Da Redação
O senador Carlos Viana, presidente da CPMI do INSS, destinou ao menos R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares a uma fundação ligada à Igreja Batista da Lagoinha. O repasse ocorre enquanto a igreja aparece em discussões dentro da própria comissão, que investiga fraudes envolvendo o sistema previdenciário.
O senador Carlos Viana, do Podemos de Minas Gerais e atual presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito que investiga fraudes no INSS, destinou ao menos R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares a uma fundação ligada à Igreja Batista da Lagoinha. Os repasses foram identificados em diferentes anos e tiveram como beneficiária a Fundação Oasis, entidade criada pela própria igreja e vinculada a projetos sociais ligados à instituição religiosa.
A Fundação Oasis foi fundada em 1995 como braço social da Igreja Batista da Lagoinha, organização religiosa liderada pelo pastor André Valadão. Segundo informações institucionais da própria entidade, suas atividades são voltadas a programas de assistência social, promoção do bem-estar familiar e apoio a projetos comunitários.
Entre os repasses identificados está uma emenda parlamentar enviada em 2019 no valor de R$ 1,5 milhão destinada à Prefeitura de Belo Horizonte, com indicação de que os recursos fossem aplicados em projetos executados pela fundação. Outros valores foram destinados posteriormente à unidade da Fundação Oasis localizada em Capim Branco, na região metropolitana da capital mineira. Em 2023, a entidade recebeu cerca de R$ 1,47 milhão por meio de emendas, e em 2025 houve o envio adicional de aproximadamente R$ 650 mil. Somados, os valores chegam a cerca de R$ 3,6 milhões.
O tema ganhou repercussão política porque a Igreja da Lagoinha passou a ser citada nas discussões da própria CPMI do INSS. Reportagens revelaram que um empresário ligado a investigações envolvendo descontos indevidos em aposentadorias teria patrocinado eventos organizados pela igreja, o que levou parlamentares a defenderem que possíveis conexões financeiras fossem investigadas pela comissão.
Durante os debates da CPMI, o deputado federal Rogério Correia levantou suspeitas sobre a atuação de empresas e instituições associadas à igreja, incluindo uma fintech chamada Clava Forte Bank. Segundo o parlamentar, há denúncias de que recursos financeiros poderiam ter circulado entre estruturas ligadas ao sistema bancário investigado e organizações vinculadas ao ambiente religioso. Ele afirma que busca comprovar essas suspeitas e defende a quebra de sigilos de pessoas e empresas relacionadas ao caso.
Parlamentares governistas também acusam o presidente da comissão de evitar pautar requerimentos que pedem investigação mais profunda sobre essas conexões. Entre os pedidos que ainda aguardam análise estão solicitações de quebra de sigilo relacionadas à fintech citada e a lideranças da própria igreja.
A assessoria do senador Carlos Viana afirmou que as emendas parlamentares seguiram as regras legais e constitucionais que regem a destinação de recursos públicos. Segundo a nota divulgada por sua equipe, quando uma emenda é aprovada ela é encaminhada ao ente público responsável, normalmente prefeituras ou governos estaduais, que passam a decidir a forma de execução do projeto e a entidade responsável por implementá-lo, além de prestar contas aos órgãos de controle.
O caso surge em meio ao ambiente político tenso que envolve a CPMI do INSS. A comissão foi instalada para investigar um esquema de descontos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, estimado em bilhões de reais, e tem sido palco de disputas entre governistas e oposição sobre o foco das investigações e a condução dos trabalhos.
A revelação dos repasses a uma fundação ligada à Igreja da Lagoinha adiciona mais um elemento ao debate político dentro da comissão. Parlamentares defendem que todas as possíveis conexões financeiras relacionadas aos investigados sejam analisadas, enquanto aliados do senador argumentam que a destinação de emendas parlamentares para projetos sociais segue procedimentos administrativos regulares e não configura irregularidade por si só.


