Torcedor que homenageia Patrice Lumumba tem visto negado para entrar nos Estados Unidos

Da Redação

Um dos personagens mais marcantes desta Copa do Mundo ficou fora dos estádios por decisão das autoridades migratórias dos Estados Unidos. O torcedor da República Democrática do Congo conhecido por se vestir como Patrice Lumumba, primeiro líder do país após a independência, teve o visto negado e não pôde acompanhar uma das partidas de sua seleção.

A imagem do congolês tornou-se conhecida internacionalmente por sua performance silenciosa. Durante os jogos, ele permanece imóvel por noventa minutos, com a mão erguida, reproduzindo fotografias históricas de Lumumba. O gesto transformou o torcedor em um dos símbolos da competição e despertou a curiosidade de jornalistas e espectadores sobre a história do líder africano.

Embora as autoridades norte-americanas não tenham informado oficialmente o motivo da negativa do visto, o episódio provocou repercussão justamente porque a homenagem remete a um dos capítulos mais controversos da política externa dos Estados Unidos durante a Guerra Fria.

O primeiro líder do Congo independente

Patrice Lumumba tornou-se primeiro-ministro do Congo em 1960, logo após a independência do país em relação à Bélgica.

Defensor da soberania nacional e do controle das riquezas minerais congolesas pelo próprio Estado, entrou rapidamente em conflito com interesses estrangeiros ligados à exploração dos recursos naturais do país, que possui algumas das maiores reservas mundiais de cobre, cobalto, diamantes e urânio.

Poucos meses depois de assumir o governo, Lumumba foi derrubado, preso e assassinado. Seu corpo foi dissolvido em ácido numa operação conduzida por agentes ligados ao governo belga, com apoio da CIA, segundo documentos históricos posteriormente desclassificados. Durante décadas, restou apenas um dente do líder congolês, devolvido recentemente à família pelo governo da Bélgica.

Mais de seis décadas após sua morte, Lumumba continua sendo uma das principais referências das lutas anticoloniais na África e um símbolo da defesa da soberania nacional diante das potências estrangeiras.

Democracia no Ar destacou a homenagem

A homenagem prestada pelo torcedor congolês foi tema da edição de quinta-feira do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular.

Ao comentar a repercussão da imagem, o historiador Victor Marques explicou que o torcedor “se veste como Lumumba e fica imóvel, como se fosse uma estátua do Lumumba a partida inteira”. Segundo ele, a força simbólica da cena obrigou parte da imprensa internacional a revisitar um episódio frequentemente ausente da cobertura jornalística. “A mídia não pode fazer pouco caso. Tem que ir atrás, tem que falar quem foi o líder”, afirmou.

Victor também relembrou a trajetória do primeiro-ministro congolês. “Eleito primeiro-ministro, mas logo alguns meses depois deposto, assassinado, corpo dissolvido em ácido. A Bélgica, o imperialismo belga com os Estados Unidos, mostrando todo o caráter sangrento da colonização”, disse durante o programa.

Sandra Helena observou que momentos como esse ajudam a explicar por que a Copa do Mundo vai além da competição esportiva. “Tem umas coisas muito bonitas na Copa do Mundo como uma espécie de congraçamento universal, encontro dos povos. Mesmo essa Copa totalmente dominada pelas corporações, esse elemento da fraternidade universal aparece também. Como são bonitos os povos do mundo”, afirmou.

Para os apresentadores, a homenagem demonstra como símbolos históricos continuam circulando por meio do esporte e permitem que novas gerações conheçam personagens fundamentais das lutas de libertação nacional.

Futebol também produz memória

Ao longo da história, Copas do Mundo serviram de palco para manifestações ligadas a direitos humanos, racismo, colonialismo, guerras e soberania nacional.

Nesta edição, a presença do torcedor congolês mostrou que uma arquibancada também pode se transformar em espaço de memória histórica. Sem discursos ou cartazes, sua caracterização levou milhares de pessoas a procurar quem foi Patrice Lumumba e por que sua imagem permanece tão presente entre os congoleses.

A homenagem ganha ainda mais significado porque o Congo continua ocupando posição estratégica na economia mundial em razão de suas reservas de minerais essenciais para baterias, carros elétricos, celulares, computadores e outras tecnologias de ponta. O debate sobre soberania e controle dessas riquezas permanece atual, mais de sessenta anos após a morte de Lumumba.

Nesse contexto, a Campanha Brasil Soberano e Congresso Amigo do Povo defende o fortalecimento da soberania nacional e da integração entre os países do Sul Global como instrumentos para ampliar a autonomia diante das grandes potências. A iniciativa propõe a construção de um Congresso Amigo do Povo e elabora um manifesto com participação de intelectuais, sindicalistas e lideranças populares. Os interessados podem conhecer e assinar o documento em campanhabrasilsoberano.com.br.