Da Redação
Diretor Oliver Stone e produtores do documentário sobre Lula negam qualquer relação financeira com Daniel Vorcaro e expõem tentativa da extrema-direita de criar falsa equivalência entre o filme de Bolsonaro e produções sobre Lula.
O cineasta Oliver Stone decidiu entrar diretamente na crise envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento do filme Dark Horse, produção sobre Jair Bolsonaro que se transformou no centro de um dos maiores escândalos políticos recentes do país. E a reação do diretor norte-americano praticamente implodiu a tentativa bolsonarista de criar uma falsa equivalência entre o filme sobre Bolsonaro e produções audiovisuais ligadas ao presidente Lula.
Segundo reportagem publicada pela Revista Fórum, Oliver Stone e os produtores do documentário “Lula” divulgaram nota oficial negando categoricamente qualquer recebimento de dinheiro vindo de Daniel Vorcaro, do Banco Master ou de empresas associadas ao banqueiro investigado.
A nota foi divulgada após uma coluna de Lauro Jardim, em O Globo, sugerir que Vorcaro teria financiado produções relacionadas tanto a Jair Bolsonaro quanto a Lula. A informação rapidamente começou a circular em perfis bolsonaristas como tentativa de diluir o impacto devastador das revelações envolvendo Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro e o esquema milionário associado ao filme Dark Horse.
Só que a estratégia durou pouco.
Os responsáveis pelo documentário sobre Lula afirmaram que “não houve quaisquer recebimentos de recursos, investimentos, patrocínios ou contribuições” vindos de Vorcaro ou de estruturas ligadas ao Banco Master. Além disso, avisaram que poderão adotar medidas judiciais contra o que classificaram como “falsas alegações e informações inverídicas”.
Traduzindo do juridiquês:
“parem de inventar história”.
A situação ficou especialmente constrangedora para o bolsonarismo porque o caso envolvendo Dark Horse possui documentos, mensagens, áudios, fundos internacionais, negociações milionárias e rastros financeiros já sob investigação da Polícia Federal.
Ou seja:
de um lado existe um filme sobre Bolsonaro cercado por denúncias envolvendo US$ 24 milhões, Daniel Vorcaro, Banco Master, fundo no Texas, estruturas associadas ao entorno de Eduardo Bolsonaro e mensagens vazadas de Flávio Bolsonaro.
Do outro lado existe Oliver Stone dizendo:
“não recebemos um centavo”.
A tentativa de construir simetria virou praticamente uma cena de pastelão político.
E honestamente?
A operação narrativa era muito previsível.
Toda vez que o bolsonarismo entra numa crise grande, surge imediatamente a estratégia do “mas e o PT?”. Não importa o assunto. Pode ser joia saudita, minuta golpista, fraude em cartão de vacina, banqueiro investigado ou dinheiro circulando no Texas. O roteiro é sempre o mesmo:
“tá, mas deve ter alguma coisa do outro lado também”.
Desta vez, porém, a resposta veio rápido demais.
E ainda veio assinada por Oliver Stone.
O detalhe mais irônico é que Stone possui uma trajetória política e cinematográfica completamente diferente da estética conspiratória que cerca Dark Horse. Diretor de filmes como JFK, Platoon e Wall Street, o cineasta sempre ocupou posição crítica em relação ao imperialismo norte-americano, guerras e estruturas de poder dos Estados Unidos. Já o filme sobre Bolsonaro aparece mergulhado em estética messiânica trumpista e cercado por personagens ligados ao universo da extrema-direita internacional.
A diferença entre os dois projetos é quase didática.
O documentário sobre Lula circulou em festivais internacionais, incluindo Cannes, e foi tratado como obra documental ligada à trajetória política brasileira contemporânea. Já Dark Horse emergiu como peça central de uma operação político-midiática cercada de suspeitas financeiras, teorias conspiratórias e articulações internacionais do bolsonarismo.
No meio disso tudo, Mario Frias ainda conseguiu piorar a situação.
Segundo nova reportagem da Revista Fórum, o ex-secretário de Cultura de Bolsonaro e produtor-executivo do filme acabou se contradizendo publicamente ao tentar explicar os dólares ligados a Vorcaro e o financiamento do longa.
A cada nova entrevista, o caso parece ficar mais caótico.
Enquanto isso, a tentativa bolsonarista de transformar tudo numa “culpa compartilhada” vai desmoronando rapidamente.
Porque existe uma diferença importante entre:
“alguém insinuou” e “a Polícia Federal está investigando”.
No caso do filme sobre Lula, até agora apareceu apenas especulação rapidamente desmentida pelos próprios produtores e por Oliver Stone. No caso do filme sobre Bolsonaro, aparecem mensagens, fundos internacionais, dinheiro rastreado, negociações milionárias e investigações em andamento.
É a diferença entre fumaça inventada e incêndio filmado em alta definição.
No fim, a reação de Oliver Stone acabou produzindo algo ainda mais constrangedor para o bolsonarismo:
a percepção pública de que setores da extrema-direita tentaram fabricar artificialmente uma falsa equivalência para escapar do peso político do escândalo envolvendo Vorcaro.
Só que a operação durou menos do que entrevista de Flávio Bolsonaro tentando explicar dinheiro no Texas.
E isso já diz bastante coisa.
