Fábio Gentile vê corporativismo no Legislativo, alerta para “estratégia” da direita e analisa como 2026 já está sendo costurado nos bastidores
A edição de 11/12 do Café com Democracia, da Rádio e TV Atitude Popular, colocou 2026 no centro do tabuleiro político ao discutir as manobras recentes na Câmara dos Deputados e o que elas antecipam sobre a disputa eleitoral que se aproxima. A conversa foi conduzida por Luiz Regadas com o sociólogo Fábio Gentile, coordenador do PPGS da UFC e professor de Sociologia, em um programa atravessado pela indignação diante das votações feitas “na calada da noite” e pelo diagnóstico de que a direita já opera para reconstruir uma candidatura viável no pós-Bolsonaro.
A matéria a seguir tem como fonte original o próprio programa Café com Democracia (Atitude Popular), exibido em 11/12, com base no trecho transcrito fornecido.
Logo na abertura, Regadas indicou o tom do debate: a Câmara teria produzido mais um espetáculo de desrespeito ao país, citando um vídeo em que Hugo Mota aparece rindo e bebendo whisky, associado pelo apresentador a um comportamento de escárnio após votações que impactam diretamente a punição aos golpistas. A imagem, disse o apresentador, funciona como símbolo de uma madrugada em que parlamentares “trabalharam” para aprovar medidas que podem aliviar penas e reabrir caminhos políticos para o bolsonarismo.
Gentile concordou com a gravidade do gesto e ressaltou o que considera ser a mensagem política do horário e do método: “foi durante a madrugada”, destacou, apontando para uma postura deliberada de “desrespeitar o povo brasileiro”. Em seguida, emendou a frase que sintetiza sua preocupação com o momento: “A indignação se perdeu muito e nós precisamos ser indignados na nossa luta pela democracia.”
2026 no horizonte e o problema da “transferência simbólica” do bolsonarismo
Ao analisar o cenário eleitoral, Gentile afirmou ver um “fio condutor” ligando as crises recentes no Congresso a uma estratégia mais ampla. Para ele, a direita tenta construir uma candidatura competitiva para 2026, mas enfrenta um obstáculo central: como converter a liderança de Bolsonaro em votos para outro nome.
Nesse diagnóstico, Gentile lembrou que “Bolsonaro” não é apenas um indivíduo, mas uma família inserida na política, o que complexifica a disputa por herança eleitoral. O professor citou debates sobre Ronaldo Caiado como um nome discutido na direita, mas ponderou que há um problema de “transferência de votos” e de legitimação simbólica. Nesse contexto, aventou que um filho do ex-presidente poderia surgir como alternativa, embora tenha frisado que ainda é cedo para saber se isso seria candidatura “de verdade” ou movimento tático que pode recuar nos primeiros meses do ano seguinte.
Regadas acrescentou uma peça importante do quebra-cabeça ao lembrar que Hugo Mota é aliado de Tarcísio, o que tensionaria ainda mais o campo conservador: uma eventual candidatura de Flávio Bolsonaro, por exemplo, poderia dividir a direita entre diferentes polos — governador, família e outros pretendentes — ao mesmo tempo em que manteria o bolsonarismo mobilizado.
“Poder mafioso transversal”: corporativismo e dois pesos, duas medidas
Um dos pontos mais duros da entrevista veio quando Gentile comentou a diferença de tratamento entre casos que mobilizaram o Congresso, com destaque para a não cassação de Carla Zambelli e a punição aplicada em outro caso citado no programa. Para o professor, existe uma lógica recorrente em parlamentos, no Brasil e fora dele: um corporativismo que supera divergências partidárias quando o objetivo é proteger a própria classe política de sanções e constrangimentos.
Gentile descreveu esse mecanismo com uma expressão forte, ressaltando que se trata de algo que atravessa siglas e interesses: “parece quase… um poder mafioso transversal”, capaz de alinhar agentes de campos distintos em votações convergentes, mesmo quando os fatos e gravidades são diferentes. Ele completou dizendo que, nesse tipo de dinâmica, a “política entendida como politicagem” tende a prevalecer sobre compromisso democrático, justiça e respeito ao eleitorado.
O argumento apareceu como chave para entender por que, segundo ele, decisões controversas se acumulam sem custo proporcional para quem as toma, enquanto a sociedade observa, reage, mas nem sempre consegue produzir efeito institucional imediato.
Democracia em disputa: entre reação institucional e euforia de uma parte do eleitorado
Gentile avaliou que, após 2022, havia sinais positivos: eleições como mecanismo de correção e uma reação firme das instituições diante do golpismo. Ao mesmo tempo, alertou que o conflito entre poderes voltou a tensionar o sistema e que ações no Legislativo produzem sinais simbólicos perigosos para o eleitorado, como se ainda houvesse validação social para métodos de ruptura.
O ponto mais delicado, segundo ele, é que a indignação não é universal. Gentile insistiu que uma parte significativa da sociedade vê com entusiasmo a agressividade política e o confronto institucional. O que para uns é vergonha e alerta democrático, para outros é “prova” de força e motivo de celebração — e esse é um combustível essencial para a ascensão da direita no Brasil e em outras nações.
Marco temporal, conflito entre poderes e o “aviso” para 2026
No trecho final, o programa conectou o debate eleitoral a pautas concretas que já reorganizam o país: foi citado o avanço de votações relacionadas ao marco temporal para terras indígenas, mesmo após controvérsias jurídicas, como exemplo de um Legislativo disposto a afrontar decisões e empurrar conflitos institucionais para 2026.
Gentile abordou o tema pelo ângulo da separação de poderes e da justiça social, lembrando que, em muitos casos, o Judiciário intervém porque identifica problemas éticos, históricos e reparatórios. Mas reconheceu que esse movimento aumenta o atrito entre instituições e evidencia um país “afogado nas leis”, que convive com uma produção normativa intensa e, ao mesmo tempo, com disputas políticas que testam limites o tempo inteiro.
Antes do encerramento, Regadas registrou ainda mobilizações e iniciativas do campo popular: citou a convocação de atos para o domingo (14/12) e divulgou uma rifa solidária organizada com Bel Castro para apoiar a Atitude Popular. Gentile, nas considerações finais, voltou ao foco estratégico: a direita segue forte, disputa “todas as cartas” e tenta capturar o centro moderado com alianças, enquanto a tarefa democrática urgente é fortalecer pensamento crítico — especialmente entre jovens — e mudar a correlação de forças no Congresso.
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