Atitude Popular

“A mão de obra de terra hoje se sente escravizada”

Aeroviários cearenses expõem precarização extrema no Aeroporto de Fortaleza e denunciam conivência patronal enquanto o Sindaero e o escritório Uchôa Advogados avançam em ações judiciais e retomada de direitos

Aeroviários cearenses denunciam precarização extrema e apontam avanço em ações por dignidade e segurança na aviação

No programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas e retransmitido em dezenas de rádios comunitárias, a presidenta do Sindicato dos Aeroviários do Ceará (Sindaero), Sônia Maia, e o advogado e assessor jurídico da entidade, Scipião Costa, detalharam um diagnóstico grave sobre a situação dos trabalhadores responsáveis pela segurança e operação de solo no Aeroporto Internacional Pinto Martins. A reportagem original foi ao ar pela TV Atitude Popular no dia 25 de novembro.

A entrevista revelou um quadro de precarização profunda, assédio moral e sexual, sucateamento de equipamentos, violações de normas de segurança e tentativas de usurpar a representatividade sindical conquistada legalmente pelo Sindaero em 2024. Entre as falas mais contundentes, Sônia sintetizou o sentimento da categoria:
“A mão de obra de terra hoje se sente escravizada.”

A categoria invisível que sustenta a aviação

Durante a conversa, Sônia explicou que os aeroviários — trabalhadores da aviação civil em terra — foram historicamente confundidos com aeronautas ou aeroportuários. Essa confusão contribuiu para que a categoria fosse tratada com descaso e jogada à precarização.
Ela resume:
“A categoria aeroviária é quem produz tudo. Sem nós, nenhum avião sai do chão com segurança.”

Apesar disso, relatou que as condições reais de trabalho são alarmantes: equipamentos quebrados, tratores sem freio, escadas deterioradas, ausência de espaços adequados e aumento de acidentes. “É sucata, é ferrugem pura”, afirmou.

Sucateamento, assédio e impunidade

Os relatos incluem assédio moral por parte de supervisores e, no caso da empresa Security SATA, denúncias de assédio sexual contra trabalhadoras.
Quando uma agente de proteção rejeita a investida de um superior, segundo Sônia, “ela é punida, vira folguista ou perde a escala fixa”. A empresa já responde na Justiça.

Outra denúncia grave envolve a empresa Denata, responsável pelas operações de bagagem. Segundo Sônia, a empresa desconta ilegalmente valores abusivos do vale-alimentação, retirando mais de R$ 200 mensais de cada trabalhador, o que representa cerca de R$ 600 mil mensais de uma base com mais de 400 funcionários.

Além disso, há acusações de conivência da Fraport, concessionária do aeroporto. Sônia relata que cargas avariadas são enviadas ao destino sem registro ou correção:
“Eles mandam colocar na lâmina e despachar rápido, sem pagar nada.”

Para ela, a ausência de fiscalização conjunta entre Ministério do Trabalho, Ministério Público do Trabalho e Polícia Federal alimenta a sensação de impunidade: empresas simplesmente “barrem” fiscalizações em áreas restritas.

A disputa pela representatividade e a entrada do Uchôa Advogados

O advogado Scipião Costa explicou como o escritório Uchôa Advogados se tornou assessor jurídico do Sindaero e destacou a importância histórica da atuação de seu fundador, o jurista e ex-juiz do trabalho Inocêncio Uchôa, símbolo da reconstrução sindical no Ceará após a ditadura.

Segundo Scipião, a principal vitória recente foi a concessão do mandado de segurança que obriga o Sindicato Nacional dos Aeroviários (SNA) a não representar a categoria no Ceará, reconhecendo que a base territorial pertence ao Sindaero desde 2024:
“Foi a vitória que deu fôlego ao sindicato e mostrou para a categoria que, pela lei, quem os representa é o Sindaero Ceará.”

Entre as principais ações movidas pelo escritório estão:

Processos contra o SNA para impedir atos de representação indevida no estado
Ações de invalidação de acordos firmados entre SNA e Latam
Processos por assédio moral e sexual
Ações por insalubridade, periculosidade e descumprimento de intervalos obrigatórios
Ações contra federações patronais e sindicatos que tentam usurpar a base dos aeroviários
Processos contra terceirizadas que operam ilegalmente em áreas restritas

A Latam, segundo Sônia, se recusa a negociar diretamente com o Sindaero mesmo após provocação formal. “Ela não pede, ela manda”, disse. O escritório já ingressou com ação para obrigar a empresa a reconhecer o sindicato local.

O risco à segurança de voo

Tanto Sônia quanto Scipião ressaltaram que a precarização não atinge apenas os trabalhadores, mas toda a sociedade.
Equipamentos quebrados, jornadas exaustivas e falta de treinamento podem colocar centenas de passageiros em risco.

Scipião alerta:
“Um aeroviário exausto pode cometer um erro que compromete a segurança de voo.”

Ele lembra ainda que o aeroporto de Fortaleza é um hub importante, com grande fluxo de voos nacionais e internacionais, o que torna o cenário ainda mais preocupante.

Negociações, enfrentamento e esperança

Sônia relatou que o sindicato está reorganizado administrativamente, com sede ativa e atendimento jurídico permanente. O volume de denúncias cresceu após a retomada do sindicato e sua presença constante no aeroporto.

Ela reforçou que luta “como formiga contra gigantes”, mas que não está sozinha:
“Quando eu olho nos olhos de cada advogado dessa equipe, eu me sinto segura para agir.”

Em um momento de sinceridade política, Sônia comentou ainda a prisão de Jair Bolsonaro, afirmando que o ex-presidente “terminou de destruir os direitos da categoria”.

O futuro da luta

Para o escritório Uchôa Advogados, o próximo passo é transformar cada denúncia em ação concreta, buscando reparação financeira, melhoria das condições de trabalho e respeito à representatividade do Sindaero.

Scipião resume:
“Estamos comprometidos com a luta da classe trabalhadora. É transformar precarização em justiça.”

Assista à entrevista completa:

📺 Programa Café com Democracia
📅 De segunda à sexta
🕙 Das 7h30 às 8h
📺 Ao vivo em: https://www.youtube.com/TVAtitudePopular
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