Entrevista com o professor Osmar de Sá Ponte e análise de Marcelo Uchôa discutem memória, censura e como o cinema reabre a ferida democrática que o país ainda não fechou
A matéria a seguir foi produzida a partir da transcrição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, disponível no YouTube, no episódio “Da Sombra da Ditadura aos Holofotes da Sétima Arte”. O debate reuniu o professor Osmar de Sá Ponte e Marcelo Uchôa para analisar como a memória da ditadura atravessa o presente, volta a tensionar a política e encontra, no cinema, uma forma poderosa de disputa pública do passado.
Ao discutir o impacto recente de obras audiovisuais que retomam os anos de chumbo — e, principalmente, a recepção dessas narrativas entre jovens — os convidados sustentaram que o Brasil vive um momento de reativação da memória política não por nostalgia, mas por necessidade: quando a democracia é atacada, a história deixa de ser arquivo e volta a ser ferramenta de sobrevivência.
Da arte como lembrança à política como urgência
Para Osmar de Sá Ponte, a crise de liberdade e o avanço de pautas autoritárias não são um fenômeno isolado do Brasil: fazem parte de uma conjuntura global, marcada por disputas econômicas e deslocamentos de poder no sistema internacional. Na avaliação do professor, a arte — e em especial o cinema — assume uma função que ultrapassa o entretenimento: torna-se registro, alerta e formação histórica.
“Mais do que um cinema, mais do que arte… ela é história, ela é uma lembrança, ela é uma memória”, afirmou, ao defender que a sociedade precisa manter viva a recordação de períodos de exceção, justamente porque o esquecimento abre caminho para repetição. Para ele, regimes autoritários corroem não apenas direitos políticos, mas a própria capacidade de uma sociedade produzir oportunidades, diversidade e inclusão.
O professor também destacou que a democracia não pode ser reduzida ao jogo partidário: ela se materializa em políticas públicas e conquistas coletivas. Citou avanços que, em sua leitura, só se consolidaram plenamente num ambiente democrático — como a universalização de direitos, a ampliação de acesso e a criação de estruturas como o sistema público de saúde. E concluiu que sem democracia não existe política saudável: há apenas força, coerção e silêncio.
“A imprensa livre e a ciência” como alvos do autoritarismo
Marcelo Uchôa apontou que, em ciclos autoritários, as instituições que produzem evidência e crítica se tornam inimigas prioritárias: imprensa livre, ciência, universidade e o próprio debate público. Ele lembrou o patrulhamento ideológico vivido em ambientes acadêmicos, inclusive no período recente, e afirmou que a tentativa de controlar o que professores dizem em sala de aula mira, no fundo, a destruição da criticidade social.
Ao analisar a lógica das narrativas autoritárias, Osmar reforçou que o fascismo opera por inversão: proclama valores enquanto pratica o oposto. Segundo ele, a retórica da liberdade pode ser usada para restringir liberdades concretas — especialmente de minorias — e para forjar consensos artificiais, “pondo maioria contra minorias” e desidratando a pluralidade.
Cinema e ditadura: três filmes, três chaves de leitura
O debate avançou sobre o papel do cinema na reconstrução democrática e sobre como diferentes obras iluminam aspectos distintos do período.
Marcelo Uchôa citou o impacto de Ainda Estou Aqui ao mostrar, em linguagem acessível e contundente, como a violência estatal atravessa o cotidiano — não apenas militantes, mas famílias inteiras. Na interpretação dele, o filme ajuda a romper uma fantasia perigosa: a de que “ditadura” seria apenas um tema do passado, sem consequências no presente.
Ele também comparou abordagens: Marighella contaria a trajetória de uma figura política específica, enquanto O Agente Secreto funcionaria como um retrato “na ditadura”, mostrando a vida clandestina, a atmosfera de medo, o autoritarismo policial e a violência normalizada nas ruas.
“O filme… mostra como é a vida clandestina durante a ditadura”, disse Uchôa, ao explicar que a obra coloca o espectador dentro do tempo histórico, com detalhes da cidade, da imprensa, do terror e da brutalidade como paisagem.
Mas foi ao falar da dimensão estrutural — e muitas vezes varrida para baixo do tapete — que ele lançou a frase mais dura e direta:
“A ditadura foi profundamente corrupta.”
Na visão do advogado, a insistência em tratar regimes autoritários como “ordem” ou “moralidade” apaga o fato de que a exceção também produz corrupção, favorecimentos, blindagens e distorções institucionais que permanecem como herança no Estado e nas elites.
Por que os jovens entraram nessa conversa
Um dos pontos mais relevantes foi a percepção de que esses filmes encontraram eco forte entre jovens — com engajamento orgânico nas redes, reaproveitamento de símbolos, debates e até desdobramentos culturais como fantasias de carnaval. Para Uchôa, isso se explica porque a juventude reconhece, nessas narrativas, algo que fala diretamente ao seu presente: medo, controle, patrulhamento, perseguição e sufocamento da vida cotidiana.
Ele argumentou que obras sobre a ditadura não são “peças de museu”: são instrumentos para impedir a normalização do autoritarismo. E ressaltou que a Espanha, por exemplo, segue produzindo filmes sobre sua guerra civil ano após ano — não por fetiche, mas por compromisso com a memória pública.
Democracia como pacto mínimo, não como luxo
Osmar de Sá Ponte defendeu que a democracia é o terreno onde divergências podem ser elaboradas sem violência, e onde a sociedade consegue construir projetos coletivos capazes de incluir mais gente. Ele citou como exemplo simbólico a composição política que sustentou a eleição de 2022, destacando que, diante do risco autoritário, setores distintos foram empurrados a uma convergência democrática.
“Não existe política saudável se não existir no contexto de democracia”, afirmou, argumentando que, sem isso, não há pluralidade real: há imposição.
A entrevista terminou com uma síntese compartilhada pelos convidados: recontar a história não é fixação no trauma — é fechamento de porta. Porque, se a porta não fecha, o autoritarismo volta a rondar como possibilidade.
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(117) Da Sombra da Ditadura aos Holofotes da Sétima Arte – YouTube
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