Luciano Simplício alerta para o peso do dinheiro e das fake news em 2026 e defende mobilização desde já para barrar retrocessos e pautar direitos no Congresso
O novo ano legislativo começou com discursos solenes em Brasília, mas, para o movimento sindical, o que está em jogo vai muito além do rito institucional. No Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o presidente da CTB-CE, Luciano Simplício, avaliou os embates do Congresso em 2026, o risco de chantagens políticas em ano eleitoral e os caminhos para recolocar direitos trabalhistas e proteção social no centro do debate público. Esta matéria foi produzida a partir do transcript do programa Democracia no Ar, da TV Atitude Popular.
Ao lado do comentarista Antonio Ibiapino, o sindicalista descreveu um cenário em que a disputa política tende a ser marcada por manipulação digital, poder econômico e guerra de narrativas. A preocupação, segundo ele, é que entregas concretas do governo e melhorias percebidas no cotidiano não sejam suficientes para neutralizar a máquina de desinformação e o peso do dinheiro na disputa.
“Não é a questão da entrega do governante que vai definir eleições. O que vai definir é conhecer o outro lado.”
“A população hoje tá mais acreditando em mentiras do que na verdade, mesmo sentindo isso no dia a dia.”
Ano legislativo começa, mas o Congresso “vive outra realidade”
A avaliação apresentada no programa é de que, embora o país tenha problemas urgentes e amplamente visíveis — como precarização do trabalho, ataques a direitos e violência contra mulheres — parte do Congresso opera como se estivesse em uma bolha. A leitura é de que, no Parlamento, muitas pautas caminham desconectadas da urgência social, enquanto temas estruturais viram moeda de troca.
Nesse ambiente, Luciano chamou atenção para o peso das emendas e da disputa orçamentária, alertando que a lógica do dinheiro tende a se intensificar em ano eleitoral.
“Não é hoje o voto, é o dinheiro. O dinheiro do contribuinte.”
“As grandes corporações se apoderaram dos orçamentos (…) porque a competição vai ser do dinheiro.”
“Não subestimar o adversário”: lições de Trump e da Argentina
Um dos alertas centrais do dirigente da CTB-CE foi contra a ideia de “já ganhou”. Para ele, a experiência internacional recente mostra que governos mal avaliados, ou com resultados negativos, ainda assim conseguem vencer se controlarem a narrativa, a propaganda e o ecossistema de desinformação.
“Nós não podemos subestimar o adversário.”
“O que aconteceu nos Estados Unidos (…) e agora na Argentina: governo desastroso e, mesmo assim, ganhou.”
Na avaliação do sindicalista, o bolsonarismo — e o campo conservador de forma mais ampla — vem fazendo propaganda permanente, inclusive fora do período eleitoral, enquanto setores progressistas oscilam entre confiar em dados de governo e reagir tardiamente às ofensivas.
“Isso já é propaganda eleitoral até fora de época.”
A ameaça da IA e o papel da militância na rua
Luciano também destacou que 2026 tende a ser um marco de transformação tecnológica no modo de fazer política: depois do ciclo do marketing e das fake news, a inteligência artificial pode amplificar a capacidade de produzir conteúdos falsos em escala, com aparência de verdade, velocidade e segmentação.
“Agora com certeza será a IA.”
“O Lula já disse isso: uma mentira, uma IA de última hora pode ganhar as eleições e colocar tudo um projeto desse de água abaixo.”
Nesse contexto, ele defendeu a reaproximação permanente com a população, com trabalho de base, conversa direta e presença cotidiana nos locais de trabalho e nos territórios.
“Nós devemos cada vez mais estarmos próximos da população, conversando, discutindo.”
“Do contrário, uma mentira pode vencer.”
Sindicatos “correndo atrás de salário”: o termômetro duro do Ceará
Ao trazer o debate para o chão do estado, Luciano relatou dificuldades que considera emblemáticas: em vez de sindicatos estarem dedicados a organizar luta política ampla, muitos estão absorvidos por batalhas emergenciais, como cobrar pagamento de salários atrasados de terceirizadas e pressionar por recomposição mínima no serviço público.
“Nos últimos meses, a luta principal dos nossos sindicatos é para os trabalhadores receberem salários.”
“Pela primeira vez na minha vida de sindicalista, eu vejo sindicalistas não estando podendo fazer política porque estão correndo atrás de salários.”
Essa pressão cotidiana, argumentou, desgasta, desmobiliza e abre espaço para que a desinformação prospere, justamente porque o trabalhador, no limite, reage ao que vê no bolso e ao que ouve no seu ambiente social imediato — e isso pode ser capturado por narrativas fabricadas.
6×1 como bandeira e a “formação” como saída da crise sindical
Ao ser provocado sobre a crise do movimento sindical, Luciano atribuiu parte do problema à falta de formação política e ao risco da acomodação quando governos aliados estão no poder. Para ele, sindicato é instrumento de organização permanente: a contradição existe “independente de quem está no governo”.
“A crise é de formação, de não entender o verdadeiro papel dos sindicatos.”
“A luta de classe acontece no dia, independente de quem tá no governo.”
Como caminho prático para 2026, ele apontou a agenda do fim da escala 6×1 como bandeira capaz de mobilizar e dialogar diretamente com a vida real, desde que seja assumida com força pelas entidades.
“O que pode levantar o moral dessa tropa é a questão do fim da escala 6×1.”
“Ir para as ruas, sem diminuir salários.”
Ibiapino: campanha “mais suja” e disputa por narrativa
Nos comentários, Antonio Ibiapino reforçou o tom de alerta, dizendo esperar uma eleição marcada por manipulação e cinismo institucional, e defendeu que rádios comunitárias e redes populares assumam o papel de “porta-vozes da verdade”, disputando informação e contexto.
“Será a campanha mais suja que o Brasil já viu.”
“Sejam porta-vozes da verdade. É um dever ético.”
No encontro entre as falas, a síntese é direta: 2026 tende a ser uma disputa dura, em que conquistas concretas podem ser invisibilizadas por narrativas fabricadas — e a resposta, para o sindicalismo, passa por mobilização, formação política e presença organizada no cotidiano.
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