Presidente Lula propõe espaços públicos de convivência, cultura e cuidados que preservem a autonomia e a dignidade na terceira idade
O Presidente Lula anunciou que apresentará durante a campanha eleitoral uma política nacional destinada aos cuidados com as pessoas idosas. A proposta foi antecipada nesta sexta-feira, durante seu discurso na convenção partidária estadual que confirmou a chapa governista no Ceará.
A declaração foi feita na convenção realizada no Centro de Eventos do Ceará e transmitida pela internet. Lula não detalhou o formato administrativo, as fontes de financiamento ou os órgãos responsáveis pela futura política, mas indicou que o projeto terá como prioridade a convivência social, a autonomia e o acesso das pessoas idosas a atividades culturais e de lazer.
“É isso que eu vou apresentar durante a campanha. Como eu quero apresentar também uma política para cuidar da terceira idade. Eu acho que nós precisamos cuidar das pessoas de idade”, afirmou.
Ao abordar o tema, o Presidente Lula criticou situações de abandono familiar e lembrou que parte das pessoas que hoje precisam de cuidados foi responsável pela criação dos filhos e netos. Para ele, a sociedade deve reconhecer esse vínculo e assumir responsabilidades diante do envelhecimento da população.
“É preciso que aprendam a respeitar os velhos de hoje, porque foram eles que criaram a gente”, declarou.
Espaços de convivência, não de confinamento
O Presidente Lula afirmou que a futura política não deverá se limitar à criação de instituições destinadas apenas à permanência ou ao isolamento de pessoas idosas. Segundo ele, os espaços precisam oferecer condições para uma vida ativa, com liberdade de escolha e contato com outras pessoas.
“Eu não quero um lugar para confinar velho. Eu quero um lugar para eles ganharem vida”, disse.
Entre as atividades mencionadas estão música, teatro, cinema, leitura e dança. Lula também falou sobre o direito ao descanso, ao convívio afetivo e à manutenção da vida amorosa na terceira idade.
“Um lugar que eles tenham acesso à música, acesso a teatro, acesso a cinema, acesso a pista de dança, acesso a leitura. Se ele quiser dormir, pode dormir. Se quiser namorar, pode namorar. O que eu quero é que eles sejam tratados com dignidade e com respeito”, afirmou.
A proposta apresentada no discurso se aproxima do conceito de centros públicos de convivência, nos quais pessoas idosas podem permanecer durante parte do dia, participar de atividades e receber acompanhamento sem perder os vínculos familiares e comunitários. Lula, no entanto, não informou se o programa seguirá esse modelo nem quando o plano completo será divulgado.
Envelhecimento com autonomia
Ao defender a criação da política, Lula relacionou o envelhecimento à existência de projetos pessoais, participação social e cuidados com a saúde. Aos 80 anos, o presidente citou sua própria rotina de exercícios e afirmou que manter uma causa e uma motivação ajuda a enfrentar as limitações associadas à idade.
“Na minha cabeça, só fica velho quem não tem uma causa. A gente não pode parar a rotação da Terra. Então eu sei que os anos passam, mas, se a gente tiver uma causa, uma motivação para lutar todo dia, a gente não envelhece”, declarou.
A fala não apresentou metas, número de unidades, calendário de implantação ou critérios de acesso. Esses pontos deverão ser esclarecidos quando a proposta for formalmente incorporada ao programa eleitoral.
O anúncio coloca os direitos das pessoas idosas entre os temas que o Presidente Lula pretende levar à campanha. A formulação apresentada no Ceará concentra-se na criação de espaços que garantam convivência, atividades culturais e respeito às decisões individuais, evitando que o atendimento seja associado apenas à internação ou ao isolamento.
A proposta completa deverá indicar como União, estados e municípios participarão da execução e de que modo a política será articulada com as redes públicas de saúde, assistência social e cultura.
Aposentados, renda e peso eleitoral
A proposta anunciada pelo Presidente Lula será apresentada após um período em que o governo adotou medidas com impacto direto sobre a renda de aposentados e pensionistas. A principal delas foi a retomada da política permanente de valorização do salário mínimo, sancionada em 2023, que passou a considerar a inflação e o crescimento da economia. Como grande parte dos benefícios previdenciários está vinculada ao piso nacional, os reajustes alcançam diretamente milhões de segurados do INSS. Em janeiro de 2026, o salário mínimo subiu de R$ 1.518 para R$ 1.621.
O governo também manteve a antecipação do 13º salário de aposentados e pensionistas. Em 2025, a medida alcançou cerca de 34,2 milhões de beneficiários. O adiantamento foi repetido em 2026, com as duas parcelas incluídas nos pagamentos de abril e maio.
A relação do governo com os aposentados, no entanto, também foi marcada pela crise dos descontos associativos indevidos em benefícios do INSS. Após a revelação do esquema, a gestão federal abriu procedimentos de contestação, ampliou o atendimento por meio de mais de cinco mil agências dos Correios e destinou crédito extraordinário de R$ 3,3 bilhões ao ressarcimento dos segurados prejudicados. A resposta financeira não elimina os questionamentos sobre as falhas de fiscalização que permitiram a continuidade das cobranças.
O anúncio de uma nova política para a terceira idade também ocorre quando os brasileiros com mais de 60 anos ampliam sua influência eleitoral. No artigo “Quando o tempo decide: o poder eleitoral dos idosos no Brasil contemporâneo”, publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos, o sociólogo e cientista político Paulo Baía mostra que esse eleitorado passou de 20,8 milhões de pessoas em 2010 para 36,2 milhões em 2026, crescimento de 74%. No mesmo período, o conjunto do eleitorado brasileiro avançou cerca de 15%.
Baía observa ainda que 21,6 milhões de pessoas idosas compareceram ao primeiro turno das eleições de 2022. Entre os eleitores de 60 a 69 anos, o comparecimento chegou a 85,7%, acima da média nacional de 79,1%. Os dados ajudam a explicar por que renda, saúde, mobilidade, inclusão digital, convivência e proteção contra o abandono devem ocupar espaço crescente na campanha presidencial de 2026.
Em entrevista concedida ao programa Democracia no Ar, da Atitude Popular, Paulo Baía afirmou que as pessoas idosas convivem com uma combinação de invisibilidade nas políticas públicas e responsabilidade crescente dentro das famílias.
“Você tem de um lado uma invisibilidade e de outro um protagonismo exploratório. O idoso conquista a aposentadoria e, ao mesmo tempo, precisa dar atenção aos filhos, aos netos e ajudar financeiramente a família”, declarou.
Segundo o pesquisador, muitos aposentados se tornaram responsáveis por uma parcela importante do sustento familiar, mas continuam enfrentando barreiras no atendimento público, nas cidades e no acesso às atividades sociais. Ele também relacionou a sensação de abandono ao comportamento eleitoral.
“O idoso sente essa ausência. E essa carência é preenchida com um certo cansaço e, às vezes, com uma certa dose de vingança”, afirmou. Para Baía, esse eleitor não escolhe necessariamente um candidato por causa da idade, mas procura quem demonstre proximidade, acolhimento e conhecimento de suas necessidades.
A fala do Presidente Lula sobre espaços de convivência dialoga com parte desse diagnóstico. A criação de locais com acesso à cultura, leitura, dança e relações comunitárias pode enfrentar o isolamento social, mas a política ainda precisará apresentar respostas para questões como saúde especializada, renda, inclusão digital, mobilidade e apoio às famílias responsáveis pelos cuidados cotidianos.
