Atitude Popular

“Vai ser muito importante ganhar essas eleições para resistir ao neoimperialismo dos Estados Unidos”

Professor Fábio Gentile analisa a retomada da Doutrina Monroe e alerta para novas formas de intervenção norte-americana na América Latina

Em entrevista ao programa Café com Democracia, transmitido pela TV Atitude Popular nesta quinta-feira (12), o sociólogo Fábio Gentile, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), analisou o que chamou de uma atualização da tradicional Doutrina Monroe. Para ele, a política externa dos Estados Unidos vive um novo momento de intervenção na América Latina, que pode ser interpretado como uma espécie de “Doutrina Monroe 2.0”.

Durante a conversa com o apresentador Luiz Regadas, Gentile explicou as origens históricas da doutrina formulada no início do século XIX e argumentou que sua lógica voltou a ganhar força em meio às tensões geopolíticas contemporâneas. Segundo ele, a estratégia norte-americana mantém elementos clássicos do imperialismo regional, mas adaptados às novas disputas políticas e econômicas.

Origem da Doutrina Monroe

De acordo com o professor, a Doutrina Monroe surgiu pouco tempo depois da independência dos Estados Unidos, no início do século XIX. À época, o objetivo central era impedir que as potências europeias voltassem a exercer influência sobre o continente americano.

A ideia era que a América fosse dos americanos”, explicou Gentile. Segundo ele, a formulação inicial tinha um caráter nacionalista e buscava preservar a autonomia política das recém-formadas nações americanas diante das monarquias europeias.

Com o passar das décadas, porém, essa doutrina foi sendo reinterpretada. O sociólogo destacou que, após a Guerra Civil norte-americana, os Estados Unidos passaram a desenvolver uma política externa mais ativa e intervencionista.

A qualidade da política externa norte-americana muda no final do século XIX, especialmente após a guerra de Cuba, em 1898, quando os Estados Unidos derrotam a Espanha”, afirmou.

Para Gentile, esse episódio marcou o início de uma nova fase de expansão política e econômica norte-americana no hemisfério ocidental.

O “imperialismo do dólar”

Segundo o professor, ao longo do século XX a Doutrina Monroe foi reinterpretada para justificar uma série de intervenções políticas e militares na América Latina.

Ele citou como exemplos as relações dos Estados Unidos com as ditaduras militares da região durante a Guerra Fria, incluindo os regimes instalados no Brasil, no Chile e na Argentina.

Nesse contexto, surgiu também o chamado “imperialismo do dólar”, estratégia baseada na influência econômica e financeira sobre os países latino-americanos.

A ideia de que a América Latina é o quintal dos Estados Unidos atravessa todo o século passado e aparece em inúmeros episódios de intervenção e violação da soberania nacional”, explicou.

A Doutrina Monroe 2.0

Para Gentile, o cenário geopolítico atual mostra sinais de uma atualização dessa lógica de influência.

Ele afirmou que a administração de Donald Trump teria retomado elementos da doutrina histórica, adaptando-os às disputas contemporâneas envolvendo segurança, narcotráfico e recursos energéticos.

Estamos assistindo a uma retomada da Doutrina Monroe pela administração Trump, com um projeto de intervenção nas questões nacionais dos países da América Latina”, disse.

Como exemplo, o professor mencionou a atuação dos Estados Unidos na Venezuela, que classificou como uma violação da soberania do país.

Segundo ele, o caso venezuelano ilustra como interesses estratégicos — especialmente relacionados ao petróleo — influenciam a política externa norte-americana.

Disputas geopolíticas e manipulação da opinião pública

Gentile também analisou o papel da comunicação e da narrativa política nas disputas internacionais. Na avaliação do sociólogo, os Estados Unidos utilizam estratégias de construção de opinião pública para legitimar suas ações no exterior.

Ele citou como exemplo o uso de argumentos relacionados ao narcotráfico para justificar intervenções.

O argumento de que determinados governos seriam responsáveis pelo narcotráfico lembra muito justificativas usadas em outros momentos da política internacional, como no caso do Iraque e das supostas armas de destruição em massa”, afirmou.

Para o professor, existe uma clara disparidade de tratamento entre diferentes países, conforme os interesses geopolíticos norte-americanos.

Brasil e a relação com Washington

Durante a entrevista, Gentile destacou que a relação entre Brasil e Estados Unidos possui características diferentes das de outros países latino-americanos.

Ele apontou fatores históricos, culturais e econômicos que influenciam essa dinâmica.

O Brasil tem a economia mais poderosa da América do Sul e possui soberania financeira maior que outros países da região, o que faz com que a relação com os Estados Unidos seja diferente”, explicou.

Mesmo assim, ele alertou para possíveis tentativas de interferência no cenário político brasileiro, especialmente em períodos eleitorais.

Segundo o sociólogo, temas como combate ao narcotráfico ou segurança regional podem ser utilizados como justificativa para pressões externas.

Eleições e resistência política

Ao final da entrevista, Gentile afirmou que o contexto político latino-americano atual é marcado pelo avanço de governos conservadores, o que torna as disputas eleitorais ainda mais estratégicas.

Vai ser muito importante ganhar essas eleições, porque a América Latina agora é um continente marcado pelo conservadorismo sob a hegemonia da doutrina Trump 2.0”, afirmou.

Para ele, a continuidade de governos progressistas pode representar uma forma de resistência ao que chamou de neoimperialismo norte-americano.

É importante conseguir um novo mandato de Lula e fortalecer a resistência a esse neoimperialismo dos Estados Unidos”, concluiu.


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