Daniela Silva, do Movimento Negro Unificado e da Coalizão Negra por Direitos, defende que o Novembro Negro reafirme a pauta de reparação e apresente propostas concretas para segurança pública e combate ao racismo no Brasil
O Novembro Negro por Reparação começou em tom de urgência. Em meio ao luto pelas vítimas da violência de Estado e aos atos realizados em diversas cidades, o mês convoca movimentos, escolas e instituições a pautar políticas de igualdade racial que saiam do papel. O tema foi o centro da entrevista com Daniela Silva, da coordenação do Movimento Negro Unificado (MNU) no Ceará e integrante da Coalizão Negra por Direitos, no Democracia no Ar desta segunda-feira (3/11).
A conversa foi ao ar na TV Atitude Popular e integrou a edição do programa apresentada por Sara Goes. Ao longo do debate, Daniela destacou a articulação nacional do movimento e a necessidade de transformar comoção em mobilização permanente. “Não há outra opção senão agir”, disse, ao comentar a sequência de chacinas e a aprovação social de políticas de extermínio que atingem majoritariamente a juventude negra.
Necropolítica, segurança pública e a urgência da reparação
Ao analisar o cenário recente, Daniela foi direta: “A inteligência [policial] que se vende é, na verdade, a necropolítica aparecendo de maneira cruel”. Para ela, a naturalização da violência nas periferias é a ponta de um processo histórico que nunca reparou os danos da escravidão e segue convertendo pessoas negras em alvo preferencial.
No ar, ela lembrou que atos foram puxados pela Coalizão Negra por Direitos em diferentes estados e registrou as mobilizações no Ceará: Fortaleza, Sobral e Itapipoca realizaram manifestações entre o fim de outubro e o início de novembro. “É sempre uma luta. O novembro, muitas vezes, chega rasgando a gente por dentro, mas a resposta é organização e rua”, pontuou.
Daniela também relacionou a pauta de reparação ao cotidiano das mulheres negras nas periferias. “A dor é atravessada por desigualdade e racismo estrutural. As chefias de família são, em grande parte, mulheres negras. É por isso que insistimos na agenda do bem viver”, afirmou.
O que vem pela frente em novembro
A dirigente detalhou a agenda que se desenrola ao longo do mês, combinando denúncia, formação e disputa institucional:
Documento nacional da Coalizão Negra por Direitos com propostas para “a segurança pública que desejamos”, a ser apresentado a autoridades e órgãos de controle;
Marcha das Mulheres Negras rumo a Brasília, em 25 de novembro, dez anos depois da primeira edição, recolocando reparação e bem viver no centro;
No Ceará, seminários e ações com Povos de Terreiro, no dia 15 de novembro, em parceria com a Secretaria de Igualdade Racial e outros movimentos, com ênfase em combate ao racismo religioso;
Atividades em escolas e visitas à Assembleia Legislativa, reforçando referências de poder e decisão para a juventude. Daniela celebrou a posse, neste mês, da professora Zuleide Queiroz (PSOL), primeira mulher negra a exercer mandato no Parlamento cearense por período determinado: “Representação importa porque abre portas e muda prioridades”.
Educação antirracista e memória que move políticas
No programa, Daniela resgatou a importância da Lei 10.639 (ensino de história e cultura afro-brasileira) como base de uma educação antirracista e criticou a recusa social em reconhecer o legado negro para a formação do país. “Não é só um lugar de dor. Somos produção econômica, cultural, ancestral e científica”, disse.
Ao encerrar, ela reforçou o chamado à mobilização e sintetizou a aposta política do Novembro Negro: “Quando uma mulher negra se movimenta, conseguimos mover estruturas”. Para além do calendário, a mensagem é que reparação e igualdade racial exigem continuidade, propostas concretas e pressão social para virar política de Estado.
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