Atitude Popular

A jornalista nasceu do texto que rasguei

Crescer no Nordeste nos anos 1990 significava aprender cedo demais que existir no Brasil não era uma experiência igual para todo mundo. Eu tinha 11 anos em 1996 e sabia perfeitamente que muitas crianças não chegavam à minha idade porque morriam antes, vítimas da pobreza crônica que atravessava o país naquele período. Por aqui, o nome de Fernando Henrique Cardoso não circulava como símbolo de estabilidade ou modernidade, mas como o presidente do tempo em que o emprego sumia, o interior secava e a televisão mostrava diariamente a desigualdade que parecia não ter solução. Nordestino aprende cedo a identificar quem governa olhando para fora. E, para muita gente da minha geração, FHC virou o rosto político de uma época em que o Brasil parecia organizado no discurso econômico enquanto o Nordeste continuava contando moedas.

Eu era filha de um casal de classe média baixa acumulavam empregos, horários quebrados e responsabilidades infinitas. A comida estava lá, a casa funcionava, mas tudo dependia de cálculo. Um Babaloo podia virar assunto doméstico. Um Tamagotchi era um sonho distante de ficção científica. Ainda assim, minha infância foi atravessada pelos grandes marcos culturais da época. Eu sabia todos os golpes dos Cavaleiros do Zodíaco, acompanhava programas infantis como quem frequenta um clube exclusivo e cantava Mamonas Assassinas junto com o país inteiro antes de aprender o que era luto coletivo.

A televisão era simultaneamente fantasia e denúncia. Entre desenhos surgiam os telejornais exibindo um Brasil duro demais para uma criança compreender completamente. Eu assistia a tudo obsessivamente na tentativa de participar da vida adulta dos meus pais. Meu pai chegava em casa exausto depois de múltiplos trabalhos, e eu queria ter algo importante para dizer, algo que justificasse minha presença naquele mundo sério dos adultos. Eu memorizava, nome, números e misturava tudo com sono e frustração. Queria salvar o dia dele com informação e nunca conseguia.

Eu cresci cercada por pessoas conhecidas, respeitadas, procuradas para conversar, organizar, articular e decidir caminhos coletivos. Na infância, eu não tinha qualquer noção da dimensão disso. Achava que todas as famílias conviviam com reuniões políticas na sala, discussões sobre direitos humanos no almoço e gente chegando em casa para falar de eleições ou memória da ditadura. Só na adolescência percebi que eu estava vivendo dentro de um ambiente excepcional. Era como assistir a uma peça longa demais para a minha idade, entendendo algumas cenas, imaginando outras, tentando preencher o resto com uma urgência que nem eu mesma sabia explicar. A escola ocupava uma parte muito pequena da minha vida e eu tentava organizar a minha própria existência decifrando aquele universo adulto que falava palavras e nomes tão difíceis.

Então veio o massacre de Eldorado dos Carajás.

As imagens me tocaram de um jeito definitivo. Trabalhadores rurais mortos, policiais armados, gente que parecia indefesa sendo tratada como inimiga do Estado. Foi ali que algo mudou. Pela primeira vez senti que precisava agir, não apenas observar. Queria ser parte das lutas que sempre vi acontecer ao meu redor. Queria ser adulta imediatamente.

Quando a escola anunciou o jornal coletivo da 6ª série, eu já sabia o que faria. Escolhi o editorial porque entendi intuitivamente que aquele era o espaço de posição política. O editorial era onde o jornal assumia voz própria. Eu não queria escrever sobre recreio, festas ou curiosidades escolares. Eu queria falar do massacre.

Só que o texto não nasceu pronto, como minhas professoras imaginaram depois. Não foi espontâneo, não foi talento instantâneo, levei dias e dias escrevendo. Chorava enquanto escrevia. Apagava páginas inteiras. Reescrevia parágrafos do zero. Lia jornais, copiava palavras difíceis, consultava o dicionário obsessivamente para substituir repetições. Era trabalho duro, quase físico. Suor, frustração e uma sensação permanente de urgência.

Eu escrevia como uma criança absolutamente convencida de que estava às portas de uma revolução. O editorial era inflamado, dramático, radical. Eu convocava crianças a fugir de casa e se juntar ao MST para acordar o país. Dizia que devíamos sentir vergonha de ir à escola enquanto outras crianças assistiam seus pais morrerem lutando por terra. Eu defendia que precisávamos nos tornar pequenos sem-terra revolucionários. Era sério, intenso e completamente desproporcional para uma menina de onze anos. Hoje eu rio, mas na época aquilo era minha verdade mais profunda.

Quando terminei, achei o texto perfeito. Tinha lide, argumento, indignação e uma solenidade quase épica. Era o meu ingresso simbólico no mundo das lutas que sempre admirei.

Pouco depois, meu pai foi chamado à escola. As professoras e a coordenação foram extremamente cuidadosas. Disseram a ele que eu tinha talento raro, que minha escrita era incomum, que poderia me tornar jornalista. Meu pai ouviu tudo emocionado.  O que chegou até mim na época foi outra história. Uma conversa delicada dizendo que alunos novos precisavam participar do jornal e que talvez eu pudesse ceder meu espaço no editorial… blábláblá.  Fiquei responsável pela diagramação.

Durante vinte anos desconheci aquele gesto cuidadoso da escola que deixou uma marca silenciosa. A menina que escreveu aquele editorial aprendeu ali a recolher a própria intensidade. A indignação não desapareceu, mas ficou mais contida, mais analítica, menos explosiva.  

Minha mãe, na época, ficou orgulhosa do editorial e da delicada cesura da escola e passou a mostrar o texto para parentes, vizinhos, conhecidos… Senti que estavam rindo de mim, da minha seriedade, do meu esforço gigantesco. Num acesso de fúria infantil, rasguei o editorial com raiva, com vergonha e com a sensação de ter sido exposta antes de estar pronta.

Hoje percebo que minha trajetória na comunicação começou naquele momento. Não no texto publicado, mas no texto retirado, exposto e rasgado. No esforço, no choro, nas consultas ao dicionário e no vocabulário dos adultos.

O editorial nunca saiu no jornal. Mas a jornalista nasceu ali.

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