Da Redação
Pesquisa Datafolha mostra percepção majoritária de confronto entre Congresso e governo Lula enquanto derrotas no Legislativo, pressão do mercado e avanço da extrema-direita aprofundam crise política em Brasília.
A relação entre o governo Lula e o Congresso Nacional entrou definitivamente numa fase de desgaste aberto perante a opinião pública brasileira. E os números começam a mostrar algo politicamente explosivo: a maioria da população passou a enxergar o Legislativo não como parceiro institucional do governo eleito, mas como uma força de bloqueio permanente contra o Executivo.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada neste domingo, 70% dos brasileiros avaliam que existe mais confronto do que colaboração entre o Congresso Nacional e o governo Lula. Apenas 20% enxergam cooperação efetiva entre os dois poderes.
O dado é devastador para o Parlamento.
Porque ele revela uma mudança importante na percepção popular:
parte crescente da população começa a associar o Congresso à ideia de sabotagem institucional.
E honestamente?
Brasília trabalhou duro para produzir essa imagem.
Nos últimos meses, o governo acumulou derrotas importantes dentro do Legislativo. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias ao STF, numa das maiores derrotas institucionais do atual mandato. O Congresso também derrubou medidas econômicas do Executivo, bloqueou alterações tributárias e ampliou sucessivos confrontos sobre orçamento, emendas parlamentares e políticas públicas.
O resultado foi uma deterioração acelerada da relação entre Planalto e Congresso.
Nas redes sociais, isso acabou se condensando num slogan que rapidamente viralizou:
“Congresso inimigo do povo”.
A frase inicialmente parecia apenas palavra de ordem militante.
Agora começa a ganhar sustentação estatística.
E talvez isso explique parte do nervosismo crescente dentro do centrão.
Porque existe um temor real entre parlamentares:
o de que a crise institucional se transforme numa disputa mais ampla sobre legitimidade popular do próprio Congresso.
O problema para o Legislativo é que muitos dos conflitos recentes ocorreram justamente em temas de enorme apelo social.
A redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1, por exemplo, passaram a enfrentar resistência explícita de setores da direita e de bancadas empresariais que tentam criar exceções para preservar jornadas longas em áreas consideradas “essenciais”.
Na prática, milhões de trabalhadores passaram a enxergar deputados e senadores como defensores diretos dos interesses patronais contra direitos sociais básicos.
Isso se soma ao desgaste provocado pelas emendas parlamentares, orçamento secreto, privilégios políticos e sucessivas disputas envolvendo verbas públicas.
A pesquisa Datafolha mostra ainda um detalhe particularmente importante:
entre aqueles que percebem mais confronto do que colaboração entre Lula e o Congresso, 89% avaliam que essa relação é negativa para o Brasil.
Ou seja:
o conflito deixou de parecer “normal” para grande parte da população.
Passou a ser interpretado como fator de paralisia nacional.
E isso produz consequências políticas enormes.
Nos bastidores do Planalto, existe a percepção de que Lula começa lentamente a se beneficiar dessa tensão institucional. O governo aposta que parte do desgaste econômico e político acumulado ao longo de 2025 pode ser parcialmente deslocado para o Congresso, especialmente se o Executivo conseguir consolidar a narrativa de que programas sociais, investimentos e reformas populares estão sendo bloqueados por interesses conservadores dentro do Legislativo.
A estratégia já aparece claramente na comunicação digital governista.
A disputa deixou de ser apenas:
“governo versus oposição”.
Agora tenta se transformar em:
“povo versus Congresso”.
E isso é extremamente perigoso para o sistema político tradicional.
Porque abre espaço para uma radicalização ainda maior da disputa institucional brasileira.
Existe outro elemento importante nessa crise:
a fragmentação ideológica do próprio Congresso.
Embora o governo Lula possua partidos formalmente aliados ocupando ministérios, parte expressiva dessas legendas vota sistematicamente contra o Planalto em temas econômicos e institucionais.
Na prática, Brasília vive uma situação quase esquizofrênica:
partidos governistas ocupam cargos no Executivo enquanto sabotam medidas do próprio governo no Parlamento.
Isso ajuda a explicar por que tantos brasileiros passaram a enxergar o Congresso como estrutura permanentemente tensionada contra o Executivo.
Ao mesmo tempo, o crescimento da extrema-direita dentro do Legislativo ampliou ainda mais o ambiente de confronto político. Parte significativa da bancada bolsonarista opera hoje numa lógica quase permanente de guerra cultural, obstrução institucional e radicalização digital.
O problema é que essa dinâmica começou a contaminar também setores do centrão.
E talvez seja justamente isso que esteja produzindo a sensação crescente de sabotagem institucional.
Porque o Congresso passou a funcionar menos como espaço clássico de negociação política e mais como arena contínua de bloqueio, chantagem orçamentária e disputa permanente por poder.
O cenário fica ainda mais delicado diante da proximidade das eleições de 2026.
A crise entre Executivo e Legislativo começa lentamente a se fundir à própria disputa eleitoral nacional.
Enquanto Lula tenta recuperar popularidade através de crédito popular, políticas sociais e programas de impacto econômico imediato, parte do Congresso parece apostar justamente no enfraquecimento político do governo para ampliar poder parlamentar e negociar melhores condições eleitorais.
É uma dinâmica perigosa.
Especialmente num país ainda profundamente marcado pela polarização pós-2016, pela radicalização digital e pelas tensões institucionais acumuladas desde a Lava Jato.
Talvez por isso a pesquisa Datafolha tenha produzido tanto impacto político em Brasília.
Porque ela mostra algo que muitos parlamentares temiam:
a percepção pública sobre o Congresso começa a se deteriorar rapidamente.
E quando a população passa a enxergar o Legislativo não como representação democrática, mas como obstáculo ao próprio país, a crise institucional deixa de ser apenas disputa política.
Ela começa a virar crise de legitimidade.












