Atitude Popular

“A história ocorre duas vezes, uma vez como tragédia e outra como farsa”

Economista Fábio Sobral analisa o caso Banco Master e alerta para riscos de repetição do método Lava Jato, com uso político da mídia, distorção de fatos e ameaça à estabilidade institucional

A matéria a seguir foi produzida a partir da transcrição do programa Democracia no Ar, da Rádio e TV Atitude Popular, disponível no YouTube, no episódio “Banco Master: O Remake da Lava Jato”. O debate contou com a participação do economista Fábio Sobral, que analisou o escândalo financeiro envolvendo o Banco Master como parte de uma engrenagem política, midiática e institucional já conhecida no país.

Ao longo da entrevista, Sobral sustentou que o caso vem sendo deliberadamente enquadrado como uma crise de governo, apesar de envolver governadores, parlamentares do Centrão, fundos de previdência estaduais, instituições financeiras privadas e decisões tomadas fora do Executivo federal. Para ele, o que está em curso é uma tentativa de reeditar o roteiro que marcou a Operação Lava Jato: seleção dirigida de alvos, blindagem de aliados estratégicos e fabricação de um ambiente de comoção moral capaz de produzir efeitos eleitorais.

O escândalo que não vira manchete

Segundo o economista, os fatos centrais do caso Banco Master foram empurrados para fora do foco da grande imprensa. Entre eles, destacou a relação direta entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, envolvendo encontros sucessivos e tratativas para a venda do banco ao BRB. Apesar da gravidade, esses elementos não se tornaram o eixo da cobertura.

“O grande escândalo é a conexão entre o governador do Distrito Federal e essa fraude financeira gigantesca”, afirmou Sobral, ao apontar que, em vez disso, veículos de alcance nacional passaram a buscar vínculos indiretos, frágeis ou inexistentes com o governo federal e com ministros do Supremo Tribunal Federal.

Para ele, essa escolha não é casual, mas parte de uma estratégia clássica de deslocamento do foco: “Eles escolhem o que vai virar manchete e o que vai desaparecer”.

Um enredo conhecido

Ao comparar o momento atual com o período pré-2016, Sobral foi direto: “As coisas estão se repetindo”. Na sua análise, o método envolve criar uma narrativa permanente de crise, alimentada por vazamentos seletivos, fontes ocultas e insinuações sucessivas, até que a percepção pública se sobreponha aos fatos objetivos.

Ele lembrou que, no caso da Lava Jato, a combinação entre força-tarefa judicial e imprensa corporativa produziu um ambiente de exceção, que abriu caminho para o impeachment de Dilma Rousseff e para a eleição de Jair Bolsonaro. Agora, o risco seria semelhante, ainda que em contexto distinto.

“A Lava Jato deu certo para derrubar a presidente Dilma e para eleger Bolsonaro. Agora querem fazer a mesma coisa”, alertou.

Blindagens e silêncios

Sobral chamou atenção para o silêncio em torno de personagens centrais que, segundo ele, deveriam estar no centro do noticiário. Citou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, apontado como beneficiário de financiamento ligado ao Banco Master; o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, relacionado ao uso de recursos da RioPrevidência; e lideranças do Congresso como Arthur Lira, Hugo Motta e Davi Alcolumbre.

“Ninguém fala nesses nomes. Eles desaparecem da narrativa”, afirmou, ao definir o movimento como uma “operação abafa”.

Também citou o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, a quem atribuiu responsabilidade direta pela falta de regulação que permitiu a proliferação de papéis fraudulentos no mercado financeiro. “Ele sabia de tudo e empurrou com a barriga”, disse.

CPMI como espetáculo

Outro ponto central da análise foi a possibilidade de instalação de uma CPMI sobre o Banco Master. Para Sobral, comissões parlamentares desse tipo não são, em si, instrumentos de investigação, mas arenas midiáticas. O risco, segundo ele, está em permitir que a apuração seja conduzida justamente por atores que deveriam ser investigados.

“A CPMI não é um mecanismo de investigação. Ela é um mecanismo midiático”, afirmou. E acrescentou: “Não sou contra investigação. Sou contra uma CPMI controlada por quem precisa desviar o foco”.

Na sua avaliação, a Polícia Federal já atua sem restrições e com profundidade, enquanto uma CPMI poderia servir para confundir, selecionar depoentes e produzir narrativas políticas em ano eleitoral.

Influencers, imprensa e dinheiro

Sobral também destacou a descoberta de pagamentos a influenciadores digitais — inclusive de áreas sem qualquer relação com economia ou finanças — para defender o Banco Master nas redes sociais. Para ele, esse dado revela o grau de profissionalização da operação de comunicação.

“Quem garante que parte da grande imprensa não esteja recebendo estímulos semelhantes?”, questionou, sem fazer acusações diretas, mas apontando a simetria entre o comportamento digital e a cobertura jornalística.

Ao comparar o momento atual com o auge da Lava Jato, foi ainda mais duro: “Naquela época, eles diziam que a fonte era o juiz de Curitiba. Hoje, eles são os próprios Sérgio Moros”.

Tragédia, farsa e eleição

Ao recorrer à célebre formulação de Karl Marx, Sobral resumiu o momento político como uma repetição degradada de um roteiro já conhecido. Para ele, o país vive agora a farsa de um processo que, no passado, produziu danos reais à economia, às instituições e à democracia.

“As eleições deste ano são decisivas”, afirmou, ao alertar que o objetivo final da narrativa não é o combate à corrupção, mas a reorganização do campo político para viabilizar projetos de poder específicos.

Na conclusão, defendeu que reconhecer os sinais é essencial para não repetir os erros do passado: “Cuidado. É o mesmo esquema”.


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