em política pública.
Um recorde de mulheres, mas ainda distante da paridade
A deputada lembra que a atual composição da ALECE, com 11 mulheres entre 46 cadeiras, já é a mais feminina da história do Parlamento cearense. Mesmo assim, o dado está longe de representar o peso real das mulheres na sociedade.
“As mulheres movimentam esse país. São as primeiras a acordar, muitas vezes as primeiras a sair de casa, deixam suas crianças na creche, na escola, vão trabalhar como diaristas, domésticas, no comércio, na indústria. E ainda assim nós temos que discutir se podemos estar na política.”
Ela critica o modo como a legislação trata a cota de 30% de candidaturas femininas:
“Esse 30% é para se candidatar, não é para ser eleita. No México já é 50%. A gente está atrasado.”
Quatro anos em 30 dias: o que coube no primeiro mês
Empossada no dia 6 de novembro, a deputada descreve os 30 dias de mandato como uma espécie de condensação de um ciclo mais longo:
“Nós estamos realizando em 2025 o sonho de 2022 e agora queremos esperançar para 26.”
Sem tempo hábil para construir do zero grandes projetos, ela se concentrou em duas frentes principais:
- Disputa de orçamento e atualização de leis já existentes
Zuleide explica que uma das perguntas centrais que levou à ALECE foi: “Nós estamos representadas no orçamento do governo do estado?”
A partir dessa chave, a deputada entrou em debates sobre emendas, recursos para políticas de igualdade racial e atualização da lei estadual que reserva 20% das vagas de concursos públicos para pessoas negras. “Estamos atualizando essa lei, acompanhando o que o governo federal já fez. E mais do que isso: queremos garantir que indígenas e quilombolas também estejam contemplados.” Ela destaca ainda a necessidade de reconhecer oficialmente as comunidades quilombolas do Ceará — hoje, segundo ela, 13 comunidades em processo de registro — junto à Fundação Palmares e ao Incra, para garantir políticas específicas. - Fortalecimento de municípios “sem racismo”
Em parceria com o governo do estado, a deputada comemorou a indicação de um fundo para apoiar 20 municípios que aderiram a iniciativas de enfrentamento ao racismo, com foco em ações nas escolas e na formação de professores: “A pergunta que a gente faz o tempo todo é: as políticas que existem hoje dão conta de colocar negros e negras na escola, na universidade, no mercado de trabalho, em condições iguais?” Novembro negro, marchas e economia negra
No balanço do mandato, a deputada vincula sua atuação ao Novembro Negro e ao conjunto de ações articuladas pelos movimentos sociais:
participação no III Festival Afro-Cearense Cidadanias, com programação no Centro Dragão do Mar
apoio à Marcha Nacional de Mulheres Negras, em Brasília, sob o lema “por reparação e bem viver”
participação na marcha da periferia, realizada em Fortaleza com a pauta “queremos viver e viver bem”
Ela também cita a Feira Negra organizada mensalmente na Praça do Benfica e em shoppings populares, como exemplo de economia negra que precisa ser reconhecida e fortalecida:
“É um empreendedorismo negro importante, uma economia que reconstitui a história da população indígena e negra no Brasil. Política pública é também garantir que essas experiências tenham apoio e orçamento.”
Consciência Negra, universidades e o peso das leis 10.639 e 11.645
No campo da educação, uma das prioridades da deputada é tirar do papel normas que existem há décadas, mas seguem mal implementadas. É o caso das leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena.
Zuleide foi uma das proponentes da sessão solene pelo Dia da Consciência Negra na ALECE, subscrevendo requerimento da deputada Larissa ao lado dos deputados Guilherme Sampaio e Messias Dias. A sessão marcou o fechamento simbólico do Novembro Negro no Parlamento.
No dia 3 de dezembro, ela coordena uma audiência pública sobre a implementação das duas leis nas instituições públicas de ensino superior do Ceará, convocando reitores, gestores e comunidade acadêmica:
“Essa legislação é de 2003 e 2008, e nós estamos em 2025. A pergunta é: como está a implantação da política? Como os corpos negros chegaram até lá? Como os professores estão sendo formados para falar disso em sala de aula?”
Segundo a deputada, o debate inclui desde a atualização de livros didáticos e a formação continuada de docentes até concursos específicos e comissões de heteroidentificação:
“A gente quer saber se a universidade está preparada, se os professores estão formados, se as cotas estão sendo realmente garantidas.”
Cinturão das Águas, meio ambiente e serviço público
A agenda da parlamentar também inclui temas ambientais e de infraestrutura. Zuleide citou a audiência pública sobre os impactos do Cinturão das Águas no Cariri, que contará com a presença de Renato Roseno:
“A população precisa se beneficiar desse grande projeto. Hoje, o que mais chega são denúncias de poeira, casas abandonadas, devastação da natureza. A pergunta que fazemos é: vai ter água para todo mundo? Como essa população vai usufruir dessa passagem do cinturão?”
Outro eixo é a defesa do serviço público. A deputada mencionou a mobilização de aprovados em concursos, que permanecem em cadastro de reserva e lutam pela nomeação:
“A gente quer consolidar a melhor política de serviço público no Ceará. Isso passa por chamar quem já foi aprovado, especialmente nas áreas de saúde e educação.”
Feminismo negro, 21 dias de ativismo e a luta contra a violência
No final da entrevista, a conversa se desloca para o tema da violência contra a mulher, motivada por casos recentes de feminicídio e agressões brutais, como o de uma trabalhadora atropelada por um homem e que teve as pernas amputadas.
Zuleide lembra que estamos no período dos 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres, que vão de 20 de novembro a 10 de dezembro, quando se celebra o Dia Internacional dos Direitos Humanos:
“Nós saímos do novembro negro e entramos nos 21 dias de ativismo de combate à violência contra a mulher. É um movimento para dialogar e acabar de vez com a violência. Não se consolida democracia se ainda continuar com tantos problemas de racismo e de machismo.”
Para a deputada, é nesse cruzamento entre raça, gênero, território e classe que a democracia brasileira será testada. E é também aí que seu mandato, por breve que seja, pretende deixar marca:
“Mulheres, mães, avós, professoras, estudantes, jovens: nós devemos estar nesse lugar e nós podemos contribuir. O grande princípio da democracia é o bem viver para todo mundo.”
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