Atitude Popular

“A luta de classes é o motor da história”

No Café com Democracia, Nelson Campos analisa o papel dos movimentos sociais na formação política do Brasil e critica o avanço da extrema direita

No programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas na Rede de Comitês Populares pela Democracia, o professor Nelson Campos, mestre em Educação pela Universidade Federal do Ceará, abordou a influência dos movimentos sociais na formação política do Brasil. A edição foi ao ar na segunda-feira, 9 de fevereiro, às 7h30.

Ao longo da entrevista, o convidado percorreu da teoria sociológica clássica às lutas históricas brasileiras, defendendo que a consolidação democrática nunca foi concessão espontânea das elites, mas resultado direto de mobilização social e confronto político.

O que são movimentos sociais

Logo no início, Nelson Campos fez questão de delimitar o conceito. Para ele, “movimentos sociais” não são sinônimo de qualquer mobilização episódica, mas categoria sociológica estruturada desde o século XIX.

Segundo o professor, movimentos pressupõem dinamismo e temporalidade. Diferentemente das instituições, que são permanentes, eles são coletivos, históricos e transitórios. “Movimentos pressupõem necessariamente dinamismo. Se são sociais, são coletivos. E não são permanentes”, explicou.

Ele classificou os movimentos em diferentes tipos: reacionários, conservadores, reformistas e revolucionários. Os primeiros buscam restaurar ordens superadas historicamente; os reformistas promovem ajustes pontuais sem alterar a estrutura; e os revolucionários propõem transformações profundas.

Ao tratar da tradição crítica, citou Karl Marx e sintetizou a perspectiva histórica com a frase que deu título ao programa: “A luta de classes é o motor da história.”

Da Colônia à República: lutas e exclusões

O professor resgatou movimentos nativistas do período colonial, as conjurações emancipacionistas e revoltas regionais, destacando que a formação política brasileira foi marcada por disputas entre interesses locais e projetos de ruptura com o colonialismo.

Ao abordar a escravidão, criticou a narrativa que atribui exclusivamente à Princesa Isabel a abolição. Segundo ele, a libertação foi resultado de resistência organizada da população negra, com destaque para os quilombos e a luta de Zumbi dos Palmares.

“É uma violência esconder a participação da comunidade negra e tratar a abolição como gesto de generosidade”, afirmou.

Nelson também contextualizou o Estado brasileiro como instrumento historicamente vinculado aos interesses das classes dominantes. Citando Max Weber, destacou que o Estado detém o monopólio legítimo da força e que legalidade não se confunde com legitimidade.

Ao comentar a exclusão política ao longo da história, lembrou que mulheres só conquistaram o direito ao voto em 1934 e analfabetos apenas com a Constituição de 1988.

Canudos, ditadura e manipulação ideológica

O episódio da Guerra de Canudos foi apresentado como exemplo emblemático de repressão estatal contra organização popular. Para o professor, a destruição da comunidade liderada por Antônio Conselheiro revelou a aliança entre poder econômico, imprensa e aparato estatal.

“Criaram mentiras, acusaram de monarquistas e massacraram milhares de pessoas em nome da República”, disse.

O convidado também relacionou a formação política brasileira à influência externa, sobretudo dos Estados Unidos, lembrando o apoio norte-americano ao golpe de 1964 e a difusão de ditaduras na América Latina durante a Guerra Fria.

Racismo, extrema direita e alienação política

Ao comentar o racismo estrutural, Nelson foi direto ao criticar Donald Trump, classificando-o como “um estúpido” e “um racista”. Para ele, o racismo é manifestação de ignorância histórica e instrumento de dominação ideológica.

“O racismo é uma manifestação de estupidez. Ninguém escolhe a cor com que nasce”, afirmou.

Ele associou o avanço da extrema direita à manipulação política e religiosa, apontando o papel de setores conservadores que, segundo ele, distorcem valores religiosos para sustentar projetos autoritários.

O professor também citou casos recentes envolvendo votações parlamentares e políticas sociais para ilustrar o que chamou de incoerência entre discurso e prática de setores da direita.

Consciência de classe e desafio contemporâneo

Para Nelson Campos, o principal obstáculo aos movimentos progressistas é a alienação política. Ele argumentou que sem consciência crítica não há transformação estrutural possível.

“Romper com a alienação significa romper com a ideologia que domina grande parte da população”, afirmou.

Na avaliação do professor, mudanças no sistema de governo, como alternância entre presidencialismo e parlamentarismo, não alteram a essência da estrutura social se a base econômica e os interesses dominantes permanecerem intactos.

Encerrando sua participação, o convidado desejou um carnaval marcado pela fraternidade e criticou episódios de violência entre torcidas, classificando-os como expressão de irracionalidade coletiva.

O programa reforçou a tese de que a democracia brasileira foi construída por meio de conflitos históricos e que sua manutenção depende da organização consciente da sociedade civil diante dos desafios contemporâneos.


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📅 De segunda à sexta
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