“O Lula é o Pelé da política”

Em entrevista ao Democracia no Ar, comunicador Roberto Cardoso diz que a esquerda precisa falar com o eleitor ‘ressabiado’, critica a monetização do ódio e avalia que Hugo Motta é um líder fraco diante da chantagem permanente no Congresso

A desigualdade das chuvas em Fortaleza virou piada e termômetro de humor no início do Democracia no Ar. Mas o programa apresentado por Sara Goes rapidamente atravessou a anedota pluviométrica para entrar no que tem sido o clima dominante do país: política em alta voltagem, Congresso em rota de colisão com o governo e uma disputa narrativa que transforma crise em moeda digital. As falas foram feitas na edição “Justiça, poder, participação popular e os rumos da democracia”, disponível no YouTube da TV Atitude Popular.

Convidado do programa, o comunicador Roberto Cardoso, do canal Pensando Alto, analisou como parte da direita “aprendeu” a converter agressividade em engajamento e dinheiro, apontando o caso envolvendo Zezé Di Camargo e a família Abravanel como sintoma de uma estratégia mais ampla, e não mero destempero.

“Monetizar o ódio rende dinheiro”

O ponto de partida do debate foi a repercussão de um evento institucional no SBT — lançamento de canal de notícias — do qual participaram o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes. Sara descreveu que o encontro evidenciou cordialidade com a família Abravanel e que uma reação do cantor Zezé Di Camargo teria sido marcada por ataque machista às herdeiras do SBT. Para Roberto, a leitura mais consequente é a de que o episódio se encaixa numa lógica de radicalização calculada.

“Eu tô ficando com a sensação cada vez mais forte que na esquerda a gente ainda tem um problema que é ter escrúpulos… E na direita, eu acho que eles já perceberam que não ter escrúpulos e monetizar o ódio rende dinheiro.”

Roberto sugeriu que há um mercado político-cultural em que a “falta de escrúpulo” vira ativo. Segundo ele, figuras em decadência artística ou com menos apelo no público geral podem enxergar na base bolsonarista um “filão” capaz de sustentar relevância e renda.

“Eu tô vendo muita gente em decadência dar um chilique e virar bolsonarista radical… Eles não têm muito escrúpulo.”

Sara complementou que a agressividade dirigida a “quatro moças” — como definiu — seria pesada demais para parecer improviso, levantando a hipótese de “projeto de radicalização” voltado a monetização em cima da polarização.

Hashtags, fadiga e “Congresso inimigo do povo”

A conversa avançou para o ambiente político de fim de ano: manifestações de rua, cansaço social com conflitos permanentes e o retorno de palavras de ordem que miram o Legislativo. Sara citou a circulação de “Congresso inimigo do povo” e pediu a avaliação sobre o risco e o potencial politizante do bordão.

Roberto sustentou que a expressão encontra terreno porque, na percepção popular, há uma sequência de pautas desconectadas de demandas concretas, além de insistência em temas como anistia e redução de punições, quando parte significativa da sociedade quer o oposto.

“Falando ou não, é inevitável que se pense isso… O Congresso realmente é inimigo do povo.”

Ele também comparou a dinâmica entre as Casas: para Roberto, a Câmara aprova “qualquer coisa” e o Senado acaba empurrado ao papel de correção, num cenário em que o Supremo é chamado repetidas vezes a conter iniciativas já consideradas inconstitucionais.

Hugo Motta, “biruta de aeroporto” e a crise de liderança

Em um dos trechos mais diretos do programa, Sara pediu a Roberto uma leitura sobre o futuro político de Hugo Motta e o impacto da condução da Câmara. Roberto caracterizou Motta como um dirigente vulnerável a pressões cruzadas.

“Ele é um líder fraco. O problema dele é esse.”

Na avaliação do convidado, a imprevisibilidade se tornou método — ou consequência — e isso piora o ambiente institucional, porque acordos deixam de ter estabilidade.

“Mudou o vento, ele muda… Igual biruta de aeroporto.”

Roberto ponderou que, apesar de desgaste e rejeição, a reeleição parlamentar não depende apenas de humor nacional, mas de arranjos locais, estruturas de poder regionais e financiamento político.

“Às vezes a política ali tem um dono… Se essa condição continuar existindo, ele vai ser reeleito.”

A aula do Lula e o “eleitor ressabiado”

Ao entrar no tema da renovação do Congresso, Roberto defendeu que a esquerda precisa assimilar o método de Lula para além do carisma do presidente. Ele repetiu a ideia de que Lula ensina há mais de duas décadas que a eleição é decidida por amplitude, não por bolhas.

“O Lula é um gênio da política. O Lula é o Pelé da política.”

Segundo ele, Lula compreendeu que o país não é majoritariamente de esquerda e que vencer exige falar com o centro e com segmentos conservadores sem abandonar convicções, mas ajustando linguagem e prioridades.

“Tem que buscar voto fora… Você tem que chegar bem na manha com um diálogo diferente.”

Sara reforçou, a partir de Fortaleza, que segurança pública não é “pauta inventada”, mas medo real — e que desqualificar essa preocupação é “cruel” com a população. Roberto, então, criticou uma parcela “encastelada” da esquerda por decidir, de cima, o que o povo deveria achar importante.

“A esquerda gosta de falar, de falar… e o povo tá falando: ‘Olha, eu quero outra coisa’.”

Nesse diagnóstico, há também uma desconexão sociológica: Roberto citou a presença evangélica na periferia e afirmou que parte da esquerda projeta símbolos e representações que não correspondem ao cotidiano popular.

Moro, “festa da cueca” e a expectativa de responsabilização

Nos minutos finais, o programa abordou o avanço de denúncias antigas envolvendo o senador Sergio Moro e o uso de grampos e delações em contextos controversos. Roberto afirmou que há “trabalho acumulado” e que, passada a prioridade de enfrentar o golpismo, outras frentes tendem a caminhar.

“Eu acho que agora a casa realmente está caindo… Eu acho que chegou a hora.”

Sara citou o jornalista Joaquim de Carvalho como um dos primeiros a dar espaço e insistir na apuração das denúncias relacionadas a Tony Garcia. O encerramento manteve o tom de mobilização: a disputa institucional continua, mas a “luta vale a pena”, como disse Roberto ao desejar um 2026 de coragem e esperança.


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