Atitude Popular

“A mulher vive uma liberdade condicional”

Comunicadora Mara Lilia Menezes explica como o patriarcado alimenta a violência de gênero e por que a reação passa pela educação dos meninos, pela política e pela fé sem controle do corpo feminino

A violência contra a mulher não começa no primeiro soco, nem termina nas estatísticas policiais. Ela nasce de uma pedagogia silenciosa que normaliza o poder masculino em casa, na política, nas igrejas e nos meios de comunicação. É o que defende Mara Lilia Menezes, comunicadora das rádios Independência e Maravilha FM (Crateús), em entrevista ao Programa Café com Democracia, apresentado por Luiz Regadas, na TV Atitude Popular. Nesta conversa, que serve de base para esta reportagem, Mara propõe um mapa direto das raízes e dos efeitos do machismo estrutural — e indica caminhos de enfrentamento que começam na infância e atravessam a vida pública.

Logo no início, Mara define o eixo do problema: “o machismo é a técnica de funcionamento do patriarcado; a misoginia é o ódio que vira violência”. Por isso, diz, avanços legais e simbólicos convivem com freios culturais que restringem a autonomia feminina: “Hoje a mulher tem direitos, mas eu diria que vive uma liberdade condicional”.

Da Idade Média ao feed: como a cultura autoriza o controle

Para situar a naturalização do controle, Mara recupera um arco histórico: da Idade Média e do mundo vitoriano, quando a mulher era “transferida” do poder do pai para o marido, ao século XX/XXI, em que persistem formas de tutela sobre comportamentos, roupas e circulação. “Sempre houve o impulso de dominar as mulheres e seus corpos”, afirma. A comunicadora enxerga na socialização desigual o combustível desse ciclo: meninos são educados para não chorar e mandar; meninas, para obedecer e cuidar. O resultado transborda no cotidiano: “Não é ‘ajudar’ a esposa, é compartilhar as tarefas”.

Lei importa — e muda o que aparece nas estatísticas

Mara lembra marcos legais que alteraram a visibilidade e o enquadramento dos crimes:

Lei Maria da Penha (2006), que estruturou mecanismos de proteção e ampliou o estímulo à denúncia;
Lei do Feminicídio (2015), que qualificou o assassinato de mulheres por motivo de gênero;
Tese da “defesa da honra” considerada inconstitucional pelo STF (2023), freando uma justificativa histórica da violência.

Mesmo com esses avanços, a comunicadora ressalta: os anuários de segurança pública seguem mostrando números alarmantes de feminicídios, estupros e violência doméstica. Parte do aparente “aumento” também decorre de maior formalização das denúncias.

Política e mídia: o peso do exemplo público

No campo institucional, Mara sustenta que a sub-representação feminina no Congresso e episódios recorrentes de hostilidade a parlamentares ajudam a normalizar agressões. Ao citar o impeachment de Dilma Rousseff, ela afirma ter havido um enviesamento misógino contra a primeira presidenta do país e recorda o cerco de piadas e ataques de gênero durante aquele período. “As jornalistas estão aí para provar o que ouviram e sofreram”, diz, mencionando o rebaixamento do discurso público nos anos de avanço da extrema direita.

Religião e controle do corpo

Um dos trechos mais sensíveis da entrevista trata do fundamentalismo religioso. Sem recusar a dimensão espiritual, Mara separa fé de dominação: “Deus não quer que a mulher sofra; quer a mulher livre”. Critica, assim, leituras bíblicas usadas para reforçar papéis rígidos — do “mulher edifica o lar” ao policiamento de saias e biquínis — e lembra que o Brasil já viu decretos morais, como o de 1961, que tentou proibir biquínis nas praias. O fio condutor, insiste, é sempre o controle do corpo feminino.

Culpabilização da vítima: a violência que começa no olhar social

A comunicadora denuncia a curva que transforma a roupa da vítima em “prova” contra ela: short curto, local e horário viram desculpa para a violência. Da propaganda que sexualiza corpos à dupla moral de quem aplaude o erotismo na publicidade, mas policiaria a própria parceira, Mara identifica uma engrenagem: “Naturaliza-se o que é errado e isso vai sendo empurrado adiante”.

O que fazer: educação, rede e política pública

Para os homens, o convite é olhar no espelho e mudar práticas cotidianas; para famílias e escolas, educar meninos para o cuidado, a empatia e o compartilhamento. Para as mulheres, uma orientação prática: não naturalizar o desconforto. “A violência começa quando você não se sente bem”, resume. A recomendação é contar a alguém de confiança logo nos primeiros sinais e buscar os canais formais de proteção.

Ao final, ecoa a pergunta de um ouvinte: é possível “acabar” com o machismo? Não de uma vez — mas é possível desautorizá-lo, passo a passo, no ambiente doméstico, no trabalho, na igreja, na escola e no voto. O diagnóstico de Mara é duro; o caminho, ativo e sem atalhos.

“A mulher vive uma liberdade condicional”


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