Necropolítica como método: Miguel do Rosário avalia a aposta da extrema direita e defende segurança pública com ciência e legalidade
A nova escalada do discurso “lei e ordem” após a megaoperação no Rio de Janeiro reacendeu um debate que ultrapassa a crônica policial e entra no coração da política brasileira: quem ganha com a barbárie? No Programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, o jornalista Miguel do Rosário analisou como massacres e “opções de força” são convertidos em capital eleitoral, enquanto o economista Fábio Sobral conectou a retórica punitivista a redes históricas de poder e dinheiro.
“Não é assim que se combate o crime”
Para Miguel do Rosário, a ultraviolência não é política de segurança, é agenda de campanha. Segundo ele, a matança “tem um efeito psicológico grande”, muda a pauta e arma “armadilhas retóricas para a esquerda”. Ao comparar modelos, o jornalista rechaçou a idealização do “método Bukele”: “El Salvador ficou conhecido apenas como uma grande prisão”. E cravou uma diretriz: “É a única maneira para se combater o mal através do conhecimento, não através da violência. Violência só gera violência.”
Em sua leitura, a operação ruidosa que interrompe cidade, fecha escolas e assusta trabalhadores não entrega segurança pública. “Houve uma grande sensação de insegurança. Colapsou a cidade”, pontuou. Ele sustenta que o caminho é inteligência, investigação, asfixia financeira, perícia, quebra de sigilos, infiltração e prisão dentro da lei. “Não é assim que se combate o crime […] é com ciência e civilização.”
A pedagogia da barbárie
A apresentadora Sara Goes lembrou que chacinas recorrentes às vésperas de eleições no Rio não são um acaso, mas um padrão “pedagógico” de disputa política. Miguel concordou: quando a direita “está nas cordas”, aciona a carta da pauta da violência para reposicionar seus quadros e testar consensos. Ele alertou, porém, para um efeito bumerangue: “Dessa vez eles queimaram a largada.” Antecipar a “solução” pela força dá tempo para o governo e o campo democrático organizarem uma resposta baseada em resultados e legalidade.
A economia política do punitivismo
O economista Fábio Sobral situou o problema num horizonte mais longo. “A extrema direita aparece como a única solução para a ordem, mas é historicamente associada ao crime”, afirmou, lembrando a “guerra às drogas” dos anos 1970, a expansão dos paraísos fiscais e as conexões entre repressão espetacular e negócios ilícitos. Para Sobral, o espetáculo sangrento faz três coisas ao mesmo tempo: rende dividendos eleitorais, coage grupos do varejo do crime e preserva estruturas superiores de receita ilícita.
Ele também criticou a cultura de operação sem inteligência: quando o Estado atira para matar, “queima arquivos”, perde informação, rebaixa a investigação e incentiva ciclos de vendeta que tornam a polícia e as periferias mais vulneráveis.
Democracia sob prova
Miguel insistiu que “a sociedade brasileira escolheu ser uma democracia” e que o enfrentamento ao crime precisa ser duro e legal: câmeras corporais, metas de prisão e não de morte, perícia independente, operações financeiras (tipo “Carbono Oculto”) que desmontem logística, lavagem e cadeia de comando. Há, diz ele, “uma fresta para a paz” em segmentos decisivos do eleitorado — especialmente entre mulheres — que rejeitam a lógica do abate e aceitam medidas eficazes que não suspendam o Estado de Direito.
O que fica
- Necropolítica como arma eleitoral: massacres e shows de força fabricam “provas” de autoridade, mas não reduzem estruturalmente o crime.
- Segurança com ciência: foco em inteligência, finanças do crime, prisão e prova — não em execuções.
- Disputa de narrativas: a esquerda precisa oferecer solução concreta, não só denúncia moral.
- Legalidade é estratégia: Estado de Direito não é frescor, é a ferramenta que gera prova, desarticula redes e devolve segurança pública.
“É com ciência e civilização” que se vira a página do varejo da morte, resumiu Miguel do Rosário. O resto é campanha.
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