Em aula no Café com Democracia, o historiador Evaldo Lima desmonta o mito da proclamação da República e mostra como o povo ficou de fora do novo regime
Na manhã de quarta-feira, 12 de novembro, o Café com Democracia recebeu o historiador professor Evaldo Lima para discutir o tema “A República sem povo: as contradições de um novo regime”. Com apresentação de Luiz Regadas, o programa é veiculado pela TV Atitude Popular e por uma rede de rádios e web rádios parceiras, que ajudam a levar o debate político para além das grandes emissoras comerciais. A matéria a seguir se baseia na entrevista concedida ao programa e nas análises apresentadas ao vivo pelo professor.
Logo no início, Evaldo situou a conversa no calendário de novembro, mês em que o país costuma lembrar simultaneamente a Proclamação da República, em 15 de novembro, e o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Para ele, essas duas datas ajudam a entender o tipo de país que se formou: um regime que mudou de forma, mas manteve a exclusão de grandes parcelas da população. “A nossa república lá no seu nascimento foi muito pouco republicana”, resumiu.
O ponto de partida da análise é direto: o que se convencionou chamar de “Proclamação da República” não foi um levante popular nem uma revolução democrática, mas um golpe militar de cima para baixo. Evaldo lembra que o ato de 15 de novembro de 1889 foi um “passeio” de tropas na então capital, o Rio de Janeiro, conduzidas pelo marechal Deodoro da Fonseca, veterano da Guerra do Paraguai. “A proclamação da República foi um movimento do Exército, apoiado por fazendeiros que queriam mais autonomia e poder, mas sem participação do povo”, explicou.
O historiador destacou ainda a contradição biográfica do próprio Deodoro. Sessenta dias antes de derrubar a monarquia, o marechal se declarava monarquista e devedor de favores ao imperador. “Ele repetia que o Brasil estava mal com a monarquia, mas estaria pior sem ela. Não era um republicano convicto”, contou Evaldo. O que o empurrou definitivamente para a ruptura não foi um projeto popular de país, mas a disputa de bastidores: Deodoro queria derrubar o presidente do Conselho de Ministros, o Visconde de Ouro Preto, e, ao saber que seu desafeto Gaspar Silveira Martins poderia assumir o cargo, optou pela solução extrema. “Quando ele descobre quem poderia substituir o Visconde, diz: ‘então digam ao povo que a República foi proclamada’”, narrou o professor, lembrando que, naquela altura, o povo sequer sabia o que estava acontecendo.
A ausência de participação popular não é opinião isolada. Evaldo recorre a dois clássicos da historiografia e do ensaísmo político brasileiro para ilustrar o quadro. O propagandista da República Aristides Lobo escreveu que “o povo assistiu bestificado” aos acontecimentos de 1889; o escritor Lima Barreto diria mais tarde que o Brasil “não tem povo, tem público”. O historiador também cita o cientista político José Murilo de Carvalho, autor de Os bestializados, para reforçar que a chamada Primeira República foi, na prática, um arranjo de minorias sobre uma maioria silenciada.
“A República não incorporou a população ao jogo político”, afirmou Evaldo. O voto era censitário, dependia de renda, excluía analfabetos – que eram a maioria esmagadora da população – e proibia o sufrágio feminino. Ao mesmo tempo, o poder local era dominado por chefes políticos regionais e coronéis, que controlavam eleições e mandatos. “Foi uma república de poucos sobre muitos”, sintetizou. A promessa contida na própria palavra “República” – coisa do povo, coisa pública – não se cumpriu na origem do regime.
Ao longo da entrevista, o professor lembrou que, muito antes de 1889, já havia no Brasil faíscas de republicanismo, ainda que restritas a certos grupos. Ele citou a Inconfidência Mineira (1789), inspirada pela independência dos Estados Unidos e pelo Iluminismo, como um movimento elitista que já falava em república; a Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates (1798), de caráter mais popular, com participação de artesãos, soldados e negros livres, defendendo o fim da escravidão e a igualdade racial; e a Insurreição Pernambucana (1817), também chamada Revolta dos Padres, de caráter republicano e federativo no Nordeste.
Nesse contexto, Evaldo destacou o papel do Ceará e de suas figuras históricas. Lembrou que Bárbara de Alencar, do Crato, é considerada a primeira presa política do Brasil por defender ideias republicanas no início do século XIX, e que seu filho, José Martiniano de Alencar, proclamou uma república no Ceará em 1817. Mencionou ainda a Confederação do Equador (1824), com lideranças como Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Pessoa Anta, reprimidas e executadas por ordem de Dom Pedro I. “São mártires que ajudaram a forjar uma tradição republicana muito antes do 15 de novembro oficial”, explicou.
A entrevista também abordou o processo de construção de símbolos e mitos da República, especialmente a figura de Tiradentes. Diante de uma imagem exibida no programa, Evaldo lembrou que não há nenhum registro confiável do rosto de Joaquim José da Silva Xavier, mas a iconografia oficial o transformou em uma espécie de “Cristo cívico”: barba longa, cabelos compridos, expressão mansa, numa clara assimilação à imagem de Jesus crucificado. “O Tiradentes que a gente conhece é uma invenção republicana sobre uma personagem real”, observou.
Durante o Império, Tiradentes era figura incômoda, condenado e esquartejado pela Coroa portuguesa, com partes de seu corpo expostas em vias públicas. Interessa à República, no entanto, resgatar e remodelar esse personagem como herói fundador do novo regime. “A República precisava de símbolos, de mitos, de datas. Tiradentes foi reapresentado como mártir da liberdade”, afirmou.
Evaldo comentou ainda o papel do positivismo na formatação do novo regime. A frase inscrita na bandeira nacional – “Ordem e Progresso” – é diretamente inspirada no lema positivista de Auguste Comte: “amor por princípio, ordem por base, progresso por fim”. “Tiraram o amor e deixaram só a ordem e o progresso”, ironizou o historiador. Ele explicou que a influência de pensadores como Miguel Lemos, Teixeira Mendes e, especialmente, Benjamim Constant ajudou a dar uma “roupagem científica” à República, justificando o fim da monarquia em nome da modernização.
Essa influência aparece também na Constituição de 1891, a primeira constituição republicana, que promoveu a separação entre Igreja e Estado, secularizou os cemitérios – até então sob controle eclesiástico – e criou o casamento civil, antes inexistente. “Foi um passo importante para construir uma ética cívica e laica”, avaliou. No plano simbólico, a República também produziu novos hinos, novas datas cívicas e uma “religião civil” com bustos, monumentos, bandeiras e rituais que disputaram espaço com a religiosidade tradicional e com resquícios do imaginário monárquico.
Nem por isso o novo regime promoveu inclusão. Ao comentar o período da chamada República Velha – de Deodoro da Fonseca a Washington Luís –, o historiador lembrou que se tratou de uma fase marcada pelo domínio das oligarquias regionais, pelo coronelismo e por episódios como o massacre de Canudos, durante o governo do primeiro presidente civil, Prudente de Morais. Canudos, liderado pelo cearense Antônio Conselheiro, é, para Evaldo, a maior revolta popular da história da República Velha, esmagada à bala em nome da “ordem”.
Ao final do programa, o historiador fez uma ponte com o presente, sem perder o fio histórico. Para ele, a República brasileira continua sendo um processo em construção, que só avança quando há ampliação da cidadania e participação efetiva do povo nas decisões de Estado. Por isso, ele destacou o simbolismo do atual momento político, com um trabalhador nordestino na Presidência da República e a aposta em mecanismos de diálogo direto com a sociedade. Evaldo mencionou a escolha de Guilherme Boulos para a Secretaria-Geral da Presidência e o projeto de levar o gabinete presidencial às ruas e praças como um sinal de que a disputa pelos rumos da República está em aberto.
“Cidadania não é uma data, é um processo”, reforçou. E concluiu com um recado que serve tanto para o passado quanto para o futuro: “Nós precisamos ampliar cada vez mais os caminhos da cidadania, com educação, justiça, igualdade social e sem golpes de Estado.”
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“A nossa república lá no seu nascimento foi muito pouco republicana”
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Na manhã de quarta-feira, 12 de novembro, o Café com Democracia recebeu o historiador professor Evaldo Lima para discutir o tema “A República sem povo: as contradições de um novo regime”. Com apresentação de Luiz Regadas, o programa é veiculado pela TV Atitude Popular e por uma rede de rádios e web rádios parceiras, que ajudam a levar o debate político para além das grandes emissoras comerciais. A matéria a seguir se baseia na entrevista concedida ao programa e nas análises apresentadas ao vivo pelo professor.
Logo no início, Evaldo situou a conversa no calendário de novembro, mês em que o país costuma lembrar simultaneamente a Proclamação da República, em 15 de novembro, e o Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro. Para ele, essas duas datas ajudam a entender o tipo de país que se formou: um regime que mudou de forma, mas manteve a exclusão de grandes parcelas da população. “A nossa república lá no seu nascimento foi muito pouco republicana”, resumiu.
O ponto de partida da análise é direto: o que se convencionou chamar de “Proclamação da República” não foi um levante popular nem uma revolução democrática, mas um golpe militar de cima para baixo. Evaldo lembra que o ato de 15 de novembro de 1889 foi um “passeio” de tropas na então capital, o Rio de Janeiro, conduzidas pelo marechal Deodoro da Fonseca, veterano da Guerra do Paraguai. “A proclamação da República foi um movimento do Exército, apoiado por fazendeiros que queriam mais autonomia e poder, mas sem participação do povo”, explicou.
O historiador destacou ainda a contradição biográfica do próprio Deodoro. Sessenta dias antes de derrubar a monarquia, o marechal se declarava monarquista e devedor de favores ao imperador. “Ele repetia que o Brasil estava mal com a monarquia, mas estaria pior sem ela. Não era um republicano convicto”, contou Evaldo. O que o empurrou definitivamente para a ruptura não foi um projeto popular de país, mas a disputa de bastidores: Deodoro queria derrubar o presidente do Conselho de Ministros, o Visconde de Ouro Preto, e, ao saber que seu desafeto Gaspar Silveira Martins poderia assumir o cargo, optou pela solução extrema. “Quando ele descobre quem poderia substituir o Visconde, diz: ‘então digam ao povo que a República foi proclamada’”, narrou o professor, lembrando que, naquela altura, o povo sequer sabia o que estava acontecendo.
A ausência de participação popular não é opinião isolada. Evaldo recorre a dois clássicos da historiografia e do ensaísmo político brasileiro para ilustrar o quadro. O propagandista da República Aristides Lobo escreveu que “o povo assistiu bestificado” aos acontecimentos de 1889; o escritor Lima Barreto diria mais tarde que o Brasil “não tem povo, tem público”. O historiador também cita o cientista político José Murilo de Carvalho, autor de Os bestializados, para reforçar que a chamada Primeira República foi, na prática, um arranjo de minorias sobre uma maioria silenciada.
“A República não incorporou a população ao jogo político”, afirmou Evaldo. O voto era censitário, dependia de renda, excluía analfabetos – que eram a maioria esmagadora da população – e proibia o sufrágio feminino. Ao mesmo tempo, o poder local era dominado por chefes políticos regionais e coronéis, que controlavam eleições e mandatos. “Foi uma república de poucos sobre muitos”, sintetizou. A promessa contida na própria palavra “República” – coisa do povo, coisa pública – não se cumpriu na origem do regime.
Ao longo da entrevista, o professor lembrou que, muito antes de 1889, já havia no Brasil faíscas de republicanismo, ainda que restritas a certos grupos. Ele citou a Inconfidência Mineira (1789), inspirada pela independência dos Estados Unidos e pelo Iluminismo, como um movimento elitista que já falava em república; a Conjuração Baiana ou Revolta dos Alfaiates (1798), de caráter mais popular, com participação de artesãos, soldados e negros livres, defendendo o fim da escravidão e a igualdade racial; e a Insurreição Pernambucana (1817), também chamada Revolta dos Padres, de caráter republicano e federativo no Nordeste.
Nesse contexto, Evaldo destacou o papel do Ceará e de suas figuras históricas. Lembrou que Bárbara de Alencar, do Crato, é considerada a primeira presa política do Brasil por defender ideias republicanas no início do século XIX, e que seu filho, José Martiniano de Alencar, proclamou uma república no Ceará em 1817. Mencionou ainda a Confederação do Equador (1824), com lideranças como Tristão Gonçalves, Pereira Filgueiras e Pessoa Anta, reprimidas e executadas por ordem de Dom Pedro I. “São mártires que ajudaram a forjar uma tradição republicana muito antes do 15 de novembro oficial”, explicou.
A entrevista também abordou o processo de construção de símbolos e mitos da República, especialmente a figura de Tiradentes. Diante de uma imagem exibida no programa, Evaldo lembrou que não há nenhum registro confiável do rosto de Joaquim José da Silva Xavier, mas a iconografia oficial o transformou em uma espécie de “Cristo cívico”: barba longa, cabelos compridos, expressão mansa, numa clara assimilação à imagem de Jesus crucificado. “O Tiradentes que a gente conhece é uma invenção republicana sobre uma personagem real”, observou.
Durante o Império, Tiradentes era figura incômoda, condenado e esquartejado pela Coroa portuguesa, com partes de seu corpo expostas em vias públicas. Interessa à República, no entanto, resgatar e remodelar esse personagem como herói fundador do novo regime. “A República precisava de símbolos, de mitos, de datas. Tiradentes foi reapresentado como mártir da liberdade”, afirmou.
Evaldo comentou ainda o papel do positivismo na formatação do novo regime. A frase inscrita na bandeira nacional – “Ordem e Progresso” – é diretamente inspirada no lema positivista de Auguste Comte: “amor por princípio, ordem por base, progresso por fim”. “Tiraram o amor e deixaram só a ordem e o progresso”, ironizou o historiador. Ele explicou que a influência de pensadores como Miguel Lemos, Teixeira Mendes e, especialmente, Benjamim Constant ajudou a dar uma “roupagem científica” à República, justificando o fim da monarquia em nome da modernização.
Essa influência aparece também na Constituição de 1891, a primeira constituição republicana, que promoveu a separação entre Igreja e Estado, secularizou os cemitérios – até então sob controle eclesiástico – e criou o casamento civil, antes inexistente. “Foi um passo importante para construir uma ética cívica e laica”, avaliou. No plano simbólico, a República também produziu novos hinos, novas datas cívicas e uma “religião civil” com bustos, monumentos, bandeiras e rituais que disputaram espaço com a religiosidade tradicional e com resquícios do imaginário monárquico.
Nem por isso o novo regime promoveu inclusão. Ao comentar o período da chamada República Velha – de Deodoro da Fonseca a Washington Luís –, o historiador lembrou que se tratou de uma fase marcada pelo domínio das oligarquias regionais, pelo coronelismo e por episódios como o massacre de Canudos, durante o governo do primeiro presidente civil, Prudente de Morais. Canudos, liderado pelo cearense Antônio Conselheiro, é, para Evaldo, a maior revolta popular da história da República Velha, esmagada à bala em nome da “ordem”.
Ao final do programa, o historiador fez uma ponte com o presente, sem perder o fio histórico. Para ele, a República brasileira continua sendo um processo em construção, que só avança quando há ampliação da cidadania e participação efetiva do povo nas decisões de Estado. Por isso, ele destacou o simbolismo do atual momento político, com um trabalhador nordestino na Presidência da República e a aposta em mecanismos de diálogo direto com a sociedade. Evaldo mencionou a escolha de Guilherme Boulos para a Secretaria-Geral da Presidência e o projeto de levar o gabinete presidencial às ruas e praças como um sinal de que a disputa pelos rumos da República está em aberto.
“Cidadania não é uma data, é um processo”, reforçou. E concluiu com um recado que serve tanto para o passado quanto para o futuro: “Nós precisamos ampliar cada vez mais os caminhos da cidadania, com educação, justiça, igualdade social e sem golpes de Estado.”
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📅 De segunda à sexta
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