Atitude Popular

“Todas as lutas por direitos se dão num ambiente democrático”

Vicente Selistre analisa a I Conferência Internacional Antifascista, relaciona o avanço da extrema direita à crise do capitalismo e defende articulação popular para enfrentar autoritarismo, guerra e desinformação

Em entrevista ao programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular, apresentado por Sara Goes na terça-feira, 31 de março, o sindicalista e advogado Vicente Selistre fez um balanço político da I Conferência Internacional Antifascista, realizada entre os dias 26 e 29 de março, em Porto Alegre. Ex-deputado federal, integrante da coordenação do Movimento Sindical do PSB e vice-presidente nacional da CTB, Selistre apresentou o encontro como uma resposta organizada ao avanço mundial da extrema direita e à escalada de violência, intolerância e guerra que marcam o cenário contemporâneo.

Ao longo da conversa, o dirigente sustentou que a conferência nasce de uma percepção histórica e urgente: a de que o fascismo deixou de ser apenas uma referência ao passado europeu e voltou a se apresentar, em novas roupagens, na política internacional, nas redes digitais, nas disputas ideológicas e nos ataques aos direitos sociais. “Nós que defendemos democracia e participação popular sabemos muito bem que é só num ambiente democrático que se preserva o humanismo, os direitos humanos, o direito dos trabalhadores, a diversidade”, afirmou.

A entrevista partiu do contexto da conferência, mas rapidamente alcançou um arco mais amplo de análise. Para Selistre, o encontro em Porto Alegre teve peso simbólico e político por ocorrer 25 anos depois da realização do primeiro Fórum Social Mundial, também na capital gaúcha, e por reunir centenas de militantes, pesquisadores, lideranças políticas e representantes de movimentos sociais de dezenas de países. Segundo ele, a conferência não foi apenas um evento de denúncia, mas um espaço de formulação e articulação internacional diante de uma conjuntura em que o fascismo volta a ganhar terreno.

Ele explicou que a ideia da conferência já vinha sendo construída havia cerca de dois anos, mas acabou adiada em razão da tragédia climática que atingiu o Rio Grande do Sul. Retomada em 2026, a iniciativa reuniu, segundo seu relato, cerca de 3.600 participantes e delegações de mais de 40 países. O eixo central foi a defesa da soberania dos povos e a necessidade de organizar uma resistência internacional ao autoritarismo, ao imperialismo e ao neoliberalismo.

Na avaliação de Selistre, o fascismo contemporâneo não pode ser compreendido isoladamente. Ele surge, segundo disse, do aprofundamento das desigualdades, da desproteção social e do colapso das promessas do capitalismo global. “Isso foi criando cada vez mais um produto para o crescimento do fascismo, que é a miséria, a desesperança, a classe trabalhadora desprotegida, insegura, o ataque ao movimento sindical”, declarou. Para ele, a precarização do trabalho, o enfraquecimento dos sindicatos, o uso político da religião e a manipulação das chamadas pautas morais formam o cimento social que alimenta a extrema direita em vários países.

Ao comentar os debates centrais da conferência, Selistre destacou que o antifascismo contemporâneo não se restringe à memória histórica da Itália de Mussolini ou da Alemanha nazista. Ele está diretamente ligado aos conflitos atuais, ao papel das big techs, à disseminação da desinformação e à reorganização geopolítica do mundo. Um dos pontos mais enfáticos de sua fala foi a defesa de uma leitura internacionalista do momento presente, especialmente a partir da relação entre o declínio da hegemonia dos Estados Unidos e a reação agressiva do imperialismo diante da consolidação de um mundo multipolar.

Nesse ponto, o dirigente associou a radicalização das guerras e das intervenções externas à tentativa de manter o controle político, econômico e militar sobre regiões estratégicas. Para ele, a ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a busca de alternativas ao dólar ajudam a explicar a agressividade crescente das potências tradicionais. “O mundo tem avançado para nascer, mesmo que com dificuldades, um mundo multipolar, o que não é admitido pelo império estadunidense”, resumiu.

A questão palestina ocupou lugar central na entrevista, em sintonia com um dos temas mais fortes da conferência. Selistre afirmou que a resistência palestina e a denúncia do genocídio em Gaza se tornaram um divisor moral e político do nosso tempo. Sem relativizar os conflitos, ele foi categórico ao afirmar que os palestinos têm direito à sua terra, à sua pátria e à sua soberania. Ao comentar a reação militar de Israel, criticou a desproporção da violência e a naturalização internacional de massacres contra civis, mulheres e crianças.

Na conversa, ele também relacionou o debate antifascista à ofensiva contemporânea contra a diplomacia, a legalidade internacional e os organismos multilaterais. Citou episódios recentes envolvendo ataques a países soberanos, assassinatos de lideranças e desrespeito aberto a instâncias internacionais como sinais de uma ordem global em decomposição. Nesse cenário, a conferência teria buscado produzir não apenas indignação, mas inteligência política e capacidade organizativa.

Selistre lembrou ainda que o evento discutiu mesas sobre negacionismo climático, reforma agrária, antirracismo, situação argentina, trabalho e neoliberalismo, além da própria ameaça da ultradireita no Brasil. Para ele, essa diversidade de temas revela que o combate ao fascismo precisa ser entendido como uma luta ampla, que envolve democracia, soberania, justiça social, comunicação e direitos humanos.

Ao analisar o caso brasileiro, o dirigente argumentou que o país vive uma encruzilhada perigosa. Embora o bolsonarismo tenha sofrido derrotas institucionais e eleitorais, a base ideológica da extrema direita permanece ativa, com capacidade de reorganização e influência sobre o debate público. Ele alertou que a disputa de 2026 será atravessada por temas internacionais, pela guerra de informação e pela tentativa permanente de criminalizar as forças populares, as pautas progressistas e a solidariedade internacional.

Nesse sentido, defendeu que o campo democrático amplie sua capacidade de diálogo social e sua presença territorial. Para ele, a fragmentação da vida coletiva, o isolamento individual e a descrença nas formas tradicionais de organização abriram um terreno muito favorável às fake news e às saídas autoritárias. “Nós temos que incluir mais gente, aproximar mais gente”, disse, ao defender sindicatos fortes, rádios comunitárias, TVs populares, conselhos, conferências e mecanismos permanentes de participação social.

Em um dos trechos mais políticos da entrevista, Selistre sustentou que a democracia não pode ser reduzida ao rito eleitoral. Segundo ele, a experiência brasileira mostra que eleições sem participação popular, sem comunicação democrática e sem organização de base são insuficientes para conter o avanço do autoritarismo. Por isso, insistiu na importância de fortalecer espaços coletivos de formulação e mobilização, especialmente entre trabalhadores, juventudes, aposentados, mulheres, pessoas com deficiência e comunidades historicamente marginalizadas.

A entrevista também abriu espaço para comentários do professor Antonio Ibiapino, que reforçou a gravidade do momento histórico e ressaltou a necessidade de defender a democracia, a liberdade de expressão e a vida plena. O comentarista aproximou o debate atual das experiências históricas do fascismo e do nazismo, lembrando que projetos autoritários sempre buscaram destruir a diversidade humana, perseguir os considerados indesejáveis e transformar a concentração de poder em norma política.

Ao final, Selistre voltou ao ponto que atravessou toda a conversa: a ideia de que o antifascismo, hoje, precisa ser reconstruído como prática social, política e internacional. Não basta denunciar o horror. É preciso formar consciência, organizar o povo e reconstruir vínculos coletivos em uma época marcada pela desinformação, pelo medo e pela atomização social. Em sua formulação, a resposta democrática ao fascismo não virá de elites iluminadas nem de acordos de cúpula desconectados da realidade popular, mas da revalorização da política como participação, solidariedade e disputa de projeto de sociedade.

Foi nesse espírito que ele resumiu o desafio do presente: defender a democracia como condição concreta para todos os demais direitos. “Todas as lutas que contempla uma sociedade plural, uma sociedade solidária, fraterna, justa, ela se dá num ambiente democrático”, afirmou.

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