Atitude Popular

“Agroecologia é um compromisso com a vida, com as águas e com o alimento saudável”

Presidente da Fundação Cepema explica a criação da primeira cooperativa agroecológica do Ceará e defende a ampliação do acesso a alimentos sem agrotóxicos

A criação da primeira cooperativa de base estadual dedicada à agroecologia no Ceará representa um novo passo na organização de agricultores familiares, consumidores e pesquisadores comprometidos com a produção de alimentos saudáveis. O tema foi debatido no programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na TV Atitude Popular, que recebeu o presidente da Fundação Cepema, Adalberto Alencar, para explicar a iniciativa e os caminhos para fortalecer a produção agroecológica no estado.

Durante a entrevista, Alencar apresentou o conceito de agroecologia e destacou sua dimensão científica, social e ambiental. Para ele, mais do que uma técnica agrícola, trata-se de um compromisso ético com a sustentabilidade do planeta e com a saúde da população.

A agroecologia é um compromisso com a vida, com a vida dos seres humanos, das águas, do ar e principalmente com a vida daqueles que precisam ter acesso a alimentos saudáveis”, afirmou.

Segundo o dirigente, a agroecologia reúne diferentes dimensões de conhecimento. Ela pode ser entendida como um campo científico consolidado ao longo de mais de 50 anos de pesquisas em todo o mundo, como um modo de vida adotado por agricultores e agricultoras e também como um sistema produtivo regulamentado por normas legais voltadas à produção orgânica e ecológica.

Origem da cooperativa agroecológica

A criação da cooperativa é resultado de um processo de articulação iniciado há décadas pela Fundação Cepema, organização que atua há 36 anos no Ceará apoiando agricultores familiares por meio de assistência técnica, capacitação, educação e fortalecimento da comercialização de alimentos.

Dentro desse processo, foi criada há oito anos a Rede Ecoceará, uma articulação que reúne produtores, consumidores, pesquisadores e apoiadores da agroecologia. A rede nasceu durante um encontro realizado em Ubajara com cerca de 100 participantes e tinha como objetivo ampliar a produção e democratizar o acesso a alimentos livres de agrotóxicos.

Ao longo do tempo, a iniciativa ganhou escala. Em 2019, a rede realizou seu primeiro congresso reunindo mais de 400 agricultores, associações e organizações do setor. Desde então, o movimento vem fortalecendo seus mecanismos de organização, certificação e comercialização.

O passo seguinte foi a criação de um sistema próprio de certificação participativa, reconhecido pelo Ministério da Agricultura. Esse mecanismo garante ao consumidor que os produtos comercializados são realmente orgânicos e produzidos dentro dos critérios agroecológicos.

“Hoje nós temos uma rede, temos uma certificadora participativa e agora estamos criando a primeira cooperativa agroecológica de base estadual do Ceará”, explicou Alencar.

Combate aos atravessadores e fortalecimento da produção

De acordo com o presidente da Fundação Cepema, um dos principais objetivos da cooperativa é ampliar o acesso ao mercado e reduzir a dependência de atravessadores que frequentemente pagam valores baixos aos produtores.

Agricultores espalhados por diversas regiões do estado, como Ibiapaba, litoral leste e oeste, serra de Baturité e sertão central, já integram a rede agroecológica. Muitos deles, no entanto, ainda têm dificuldades para escoar a produção diretamente ao consumidor.

“Temos agricultores no interior de Banabuiú, de Viçosa do Ceará, de São Benedito, que acabam repassando a produção para atravessadores e recebem bem menos do que poderiam ganhar”, afirmou.

A cooperativa deverá atuar justamente na organização dessa cadeia de comercialização, ampliando feiras agroecológicas, participando de programas públicos de compra de alimentos e abrindo novos canais de distribuição.

Entre as metas futuras está a criação de uma central de distribuição de produtos orgânicos e agroecológicos no estado, além de pequenos pontos de venda e até um supermercado voltado exclusivamente para alimentos saudáveis.

Preços altos e acesso restrito

Apesar do crescimento da produção agroecológica no Ceará, Alencar observa que o acesso aos alimentos orgânicos ainda é limitado para boa parte da população.

Hoje, segundo ele, a maior parte da venda de produtos orgânicos na região metropolitana de Fortaleza ocorre dentro de supermercados. O problema é que os preços costumam ser elevados, restringindo o consumo a uma parcela menor da sociedade.

“Um tomate cereja orgânico pode chegar a custar 30 reais o quilo no supermercado. Isso torna o alimento inacessível para grande parte da população”, explicou.

Para enfrentar essa desigualdade, a rede aposta no fortalecimento de feiras agroecológicas e na organização coletiva dos produtores, permitindo reduzir custos e aproximar quem produz de quem consome.

Agroecologia e crise climática

Outro ponto destacado durante a entrevista foi o papel da agroecologia no enfrentamento das mudanças climáticas. De acordo com Alencar, a agricultura convencional baseada em agrotóxicos e fertilizantes químicos é responsável por grande parte das emissões de gases de efeito estufa.

A agroecologia, ao contrário, reduz drasticamente esse impacto ambiental.

A agroecologia diminui em até 90% a emissão de gases de efeito estufa em comparação com a agricultura química convencional”, afirmou.

Além disso, o modelo agroecológico contribui para preservar solos, proteger recursos hídricos e evitar a contaminação de trabalhadores rurais e consumidores.

Ele lembrou que a contaminação por agrotóxicos é um problema crescente no Brasil, afetando inclusive fontes de água em áreas rurais.

Formação e capacitação de agricultores

A Fundação Cepema também atua fortemente na formação de agricultores e agricultoras interessados em migrar para a produção agroecológica. Cursos presenciais e online são oferecidos gratuitamente, abordando temas como agrofloresta, manejo de pragas, mudanças climáticas e técnicas de transição da agricultura convencional para sistemas sem agrotóxicos.

Segundo Alencar, o processo de conversão pode ocorrer de forma relativamente rápida quando há acompanhamento técnico.

“Em três a seis meses a família já começa a produzir com segurança, produtividade e sem veneno”, afirmou.

A organização também realiza intercâmbios, troca de sementes e projetos voltados especialmente para mulheres agricultoras que desejam iniciar a transição para a agroecologia.

Agroecologia urbana em Fortaleza

Além da produção rural, a rede também pretende ampliar iniciativas de agroecologia urbana em Fortaleza. A proposta inclui a criação de hortas comunitárias certificadas e a instalação da primeira cozinha regenerativa comunitária do Ceará, voltada para a preparação de alimentos saudáveis.

A iniciativa busca aproximar produtores e consumidores, fortalecer a cultura alimentar regional e estimular uma gastronomia comprometida com a saúde e com o meio ambiente.

“É uma gastronomia que é boa para o planeta, boa para os seres vivos e boa para a vida”, afirmou.

Para Alencar, a transição para sistemas alimentares sustentáveis não é apenas uma escolha agrícola, mas uma necessidade diante das crises climáticas, ambientais e de saúde pública que se intensificam no mundo.

“É uma emergência civilizatória que a gente transite para uma agricultura agroecológica”, concluiu.

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