Atitude Popular

“Política de igualdade racial não é sorte, é herança de luta”

Em edição especial de Novembro Negro, Ana Mielke e Kariane Costa discutem o papel da mídia e da comunicação pública na disputa pela representação da população negra

O Vozes pela Democracia desta sexta-feira (21/11) fez do estúdio da TV e Rádio Atitude Popular um espaço de diagnóstico e disputa política sobre o modo como o Brasil enxerga – e enquadra – sua maioria negra. Apresentado por Sousa Júnior, o programa, uma produção do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), recebeu a jornalista e pesquisadora Ana Mielke e a gestora e jornalista da EBC Kariane Costa para discutir “A visibilidade da pessoa negra na mídia”, no terceiro episódio da série especial Novembro Negro.

As informações, dados e reflexões que baseiam esta reportagem foram colhidos na entrevista exibida pelo programa Vozes pela Democracia, produzido pela Rádio e TV Atitude Popular em parceria com o FNDC e entidades do campo da comunicação e do movimento sindical.

Um cenário melhor do que há 15 anos, mas ainda profundamente desigual

Logo na abertura, Sousa Júnior lembrou que o programa nasce da defesa do direito à comunicação como direito constitucional e questionou como a mídia hegemônica trata a população negra, frequentemente chamada de “minoria”, embora seja maioria no país. A resposta de Ana Mielke combinou reconhecimento de avanços com uma advertência:

“O panorama já é mais positivo do que há 10 ou 15 anos atrás. A gente tem evoluído muito em termos de representatividade negra na mídia, em termos de visibilidade negra na mídia, e essa evolução se deve à luta que os movimentos sociais negros têm realizado ao longo desses últimos 50 anos.”

Ela citou a mudança no elenco de telenovelas de uma grande emissora comercial, que em poucos anos saltou de menos de 10% para mais de 40% de atores e atrizes negros. Mas fez questão de destacar que se trata de uma política pontual, de uma empresa específica, e não de uma transformação estrutural da TV aberta brasileira. Em outras redes, lembrou, índices de presença negra seguem abaixo de 10%, inclusive em produções que se passam em contextos historicamente não brancos.

Essa assimetria, apontou Ana, revela que a presença de pessoas negras no vídeo não é “gesto de bondade”, mas resposta à pressão de movimentos sociais e também à percepção de mercado de que há um público consumidor, majoritariamente negro, que não aceita mais ser invisibilizado ou reduzido a caricaturas.

Os quatro estereótipos que insistem em perseguir corpos negros

Se a quantidade melhora, a qualidade da representação continua sendo um ponto central da crítica. Ana Mielke listou quatro estereótipos que, segundo ela, seguem fortemente presentes no imaginário midiático brasileiro:

  1. A “mãe preta” – a mulher negra que cuida da família branca, muitas vezes como empregada doméstica, com afeto e dedicação, mas sem reconhecimento, tempo ou espaço para cuidar da própria casa.
  2. A “mulata lasciva” – a jovem negra “embranquecida” que só pode circular em ambientes de elite em função hipersexualizada, como corpo disponível.
  3. O “negro bobo” – personagem cômico, frequentemente em programas de humor, cuja função é ser alvo de piadas e reforçar a ideia de inferioridade intelectual.
  4. O “negro bandido” – talvez o mais persistente, que associa a imagem do homem negro à criminalidade, sobretudo em programas policiais.

Sobre esse último, Ana foi contundente ao relacionar mídia, racismo e política de morte:

“A gente vê uma postura de colocar o corpo negro sempre como um corpo que desvirtua da ordem legal. Portanto, ele pode ser exibido ao bel prazer da imprensa, dos jornalistas, inclusive com corpos negros dispostos em linha, mortos, frutos da necropolítica.”

Ela lembrou a cobertura recente de uma chacina no Rio de Janeiro, em que imagens de jovens negros mortos ou presos circulam como troféus, inclusive produzidas e difundidas por policiais. E alertou que até veículos alternativos, às vezes, reproduzem esse enquadramento sem a devida crítica.

Jornalismo: quem explica a economia e quem segura o carrinho no supermercado

Um dos pontos mais didáticos da intervenção de Ana foi a análise de como esses estereótipos atravessam o jornalismo, não apenas a ficção. Ao falar de matérias sobre inflação e custo de vida, ela descreveu um roteiro repetido:

“Em geral, a mulher negra aparece como essa mãe dona de casa, essa senhora preta que está no supermercado comprando as frutas, falando do preço do feijão. E o argumento central sobre a economia é colocado na boca de um especialista homem, muitas vezes um homem branco.”

Daí a pergunta que ela lançou como provocação e agenda de mudança:

“Por que não inverter esses papéis no jornalismo? Trazer a mulher preta como economista e dar a ela o papel de trazer o argumento central da matéria?”

A crítica não é apenas simbólica. Trata-se de disputar quem é autorizado a falar com credibilidade sobre temas complexos – orçamento público, juros, política fiscal – e de romper a associação automática entre branquitude e expertise.

Comunicação pública: entre avanços, lacunas e a tarefa de ser exemplo

Na segunda parte do programa, o foco se deslocou para a comunicação pública. Jornalista concursada da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) e ex-presidenta da empresa durante o período de transição em 2023, Kariane Costa fez questão de corrigir, com bom humor, os números citados por Sousa Júnior sobre a rede pública de rádios e TVs, para em seguida emendar:

“Política de igualdade racial não é sorte e sim é herança de luta.”

A frase, que ela anotou e trouxe ao debate, sintetiza sua visão sobre o lugar da EBC nesse cenário. Criada em 2008 para ser um contraponto à TV privada, a empresa carrega, segundo Kariane, uma dupla marca: avanços inegáveis e desafios ainda grandes.

Ela lembrou um estudo realizado em 2017 sobre a presença de pessoas negras na programação da TV pública, que mostrava como a temática racial aparecia, mas de forma concentrada em datas específicas, como Julho das Pretas e Novembro da Consciência Negra. Em artigo recente escrito com duas colegas, analisando 97 matérias da Agência Brasil sobre população negra, Kariane registrou um avanço: em mais da metade desses textos, a sociedade civil era ouvida como fonte principal.

No entanto, a avaliação é de que é preciso ir além:

“A gente tem duas apresentadoras negras no jornalismo, mas se você me perguntar se eu estou satisfeita, eu acho que a gente pode mais. A comunicação pública tem que ser exemplo.”

Ela lembrou que a EBC tem manual de jornalismo que proíbe estereótipos, comitês internos de equidade de gênero e raça, participação em programas como o Pró-Equidade de Gênero e Raça e o Pacto das Estatais pela Diversidade, além de comitês de participação social com vagas abertas para sociedade civil. Mas insistiu que o papel de uma TV pública nacional é justamente ir além do mínimo legal e puxar a régua para cima, tanto na frente das câmeras quanto nas equipes e decisões editoriais.

Programas, apresentadoras e o papel de dar visibilidade

Para ilustrar como a questão racial vem sendo tratada na EBC, Kariane listou alguns exemplos da grade da TV Brasil que colocam a cultura negra em evidência: a série Sankofa, dedicada à ancestralidade; o Canal da Quebrada; o Samba na Gamboa, apresentado por Teresa Cristina; o Xodó de Cozinha e o Trilha de Letras, comandado pela escritora Eliana Cruz.

No jornalismo, ela destacou a presença de Luciana Barreto e Iara Balduino na apresentação de telejornais, além de editorias e gerências lideradas por profissionais negros. E lembrou que a EBC tem buscado se envolver institucionalmente em eventos como a Marcha das Mulheres Negras e o festival Latinidades, garantindo cobertura, transmissão e espaço de fala.

“Quando a gente consegue fazer esse círculo se fechar – comitê que cobra, empresa que responde, jornalismo e programação que incorporam –, a comunicação pública cumpre melhor sua missão de dar visibilidade e voz à população negra”, resumiu.

Racismo digital, ataques e a “faca de dois gumes”

Na parte final do programa, o debate se voltou para a violência racista que se deslocou com força para o ambiente digital, atingindo especialmente jornalistas negras em posição de destaque.

Kariane citou ataques recentes contra apresentadoras como Luciana Barreto, na TV pública, e Basília Rodrigues, na TV privada, como exemplos de um fenômeno em que o ódio racial se amplifica e ganha escala nas redes.

Ana Mielke conectou esse cenário ao papel ambíguo da internet:

“A internet é essa faca de dois gumes. Ao mesmo tempo em que ela nos permitiu questionar emissoras privadas, cancelar programas racistas e obrigar reposicionamentos, ela também produz a massificação da violência contra nós, pessoas negras, especialmente nós, mulheres negras que estamos à frente de programas que historicamente não nos eram permitidos.”

Ela citou o caso de uma série da TV comercial cancelada após forte reação de movimentos negros nas redes, como exemplo de como o ativismo digital pode tensionar corporações de mídia. Ao mesmo tempo, defendeu a criação de mecanismos legais e regulatórios para responsabilizar autores de ataques racistas sistemáticos, sem criminalizar a crítica e o ativismo.

O papel da comunicação democrática na disputa de imaginários

Em clima de encerramento, Sousa Júnior lembrou que o Vozes pela Democracia é uma produção do FNDC com apoio de entidades como CUT, CNTE, Intervozes, Abraço Brasil e Barão de Itararé, e reforçou a importância de que o programa circule em rádios públicas, comunitárias e mídias independentes de todo o país.

Ao agradecer o convite, Ana sublinhou o papel pioneiro da comunicação pública na abertura de espaço para jornalistas negras apresentarem telejornais, o que depois se espraiou para emissoras privadas. Kariane, por sua vez, reafirmou o compromisso de seguir pressionando por mais diversidade interna e por uma programação que trate a população negra como sujeito político, e não apenas como pauta sazonal.

Ao final, ficou a síntese que dá nome a esta reportagem: se há mais negros e negras nas telas e nas redações hoje, isso não é fruto do acaso, da “sorte” ou de uma suposta benevolência das empresas. É resultado direto de décadas de mobilização, produção intelectual e enfrentamento ao racismo estrutural.

“Política de igualdade racial não é sorte e sim é herança de luta”, repetiu Kariane – frase que ecoa muito além do Novembro Negro.

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