A notícia que você não vê revela omissões, cascas de banana e disputas narrativas na mídia brasileira
No programa Democracia no Ar desta sexta-feira (14/11), transmitido pela TV Atitude Popular, a jornalista Sara Goes recebeu a pesquisadora de mídia e jornalista Eliara Santana e a professora de filosofia Sandra Helena para mais uma edição do quadro especial “A notícia que você não vê”. A conversa, transmitida em rede de rádios comunitárias e plataformas digitais, deixou claro que a batalha política de 2025 passa cada vez mais pelo campo simbólico: manchetes, silêncios, enquadramentos e pequenas palavras que mudam completamente a percepção de quem está em casa.
Logo no início, Eliara fez um mergulho na cobertura da mais recente pesquisa Quaest, que mede a aprovação do presidente Lula. Não se tratava apenas de comentar números, mas de desmontar a forma como eles foram usados pelos grandes veículos de comunicação. Ela destacou como manchetes do tipo “Lula para de melhorar” ajudam a produzir um clima de estagnação, mesmo quando os dados não autorizam esse alarme. Mais do que medir a opinião pública, as pesquisas passam a orientar o comportamento da mídia e a preparar o terreno das narrativas para 2026.
Ao longo da análise, Eliara chamou atenção para um ponto central: a insistência em manter Jair Bolsonaro como personagem central das pesquisas, apesar da inelegibilidade e da proximidade da prisão. Para ela, essa escolha não é técnica, é política. É uma maneira de esconder a fragilidade real da extrema direita, que não conseguiu produzir um nome competitivo. Tarcísio de Freitas, apesar da blindagem midiática e da tentativa de capitalizar politicamente a megaoperação no Rio de Janeiro, não decola. Insistir em Bolsonaro serve para preservar a imagem de uma polarização artificial, como se houvesse dois polos equivalentes no mesmo campo democrático, quando na prática se trata de um presidente eleito e um líder político que caminha para a Papuda.
A jornalista também apontou como a análise do discurso permite enxergar aquilo que o próprio texto tenta camuflar. A partir da pesquisa, a mídia passa a repetir fórmulas sobre rejeição, cansaço e “desgaste natural” do governo, muitas vezes ignorando indicadores objetivos. Ao falar de economia, Eliara lembrou uma matéria do UOL que anunciava que “os alimentos voltam a ficar mais caros” depois de quatro meses de queda. Ao abrir o texto, o que aparece é uma alta de 0,01%, puxada principalmente por alimentação fora de casa. “0,01% não é aumento. É quando muito uma variação inexpressiva”, explicou, mostrando como uma oscilação mínima é apresentada como ameaça à estabilidade econômica num momento em que a inflação segue abaixo da meta e o desemprego vem caindo.
Sandra Helena entrou na conversa trazendo o olhar atento sobre a Record. Se em alguns momentos recentes a emissora havia feito uma cobertura relativamente correta da economia e até da COP, agora, segundo ela, se percebe um investimento mais intenso na construção de uma narrativa moralista e bélica, muito alinhada ao trumpismo e ao projeto de uma espécie de teocracia militar. Na cobertura da violência no Rio, a Record trabalha de forma sistemática a ideia de “narcoterrorismo”, transforma operações em épicos do bem contra o mal e trata a política de segurança de Cláudio Castro como heroica, silenciando as denúncias de chacina e execuções extrajudiciais.
Enquanto a Globo ainda deixa escapar um “tenso” aqui e ali, a Record, segundo Sandra, celebra sem constrangimento a escalada de violência, deslocando o debate do campo dos direitos para a esfera da cruzada moral. A professora lembrou também das reportagens dirigidas contra emendas parlamentares de esquerda destinadas a ONGs no Rio de Janeiro, montagem que tenta sugerir um caldo de corrupção generalizada e atingir nomes como Benedita da Silva e Talíria Petrone, ao mesmo tempo em que preserva figuras do campo conservador.
O noticiário internacional foi outro ponto em que a dupla pediu atenção. Eliara destacou a repercussão, no Brasil, de supostos e-mails ligados ao escândalo Jeffrey Epstein, usados por parlamentares republicanos nos EUA para insinuar ligações forçadas entre Lula, Noam Chomsky e o financista. Mesmo sem fonte identificada, sem prova material e com buracos lógicos elementares — como a impossibilidade de entrar com celular na carceragem da Polícia Federal em Curitiba — veículos brasileiros repercutiram o material como se fosse uma pista séria. Tudo isso no dia seguinte à divulgação de uma foto oficial em que Marco Rubio aparece com o chanceler Mauro Vieira discutindo a retirada de tarifas sobre produtos brasileiros. Para Eliara, a coincidência não é inocente: faz parte do jogo pesado em torno da relação Brasil–Estados Unidos e do reposicionamento do país no cenário internacional.
A economia, porém, permanece como um terreno mais difícil de manipular. Sandra relatou a experiência de ouvir rádio no carro e acompanhar comentaristas que, mesmo a contragosto, são obrigados a reconhecer que o país vai bem em vários indicadores, ainda que insistam em repetir chavões sobre “fracasso da esquerda na segurança pública”. Eliara reforçou que é precisamente por não conseguirem emplacar o discurso de crise econômica como em 2015 que a mídia corporativa intensifica o uso de cascas de banana: provocações de governadores como Romeu Zema, frases tiradas de contexto, ênfase desproporcional em gafes ou declarações infelizes. Foi o caso de uma fala de Lula sobre traficantes, que, mal formulada, virou munição para quem tenta associar o governo ao crime organizado, apesar das ações consistentes da Polícia Federal com baixíssimo índice de letalidade.
O Banco Central, na avaliação das duas, é um terreno minado. A manutenção de juros elevados e o tom das atas do Copom seguem sendo um nó político, mas Eliara foi categórica: o governo não pode entrar em confronto direto com a autoridade monetária, sob pena de ver a mídia decretar, no dia seguinte, uma crise econômica artificialmente criada. Da mesma forma, ela lembrou da necessidade de medir respostas a ataques de figuras menores da cena política e mesmo construções dirigidas contra Janja, alvo frequente de operação de ódio digital.
Se o programa nasceu para examinar “a notícia que você não vê”, Sandra fez questão de concluir com exemplos concretos de invisibilização. Um deles foi a total ausência de destaque para a presença de Dilma Rousseff na foto oficial dos chefes de Estado e banqueiros na abertura da COP. A ex-presidenta, hoje à frente do Banco dos Brics, apareceu de vermelho, em pleno centro da imagem — e, no entanto, praticamente não foi mencionada pelos grandes veículos, que preferiram ignorar sua relevância atual para evitar reabrir o debate sobre o golpe de 2016. Outro exemplo foi ainda mais duro: a Palestina desapareceu do noticiário cotidiano. Após o anúncio de cessar-fogo e algumas manchetes sobre reféns, o genocídio deixou de ser tema central. As mortes continuam, mas a cobertura foi sendo empurrada para os rodapés ou para segmentos periféricos.
E, como se não bastasse, as duas ainda lembraram que a batalha simbólica não se limita ao noticiário tradicional. Enquanto Bolsonaro se aproxima da Papuda e Eduardo Bolsonaro posa como filho aflito nas redes, pedindo “força” para o pai, Michelle Bolsonaro circula pelo país capitaneando o PL Mulher e vendendo um modelo de mulher submissa – ao mesmo tempo em que ajuda, paradoxalmente, a atrapalhar candidaturas do próprio partido ao Senado em vários estados. Para o campo progressista, esse movimento simultâneo de reorganização da extrema direita, guerra de narrativas na mídia e avanço da ultradireita religiosa no Brasil e nos EUA exige vigilância e capacidade de leitura fina do discurso.
Ao final, ficou a sensação de que, em 2025, entender o Brasil passa necessariamente por aprender a ler o que não está escrito. Ver quem aparece na foto, mas não é citado. Notar o genocídio que some da primeira página. Desconfiar da manchete alarmista que nasce de 0,01%. E reconhecer que, como disse Eliara, a própria imprensa se trai pelo discurso que escolhe produzir — ou calar.
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