No Café com Democracia, o engenheiro civil Martiniano Cavalcante afirma que a automação e a inteligência artificial empurram o capitalismo para um impasse histórico e defende controle social da tecnologia e redução radical do tempo de trabalho
A edição de 22 de janeiro do Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, colocou no centro do debate uma pergunta que atravessa o cotidiano de milhões de pessoas: o que acontece com a vida social quando o trabalho deixa de organizar o tempo, os vínculos e o horizonte de futuro? Apresentado por Luiz Regadas, o programa recebeu o engenheiro civil Martiniano Cavalcante, que articulou uma leitura histórica do trabalho, da Revolução Industrial à era digital, para sustentar que o avanço tecnológico está reduzindo o emprego e ampliando a exclusão, intensificando a violência social e empurrando o mundo para uma encruzilhada política.
A conversa foi transmitida pela Rede de Comitês Populares pela Democracia e retransmitida por emissoras comunitárias, com participação do público nas redes. O debate, exibido pela TV Atitude Popular, foi conduzido como uma entrevista aberta, com comentários dos espectadores e chamadas para apoio ao projeto. A seguir, os principais trechos e argumentos da entrevista, conforme o conteúdo apresentado no programa Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular.
Militância, ruptura partidária e o foco na defesa de direitos
Antes de entrar no tema, Martiniano fez uma apresentação pessoal e política. Disse ter iniciado a militância nos anos 1970, em dissidência do PCB, e relatou passagem por diferentes organizações e partidos ao longo de décadas. “Eu comecei a minha militância nos anos 70… trabalhei sempre a perspectiva da construção de uma outra sociedade que não fosse baseada na exploração do trabalho”, afirmou.
Ele listou participação na fundação da CUT e atuação em estruturas nacionais da central, além de experiências partidárias e dissidências, mencionando PSTU, PSOL e Rede. Ao situar o próprio deslocamento político após o impeachment de Dilma Rousseff e a escalada da extrema direita, explicou por que decidiu abandonar a militância partidária: “Quando houve a emergência do fascismo… eu vi que… não havia nenhuma possibilidade disso. Então, deixei a militância partidária… Isso foi 2016… 2014, quando começa o ataque ao governo da Dilma”.
Do trabalho “ontológico” ao trabalho assalariado: a mudança do eixo social
Para Martiniano, a crise do trabalho hoje não pode ser compreendida apenas como desemprego. Ele propôs distinguir o trabalho como mediação humana com a natureza e consigo mesmo — “o trabalho ontologicamente” — do trabalho produtivo assalariado, que se consolida como “fonte da riqueza” no capitalismo.
“O trabalho é a mediação do ser humano consigo mesmo… e também com a natureza”, disse, lembrando que coletar, caçar, aprender a nadar ou caminhar são formas de relação ativa com o mundo. A virada histórica, segundo ele, é que a industrialização e, depois, a digitalização reduziram progressivamente a necessidade de trabalho humano direto para produzir mais.
Produtividade, automação e o “impasse” do capitalismo
A entrevista ganhou densidade quando o convidado exemplificou a lógica da produtividade por meio de cenas simples — uma máquina de descascar laranja, moer cana, abrir massa de pastel. Para ele, a tecnologia se torna “extensão” do corpo e do cérebro humanos, produzindo uma vantagem competitiva que elimina o concorrente menos produtivo e concentra capital.
Ao conectar esse processo à história das revoluções industriais, Martiniano argumentou que a sociedade entrou em uma fase em que a ciência e a cognição passam a dominar diretamente a produção: “Nós chegamos à era da vida dominada pela capacidade cognitiva… a capacidade da ciência diretamente no processo produtivo”.
O resultado, segundo ele, é uma contradição estrutural: mais produtividade com menos trabalho necessário. “O trabalho produtivo… vai se tornando algo marginal, supérfluo”, afirmou, citando a inteligência artificial como acelerador desse deslocamento.
“Mais de 4 bilhões de pessoas fora do mundo do trabalho”
Martiniano sustentou que o avanço tecnológico, combinado à lógica de lucro, produz um “massacre social” e empurra bilhões para ocupações precárias ou para a exclusão. Em um dos trechos mais fortes, afirmou: “Nós temos mais de 4 bilhões de pessoas fora do mundo do trabalho”.
No caso brasileiro, apresentou números para ilustrar a contradição entre a população apta a trabalhar e os empregos formais. “No Brasil nós temos uma população economicamente ativa… de 110 milhões… e somente 39 milhões… tem carteira assinada”, disse, estimando que dezenas de milhões sobrevivem de bicos, informalidade e trabalhos de rua: “Ele se vira nos 30”.
A partir daí, o convidado associou o cenário ao aumento de conflitos, violência e disputa política por saídas autoritárias. Para ele, “o capital… está trabalhando por uma sociedade fascista” como forma de preservar privilégios em um mundo de exclusão massiva e concentração de riqueza.
Bilionários, indústria da consciência e o medo como governo
Na entrevista, Martiniano citou a Oxfam ao mencionar a concentração global de riqueza e defendeu que, diante do abismo social, apenas um regime “extremamente violento” conseguiria estabilizar o domínio do capital. Ele descreveu essa engrenagem como uma combinação de repressão e manipulação — “uma verdadeira indústria da consciência” — capaz de “dominar o cérebro das pessoas” em meio ao desespero social.
Nesse ponto, o programa também tocou na forma como a indústria cultural e informacional molda crenças. Luiz Regadas observou que a cultura de massa frequentemente retrata o comunismo como ameaça maior que o capitalismo, e Martiniano respondeu que a consciência não comanda o mundo de forma abstrata: “Não é a consciência humana que define a realidade, é a realidade que define a consciência humana”.
“Taxar super-ricos” não basta, diz entrevistado
Provocado por Luiz sobre se recursos de guerra ou taxação de bilionários poderiam reduzir desigualdade e violência, Martiniano rejeitou a ideia como solução real. “Nenhuma dessas medidas… são completamente ilusórias… nem paliativas elas são”, afirmou.
Ele explicou que propostas de reforma dentro do capitalismo — inclusive a socialdemocracia europeia — já mostraram limites. “Essa ideia de um capitalismo harmonioso… faliu”, disse. E fez uma crítica à esquerda brasileira por concentrar pautas em medidas “que cabem dentro desse sistema”, “imaginando que será possível”.
Ao comentar o impacto político do combate à pobreza nos governos do PT, foi incisivo: “Lula foi pra cadeia por causa disso, literalmente… se tiverem a oportunidade, não vão mandá-lo para cadeia, vão matar”, afirmou, em referência à escalada de ódio e violência política.
A encruzilhada: “barbárie” ou “comunismo”
É nesse contexto que Martiniano apresentou sua tese mais contundente, que virou o eixo filosófico do programa: “A humanidade está entre uma disjuntiva ou a barbárie fascista e capitalista ou o comunismo”.
Ele argumentou que “nunca existiu o comunismo” no sentido pleno, mas sim “regimes estatizantes, regimes estatais”. Ainda assim, defendeu que a única saída civilizatória para um mundo em que o trabalho assalariado se torna escasso é reorganizar produção e tecnologia sob outro paradigma, orientado à vida e não ao lucro.
Redução do tempo de trabalho e controle social da tecnologia
Ao encaminhar propostas, Martiniano defendeu um conjunto de medidas estruturais: “Redução do tempo de trabalho sem redução de salário… e o controle dessa indústria das tecnologias”. Para ele, a pauta central do país deveria ser como controlar o avanço tecnológico para libertar tempo e ampliar educação, cultura e bem-estar, em vez de aceitar um futuro de desemprego e precarização.
O convidado citou a discussão sobre data centers no Ceará como exemplo de encruzilhada: o estado pode ganhar poder estratégico ou virar fornecedor de recursos (“sol, vento, água”) para conglomerados que “nos deixam no lixo”, caso não haja planejamento público.
Também criticou comemorações que tomam aumento de carteira assinada como vitória definitiva quando o país ainda convive com massa de vulnerabilidade. “Isso não é um motivo de comemoração, pelo amor de Deus”, disse, ao comentar a comparação entre empregos formais e beneficiários de programas sociais.
Marx, século XIX, e a pergunta que virou jogo no estúdio
Em um momento leve, mas revelador, Martiniano leu um trecho sobre a grande indústria e a queda da dependência do “tempo de trabalho” para a produção de riqueza — e desafiou o apresentador e a audiência a adivinhar autor e época. A resposta veio ao vivo: “Foi o Marx há mais de 160 anos atrás”, registrou.
Ao final, Martiniano insistiu que máquinas podem produzir bens e liberar seres humanos para aquilo que considera propriamente humano — criação, afeto, ciência, cuidado e liberdade — e encerrou com um poema como recado de persistência: “Não importa que amanheça devagar… o que importa é ter… clara a intenção de madrugar”.
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