Débora Sandyla afirma ter ouvido que “pessoas como você deveriam correr na Barra do Ceará e não na Aldeota”; após o episódio, abriu ao público um perfil no Instagram para divulgar os vídeos da ocorrência e seu relato
A professora de espanhol Débora Sandyla denunciou ter sido vítima de racismo durante um treino de corrida na Beira-Mar de Fortaleza, na manhã deste sexta (10). O episódio terminou em registro de boletim de ocorrência, mobilizou frequentadores da orla e ganhou grande repercussão nas redes sociais após a professora decidir tornar público um perfil no Instagram que, até então, era restrito a amigos e pessoas próximas.
Segundo ela, a decisão foi tomada para divulgar o vídeo gravado durante a discussão, registrar seu relato sobre os acontecimentos e impedir que o caso fosse esquecido. No depoimento, Débora afirma que não pretende recuar e que levará o processo “até a última instância”.
De acordo com informações publicadas pelo Ceará Agora, a discussão começou quando uma ciclista reclamou da presença da professora na pista compartilhada da Beira-Mar. Débora afirma que respondeu apenas que não havia como correr olhando para trás para facilitar a ultrapassagem. Em seguida, segundo seu relato, ouviu uma frase que interpretou como uma ofensa racista.
“Pessoas como você não deveriam estar correndo na Aldeota, deveriam estar correndo na Barra do Ceará.”
A professora interrompeu imediatamente o treino, voltou até a mulher e passou a registrar a discussão com o celular.
Vídeo registra acusação de racismo e pedido de ajuda
As imagens gravadas por Débora começam logo depois da frase que ela afirma ter ouvido. Ainda ofegante por causa do treino, a professora interrompe a corrida, volta até a ciclista e exige que ela repita a declaração.
“Repete o que a senhora falou. A senhora disse que pessoas como eu deveriam estar correndo na Barra do Ceará e não na Aldeota.”
A partir desse momento, o vídeo registra duas reações completamente diferentes.
Débora aparece visivelmente abalada. Ela grita por ajuda, pede que alguém chame a polícia, insiste para que a mulher permaneça no local e tenta convencer quem se aproxima de que acabara de sofrer uma ofensa racista.
Enquanto isso, a idosa permanece calma. Nas imagens, ela conversa tranquilamente com as pessoas ao redor, nega ter feito a declaração e passa a receber apoio de frequentadores da Beira-Mar que não presenciaram o início da discussão.
Ao longo da gravação, diversas pessoas dirigem a atenção à mulher acusada, perguntam se ela está bem e tentam tranquilizá-la. Débora, por sua vez, demonstra indignação ao perceber que, na avaliação de parte dos presentes, a idosa estava sendo vista como vítima da confusão.
“Você não perguntou se eu estou bem, mas perguntou se ela estava bem”, protesta.
Em outro momento, ela reclama que os presentes tratavam a situação como uma simples discussão entre duas mulheres e não como uma denúncia de racismo.
A gravação mostra ainda que Débora se recusa a deixar a mulher ir embora antes da chegada da Polícia Militar. Ela afirma que interrompeu um treino de preparação para maratona e que ainda precisaria passar por um procedimento médico naquela manhã, mas considerava indispensável registrar a ocorrência.
Horas depois, ao comentar o episódio em um vídeo publicado nas redes sociais, a professora afirmou que a cena lhe deixou a sensação de ter enfrentado não apenas a ofensa inicial, mas também a descrença de parte das pessoas que testemunharam os acontecimentos.
Professora relata sensação de abandono durante atendimento
Ao publicar um vídeo de mais de doze minutos narrando o episódio, Débora afirma que a violência não terminou na ofensa atribuída à mulher.
Segundo ela, à medida que outras pessoas se aproximavam, a preocupação dos presentes passou a ser acolher a mulher acusada, enquanto sua denúncia era tratada como exagero.
“Você não perguntou se eu estou bem, mas perguntou se ela estava bem”, afirma em um dos trechos.
Ela também relata que ouviu comentários sugerindo que deveria abandonar a denúncia e seguir com o treino, como se a situação fosse “besteira”. Para a professora, essa reação reforçou o sentimento de isolamento.
“Parecia que eu precisava justificar por que tinha parado meu treino para denunciar aquilo.”
Professora denuncia uma segunda manifestação de racismo
A gravação feita na Beira-Mar mostra que a discussão não se limitou à frase atribuída à mulher denunciada. Em meio à movimentação de pessoas que se aproximam para acompanhar a ocorrência, é possível ouvir claramente um homem dizer a Débora que ela seria “morena”. Logo em seguida, a professora reage de forma imediata:
“Além do insulto dela, sabe quem foi que eu escutei? ‘Você não é negra não, você é morena’.”
Horas depois, ao comentar o episódio em um vídeo publicado nas redes sociais, Débora volta ao assunto e relata que um dos homens presentes foi além, dizendo que ela era “uma bela morena”. Segundo a professora, esse tipo de comentário a acompanha desde a infância e representa uma tentativa de negar sua identidade racial.
“Eu reconheço os meus lugares de privilégio. Sei que não sou uma preta retinta. Mas isso não tira o lugar onde as pessoas me olham e me veem como inferior.”
Para Débora, o episódio representou uma segunda forma de violência racial, ocorrida justamente quando ela buscava apoio das pessoas que acompanhavam a ocorrência.
Críticas atingem atuação da Polícia Militar
O vídeo publicado por Débora após a ocorrência dedica parte do relato ao atendimento prestado pelos policiais que atenderam a ocorrência na Beira-Mar.
Na gravação, ela afirma que, ao pedir providências, ouviu de um dos agentes a resposta: “Vai para a delegacia, caralho”. Em seguida, relata que outro policial procurou desqualificar sua denúncia ao dizer que ela não era negra, mas “morena”, acrescentando que seria “uma bela morena”.
O relato registra ainda uma diferença entre o atendimento inicial e o recebido posteriormente na Delegacia de Combate aos Crimes por Discriminação Racial e Delitos de Intolerância. Débora elogia a atuação da equipe da unidade especializada e afirma que foi acolhida pela delegada responsável. No entanto, explica que a prisão em flagrante não foi realizada porque não havia testemunhas que confirmassem a frase atribuída à mulher denunciada. O caso foi registrado e deverá prosseguir por meio de investigação.
Comissão de Direitos Humanos acompanhará o caso
A advogada Tayane Sales, que representa Débora Sandyla, informou neste sábado (11) que a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza deverá acompanhar o caso.
Segundo ela, a iniciativa partiu da assessoria da vereadora Adriana Gerônimo, que entrou em contato oferecendo apoio institucional à professora. De acordo com Tayane, capturas de tela e outros registros já começaram a ser encaminhados para análise da comissão.
A advogada afirma que, desde que passou a representar Débora e manifestou solidariedade à vítima, passou a receber ataques nas redes sociais, incluindo ofensas, comentários lesbofóbicos, xenófobos e tentativas de desqualificar sua atuação profissional.
“Tudo porque algumas pessoas acham que idade pode servir de escudo para racismo. Não pode.”
Ela também rebateu críticas dirigidas à reação de Débora durante a discussão.
“Quando uma pessoa é violentada, humilhada, discriminada, atacada na sua dignidade, ela não precisa reagir como personagem dócil para merecer respeito.”
Segundo Tayane, parte das críticas tenta inverter a discussão ao colocar o comportamento da vítima sob julgamento, desviando a atenção da denúncia de injúria racial.
Ao final da publicação, a advogada afirma que pretende buscar a responsabilização dos envolvidos por todos os meios legais.
“Vai ter Comissão de Direitos Humanos, vai ter encaminhamento, vai ter print, vai ter responsabilização. A vítima não está sozinha. E eu também não vou me calar.”
Barra do Ceará simboliza uma política de democratização do litoral
A frase atribuída à mulher denunciada acabou colocando a Barra do Ceará no debate. Historicamente associado às camadas populares de Fortaleza, o bairro foi um dos principais beneficiados pelo Projeto Vila do Mar, implantado durante a gestão da ex-prefeita Luizianne Lins.
A intervenção urbanizou cerca de 5,5 quilômetros da orla oeste da capital, entre o Pirambu e a Barra do Ceará, com construção de calçadão, ciclovia, áreas de lazer, habitações, saneamento, equipamentos culturais e espaços públicos.
Na época, a administração municipal utilizava a expressão “democratização do litoral” para defender que as praias de Fortaleza não deveriam permanecer como espaços apropriados apenas pelos bairros de maior renda, mas também pelas populações historicamente excluídas da ocupação qualificada da orla.
Além das obras urbanísticas, o bairro recebeu o CUCA Che Guevara, ampliando o acesso da juventude da periferia a atividades culturais, esportivas e de formação profissional.
Ao contrapor Barra do Ceará e Aldeota, a frase denunciada por Débora remete a uma divisão histórica baseada em território, renda e desigualdades raciais, justamente em uma área que passou por políticas públicas concebidas para ampliar o direito de toda a população de ocupar e usufruir do litoral de Fortaleza.
Caso seguirá em investigação
Débora afirma que esta não foi a primeira situação de racismo vivida por ela, mas diz que desta vez decidiu não permanecer em silêncio.
“Não é a primeira vez que isso acontece comigo. Vou até a última instância porque racistas não passarão.”
A reportagem aguarda posicionamento da Polícia Militar do Ceará sobre as críticas feitas pela professora ao atendimento recebido e também da mulher apontada como autora da ofensa, para que suas versões sejam incorporadas à cobertura.






