Atitude Popular

“A briga é por grana mesmo”

Especialistas avaliam que tensão entre Estados Unidos e Venezuela mira petróleo, especulação financeira e controle da América do Sul, mais do que um ataque militar direto

Enquanto o noticiário internacional volta a acender o alerta para um possível confronto entre Estados Unidos e Venezuela, duas leituras se chocam: a de quem enxerga na escalada militar a antecâmara de uma guerra aberta e a de quem vê, por trás dos porta-aviões e das ameaças públicas, um gigantesco jogo de pressão econômica, disputa territorial e manipulação de mercado.

As análises foram feitas no programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, em edição apresentada por Sara Goes com a participação de Luciano Simplício, dirigente da CTB, e do economista Fábio Sobral, em transmissão ao vivo pelas redes comunitárias e pelo YouTube.

Logo na abertura do debate, antes de entrar na pauta internacional, os convidados situaram o momento político: prisão de militares golpistas, detenção de Jair Bolsonaro e a crise pública na direita brasileira, exposta no entrevero entre Michelle Bolsonaro, André Fernandes e Ciro Gomes. Para Luciano, o comportamento errático da extrema direita não é acidente, é método:

“O objetivo da extrema direita é um só. Não é políticas públicas, não é ver o povo bem, não. É o dinheiro, é a grana.”

A frase, que dá o tom da conversa, é o ponto de partida para entender também o que está em jogo na fronteira venezuelana.

Uma fera ferida e um império endividado

Ao analisar a situação interna dos Estados Unidos, Luciano Simplício lembrou que o governo Trump atravessa uma crise profunda de aprovação, com risco real de perder apoio no Congresso nas próximas eleições de meio de mandato. “A situação dele é terrível”, resume, definindo o presidente norte-americano como uma “fera ferida”, mais perigosa justamente porque sabe que está em declínio.

Mas, para o dirigente da CTB, isso não significa que um ataque direto à Venezuela seja o cenário mais provável. Ele insiste que a retórica belicista serve, sobretudo, para enriquecer ainda mais uma minoria bilionária:

“Há oito meses dizíamos que o primeiro trilionário chegaria daqui a dez anos. Hoje já chegou esse trilionário. (…) É aí que tá, né? Existe essa briga maior. Mas a briga é por grana mesmo.”

Sobral complementa a leitura com um dado que considera central: o que está em curso não é só intimidação militar, mas uma estratégia calculada de manipulação de preços de petróleo e ações em bolsas de valores. Segundo ele, Donald Trump aprendeu – e aperfeiçoou – o método de usar declarações explosivas para movimentar mercados e gerar lucros imediatos para o próprio círculo de aliados:

“Eles sabem antes o que é que vão fazer. Olha, amanhã eu vou fazer uma declaração bombástica sobre a Venezuela. Aí eu compro barris de petróleo em contratos futuros. No outro dia, o Trump solta a declaração, o petróleo sobe. Eu vendo no dia seguinte. Se eu compro 50 milhões de barris e ele sobe quatro dólares, eu ganho 200 milhões de dólares em um dia.”

América do Sul no centro do tabuleiro

Para além da Venezuela, Fábio Sobral argumenta que a disputa é, na verdade, por controle estratégico da América do Sul, região que reúne água, alimentos, minerais estratégicos e petróleo – tudo o que o capitalismo em crise precisa desesperadamente.

Ele destaca de forma didática como o Brasil se tornou peça-chave na relação com a China: quatro portos – Santos, Tubarão, Itaqui e Paranaguá – concentram o escoamento de soja e minério de ferro fundamentais para a economia chinesa. Um bloqueio articulado, combinado a ações militares e financeiras, poderia desestabilizar não apenas Caracas, mas Pequim.

“O Brasil é central nesse projeto de domínio estratégico. O golpe de 2016 já foi parte disso”, lembra Sobral, ao situar a ofensiva contra governos progressistas latino-americanos dentro de uma estratégia de longo prazo de Washington.

Luciano traz outro elemento para o quadro: a reação dos BRICS e, em especial, de China e Rússia. Ele argumenta que nenhuma das duas potências aceitará passivamente que os Estados Unidos se apropriem, sozinhos, das riquezas da região:

“A própria Rússia e a China não vão ficar paradas vendo os Estados Unidos pegar toda essa riqueza. Se os Estados Unidos ficarem com essas riquezas, acabam com a China, com a Rússia, com a Índia, com todo mundo. Por isso é que eu não acredito nessa invasão, nessa guerra. É tensionamento diário para poucos ganharem muito dinheiro.”

Venezuela: elo fraco ou armadilha?

Na leitura de setores da defesa norte-americana, explica Sobral, a Venezuela aparece como o “elo mais fraco” da cadeia sul-americana: economia fragilizada por bloqueios, forte dependência do mercado externo de petróleo e gargalos de abastecimento. Isso tornaria o país, em tese, um alvo “mais fácil” do que um confronto direto com Brasil ou Argentina.

O economista, no entanto, alerta para o erro dessa subestimação. Ele lembra que a Venezuela se armou ao longo dos últimos anos com sistemas antiaéreos russos e chineses, como os S-300 e os HQ-9, capazes de neutralizar a principal vantagem dos EUA: o poder aéreo, inclusive de aviões furtivos F-35 lançados de porta-aviões.

Ele recorda episódio em que bombardeiros B-52 recuaram ao se aproximar da costa venezuelana, após serem detectados pelos radares de defesa, e cita a derrubada recente de um avião que entrou pelo lado amazônico, interpretando o fato como um recado claro de Caracas: o espaço aéreo está monitorado de todos os flancos.

“Militarmente seria uma operação arriscadíssima, de perdas enormes. A Venezuela possui sistemas de ataque a navios, sistemas antiaéreos avançados, e há fortes indícios de presença russa direta na operação dessas defesas”, avalia Sobral.

Um dos exemplos citados no programa é a atuação do grupo Wagner, organização paramilitar russa que, segundo o economista, estaria na Venezuela para proteger Maduro de eventuais operações especiais com helicópteros e fuzileiros navais. A simples possibilidade dessa presença, reforça, tem efeito dissuasório.

O mito do isolamento venezuelano

Sara Goes provocou os convidados com uma pergunta que também circula na mídia brasileira: a Venezuela foi abandonada pela Rússia? A hipótese, repetida inúmeras vezes como se fosse consenso, foi frontalmente contestada pelos analistas.

Sobral lembrou que Maduro ocupou lugar de destaque nas comemorações russas da Segunda Guerra, ao lado de Xi Jinping e Kim Jong-un, e que a Venezuela é defendida quase diariamente no Parlamento russo.

“Há um sentimento forte na Rússia de que uma guerra na Venezuela é semelhante a um ataque à própria Rússia”, afirma. “Faz parte de um jogo cada vez mais perigoso, que se espalha por vários cenários do mundo.”

Para Luciano, a própria estrutura do bloco liderado por China e Rússia impede que Caracas seja deixada à própria sorte. Ele cita a compra massiva de ouro por Moscou, preparada silenciosamente ao longo de anos, como um dos movimentos mais importantes para desafiar a hegemonia do dólar:

“Hoje a Rússia está abarrotada de ouro. Na hora que o Putin quiser dar o xeque-mate, é só dizer que vai garantir as transações comerciais em ouro. O dólar não tem lastro. Aí muda tudo.”

Guerras, mercados e ficção científica

Em meio à análise dura de dados militares, corredores diplomáticos e fluxos financeiros, o programa também recorreu à cultura para ilustrar o que está em jogo. Sara resgatou o livro “O fim da infância”, de Arthur C. Clarke, em que naves gigantes estacionam silenciosamente sobre grandes cidades e, sem atirar um único tiro, reconfiguram toda a política planetária apenas pela ameaça de seu poder.

A comparação é direta: os porta-aviões norte-americanos no Caribe funcionam, hoje, como aquelas naves de ficção científica – um instrumento de pressão psicológica global, que reorganiza alianças, movimenta mercados e testa os limites da Rússia e da China. A simples possibilidade de um ataque altera prioridades internas de países, realoca investimentos, espalha medo e incerteza.

Sobral reconhece que os Estados Unidos ainda têm orçamento militar para ataques pontuais, mas destaca que o problema não é começar, e sim terminar uma guerra contra a Venezuela:

“Eles podem atacar, mas não teriam um exército terrestre capaz de sustentar um combate de longo prazo naquele terreno. Seria um Vietnã para eles.”

Solidarity, capitalismo e o papel dos povos

Ao final do programa, a discussão geopolítica volta ao chão da vida cotidiana. Luciano lembra a cena recente em Fortaleza, quando um hospital pegou fogo e comerciantes da Praça da Lagoinha retiraram seus produtos para ceder espaço e energia elétrica às incubadoras de recém-nascidos.

“Isso vem provar que a população, os humanos, é para serem solidários, ajudar uns aos outros. Infelizmente, esse sistema falido, chamado capitalismo, faz com que trabalhador seja inimigo de trabalhador. Por isso nós temos que estar juntos, fortes, para construir uma sociedade justa e igualitária.”

A frase ecoa Rosa Luxemburgo, citada pelo dirigente: “ou o socialismo ou a barbárie”. Para ele, a ofensiva de Trump na Venezuela, a especulação em cima do petróleo, o avanço sobre recursos sul-americanos e a corrida armamentista apontam para o lado da barbárie – mas a resistência popular, a organização dos trabalhadores e a articulação internacional dos países do Sul ainda podem deslocar esse eixo.

No último comentário, Luciano deixa um aviso que vale como síntese da conversa:

“Para se iniciar uma guerra, a primeira coisa que é morta é a verdade.”

Entre porta-aviões no Caribe, contratos futuros de petróleo em Nova York e debates transmitidos por rádios comunitárias no Ceará, a disputa sobre o que é verdade – e sobre quem lucra com a mentira – continua sendo uma das frentes mais decisivas desta batalha que, por enquanto, se trava no campo das ameaças.

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(649) A ameaça de guerra: Venezuela x Estados Unidos – YouTube
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