Atitude Popular

“O mundo tá precisando sair da bodega”

Em entrevista a Luiz Regadas, Dalton Rosado explica por que vê o capitalismo em colapso, liga capital a guerras e defende debate sobre vida “para além do dinheiro”

No Programa Café com Democracia, exibido pela web rádio e TV Atitude Popular, o advogado, escritor e articulista Dalton Rosado apresentou as ideias centrais do texto A degeneração ostensiva do capital e defendeu que a crise atual não é apenas econômica, mas civilizatória. A conversa, conduzida por Luiz Regadas, percorreu do cotidiano de Fortaleza em dia de chuva às guerras globais, passando pela história da escravidão, pelo desemprego estrutural e pela crítica à “democracia burguesa”.

A entrevista foi veiculada pela Atitude Popular, rede de comunicação popular, e partiu de um ponto que Dalton considera decisivo: a dificuldade contemporânea de “imaginar fora” do capitalismo. Para ele, a sociedade foi educada a tratar dinheiro e mercadoria como se fossem elementos naturais da existência — e essa naturalização, diz, paralisa o pensamento e impede a formulação de alternativas.

Capitalismo como “relação social” e a prisão do imaginário

Logo no início, Dalton definiu o capitalismo menos como um sistema econômico e mais como uma forma de organizar a vida: um modo de relação social que se infiltra na cultura, nas escolhas individuais e até na forma como cada um interpreta o mundo. “As pessoas acham que o modo de produção capitalista (…) é tão natural quanto o ato de tomar água”, afirmou.

Essa “naturalização” tem consequência direta: se tudo parece natural, o sistema deixa de ser questionado. O resultado, na leitura do entrevistado, é uma humanidade que passa a viver como se não houvesse alternativa, mesmo quando as contradições explodem na vida real: fome, miséria, precarização e guerras.

A ironia do apresentador, ao falar do capitalismo “tão bom” que garantiria “picanha, leite condensado e paz”, serviu de gancho para Dalton sustentar o diagnóstico: o capitalismo não só produz desigualdade como também, em sua fase atual, passa a se autossabotar.

“Sair da bodega”: do sertão ao colapso do consumo como mercadoria

Um dos trechos mais marcantes da entrevista nasceu de uma imagem simples. Dalton relatou que, após uma manhã de chuva intensa em Fortaleza, um amigo sertanejo lhe disse: “Agora lá na minha região vão sair da bodega” — expressão usada para indicar que, com a chuva, o campo volta a produzir e as famílias deixam de depender de comprar tudo na mercearia.

Dalton transformou a frase numa metáfora global: “O mundo tá precisando sair da bodega”, afirmou, defendendo que a mercantilização da vida chegou ao limite. Para ele, o capitalismo transformou bens necessários em mercadorias, subordinando a produção à “viabilidade econômica”. Quando essa viabilidade se esgota, o sistema passa a degenerar diante dos próprios olhos.

A conversa também tocou na mudança de hábitos de consumo. Ao comentar a migração de clientes dos mercadinhos de bairro para grandes redes, Luiz Regadas lembrou o retorno do “fiado” e da caderneta em tempos de crise. Dalton concordou e conectou o tema ao coração do problema: a concentração de riqueza e a destruição de formas comunitárias de sobrevivência.

Guerras, belicosidade e a escalada dos últimos 200 anos

Para Dalton, a violência não é um “desvio” do capitalismo, mas um dos seus motores históricos. Ele citou o século XIX como período de imposição global do sistema e o século XX como era de guerras em escala massiva — e apontou que o século XXI já nasceu sob o signo da guerra permanente, com conflitos em diversas regiões do planeta.

A tese que ele sustenta é que, quando o mundo vira um grande mercado competitivo, a disputa por território, recursos, rotas e poder se intensifica. “Para onde você vai, você encontra a guerra como elemento presente nessa relação social capitalista”, afirmou.

Da escravidão direta ao “escravismo do salário”

Outro eixo central da entrevista foi a herança escravista. Dalton lembrou que, há pouco mais de um século, seres humanos eram legalmente tratados como propriedade e transportados em navios negreiros. Ele também comparou a servidão europeia feudal a formas de escravização.

Na leitura dele, o capitalismo “suavizou” a escravidão direta com um mecanismo indireto: o assalariamento como forma de dominação. Nesse ponto, Dalton citou a ideia de mais-valia como extração do valor produzido no tempo de trabalho e defendeu que o salário, em vez de libertar, redesenhou a exploração com outra linguagem.

A contradição fatal: tecnologia, desemprego estrutural e a “galinha dos ovos de ouro”

A noção de “degeneração ostensiva” aparece, para Dalton, quando o capitalismo chega ao estágio em que destrói o próprio fundamento. Ele chamou isso de “matar a galinha dos ovos de ouro”: o sistema depende de gente trabalhando para ganhar dinheiro e comprar mercadorias; mas a tecnologia — sobretudo na era microeletrônica e cibernética — substitui trabalhadores, gerando desemprego estrutural e corroendo a base de consumo.

“A máquina tá substituindo o homem. (…) O modo de relação social baseado em trabalhar para ganhar dinheiro (…) está se exaurindo”, disse. Para ele, essa crise é especialmente dramática para a juventude que tenta entrar no mercado de trabalho e encontra portas fechadas não por falta de “mérito”, mas por uma reorganização estrutural da produção.

Democracia burguesa e parlamentos conservadores

No bloco final, o debate entrou no tema da democracia. Dalton criticou a ideia de que a democracia contemporânea represente soberania popular real. Ele recuperou a origem do termo na Grécia e argumentou que, na prática, a democracia sob o capitalismo se torna instrumento de dominação econômica e manipulação eleitoral.

“O poder econômico manipula essa vontade popular”, disse, citando a permanência histórica de parlamentos conservadores e a formação de bancadas ligadas a corporações, setores armados e interesses econômicos. Na avaliação dele, a “democracia burguesa” vende a aparência de governo do povo, mas reproduz escolhas contrárias aos interesses do próprio eleitorado.

Um livro e uma provocação: viver sem dinheiro

A entrevista também serviu para divulgar o livro de Dalton, Ensaios para a crítica do Valor, obra que aprofunda o debate sobre crise do capitalismo e possibilidades de organização social fora da lógica do dinheiro. Segundo ele, a proposta pode soar absurda, porque a humanidade foi “viciada” no dinheiro durante séculos — mas o colapso contemporâneo estaria empurrando o mundo para encarar a pergunta.

“Hoje já não se está mais podendo viver com o dinheiro”, afirmou, citando o endividamento global e uma espécie de falência generalizada do sistema. E resumiu sua provocação em um ponto decisivo: nenhum objeto tem “um grama de dinheiro” dentro de si; o dinheiro é mediação histórica, criada e mantida como forma de controle.

Ao responder sobre caminhos concretos, Dalton voltou à imagem inicial: “produzir não para vender, produzir para partilhar”. Para ele, isso exige recuperar a cooperação como base de vida — aquilo que, segundo sua visão, garantiu a sobrevivência humana ao longo dos milênios e foi sufocado pela lógica da competição.

A conversa terminou com a sensação de que o tema não cabia no tempo do programa — e com a promessa implícita de continuidade. Ao se despedir, Luiz Regadas anunciou a programação seguinte e reforçou o chamado ao engajamento nas redes da Atitude Popular, em uma edição que misturou crítica social, memória histórica e uma pergunta incômoda: se o sistema que organiza o mundo está em ruínas, qual é a próxima “lavagem de roupa” da humanidade?

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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